A goiabeira mágica

Pausa para o café. No quintal da repartição tem uma goiabeira mágica. Sim, mágica. Porque todas as vezes que eu a contemplo, ela tem o poder de me levar pelas asas do tempo, de volta aos meus dias de criança, quando eu costumava passar minhas férias escolares na casa da minha avó materna.

De repente eu começo a ver aquele menino moreno, barrigudinho, de cabelos encaracolados, correndo de pés descalços, só de cueca, pelo quintal da casa da vovó. O menino olhava com olhinhos brilhantes para o alto daquela goiabeira, em busca da goiaba mais docinha e subia rápido como um sagui por entre os galhos finos – porém resistentes – da frondosa árvore. E lá em cima ficava por horas intermináveis.

Às vezes, quando o menino aprontava muito, os galhinhos finos daquela mesma goiabeira eram usados como açoite, que chegavam a zunir no ar, antes de estalar nas pernas e na bunda do menino traquinas – isso, claro, quando conseguiam alcançá-lo!

De repente, acordo e volto à realidade dos dias atuais. Percebo que o menino barrigudinho sumiu; que a goiabeira morreu; que a casa da avó materna não existe mais…

Olho para o copo de café e percebo que este também acabou, assim como também acabou a pausa no trabalho. Hora de recomeçar…

O Garoto “Lugar Nenhum”

De 1952 a 1957, John estudou na Quarry Bank Grammar School, onde ficou conhecido pelos seus desenhos e pelas suas mímicas. Nessa escola, em 1956, ele fundou uma banda de rock chamada The Quarrymen e quando o diretor da escola disse ao jovem John que ele nunca chegaria a lugar nenhum, recebeu como resposta: “Lugar nenhum é para onde vão os gênios? Por que se for, é pra lá que eu vou”.

O menino John nasceu em 9 de outubro de 1940. Filho único de Alfred  e Julia. Alfred trabalhava na marinha mercante durante a Segunda Guerra Mundial e mandava frequentemente dinheiro para a mulher e o filho. O dinheiro parou de vir quando Alfred desertou.

Após ser muito criticada pela família por continuar casada e “viver em pecado” com Bobby Dykins, e a considerável pressão de sua irmã Mary “Mimi” Smith (que por duas vezes contactou o Serviço Social reclamando por John ter que dormir na mesma cama que o casal Julia e Bobby) Julia deixou o filho aos cuidados de Mimi.

Em 1946, Alfred visitou a casa de Mimi e levou John até Blackpool e secretamente planejou emigrar para a Nova Zelândia com o garoto. Após o fracasso de sua tentativa, Alfred largou o menino com Julia e não manteve contato com John por muitos anos.

The Quarryman era uma bandinha de escola com pelo menos três jovens muito talentosos: John (vocalista, guitarrista e dono da banda), o menino Paul (vocalista secundário, guitarrista canhoto e à época com apenas 15 anos) e George (guitarrista). Essa banda trocaria de nome ainda umas cinco vezes até chegar ao que todos conhecem: The Beatles!

Toda essa história é retratada no filme O Garoto de Liverpool (Nowhere Boy. UK / CAN; 2009). O filme mostra um pouco da adolescência conturbada; do convívio frio com sua Tia Mimi e da relação que beirava o incesto entre John e sua mãe desajustada que o abandonara quando ele era apenas um menino de cinco anos.

O filme é uma cinebiografia simples. Não merece nenhum Oscar de melhor filme estrangeiro, mas traz a atuação brilhante e forte da veterana Kristin Scott Thomas (indicada para o Oscar de melhor atriz em O Paciente Inglês, de 1996), como Tia Mimi. Talvez o único diferencial desse projeto seja sair da mesmice da beatlemania, mostrando um lado pouco conhecido e divulgado de John. Vale a pena assistir pela curiosidade.

As novas divas do Soul

Quem gosta de boa música não pode ignorar o Soul, bem como seus irmãos R&B, Jazz, Blues e (por que não?) o Pop. E quem é fã deste gênero musical negro norteamericano, descendente direto do Rhythm and Blues e do gospel do final da década de 50 igualmente não pode ignorar nomes consagrados como Ben E. King, Ray Charles, Solomon Burke, Jackie Wilson, Sam Cooke e os Isley Brothers, artistas que fundiram a paixão dos vocais gospel com a música cativante e rítmica do R&B.

O Soul é muito emotivo – não é à toa que significa alma, em inglês - a melodia é bem ornamentada e com improvisações e efeitos sonoros dos instrumentos. Os ritmos pegam facilmente, aliados a uma interpretação dramática do vocalista principal.

Entre os principais artistas, além dos já citados, podemos destacar as divas do gênero, tais como Aretha Franklin, Esther Phillips, Whitney Houston, Janet Jackson e Tina Turner, além das gerações mais novas como Mary J. Blige,Lauryn Hill, Erykah Badu e, claro, Amy Winehouse.

 

Por esses dias eu estava folheando a revista Veja (edição 2228 – ano 44 – nº31, de 03 de agosto de 2011) quando, na página 110, deparei-me com um texto bastante lúcido do crítico musical e articulista Sérgio Martins, intitulado “Uma eterna promessa”, cujo sub-título afirmava: “Amy Winehouse foi uma grande cantora, mas, ao contrário de outros roqueiros que morreram cedo, não deixa uma grande obra”. Confesso que isso me incomodou um pouco, pois eu sou apaixonado pelo trabalho que ela deixou para o mundo, mas também fiquei curioso em conhecer os argumentos do jornalista.

No texto, ele fala que a morte física de Amy “vem abreviar a lenta morte artística que ela vinha encenando em sucessivos fiascos nos palcos”, apesar de que, “no princípio, sua carreira anunciava-se excepcional”. O artigo segue fazendo uma breve retrospectiva biográfica e artística da cantora e elogia seu vozeirão e seu talento inquestionável como letrista. Mas uma coisa me chamou atenção no texto. Quando Sérgio fala do segundo e último disco lançado por Amy, Back to Black, ele diz que “o disco abriu caminho para uma nova moda de cantoras de Soul de voz rascante, como Duffy e Adele”.

Eu já tinha ouvido uma música de Duffy (Stepping Stone),  cantora, compositora e atriz britânica, nascida no País de Gales e que tem a mesma idade de Amy, 27 anos, mas que talvez esteja longe da “maldição dos 27″. Foi paixão à primeira audição. Seu álbum de estréia, Rockferry, lançado em 2008, entrou na UK Albums Chart em 1º lugar. Foi o álbum mais vendido na Grã-Bretanha naquele ano, com 1,68 milhões de cópias vendidas. O álbum foi certificado como Disco de Platina por diversas vezes, e vendeu mais de 6 milhões de cópias em todo o mundo, gerando os hits “Mercy” e “Warwick Avenue”. Com “Mercy”, Duffy se tornou a primeira mulher galesa de 25 anos atingir o número um no UK Singles Chart. Em 2009, ela ganhou o Grammy de Melhor Álbum Pop Vocal com Rockferry, e ela também foi indicada para outras categorias. Em 2009 ela ganhou três Brit Awards, por Melhor Artista Feminina a Solo e Melhor Álbum Britânico. Duffy lançou seu segundo álbum Endlessly, no Reino Unido em 29 de novembro de 2010.

Quanto a Adele – depois que eu corri para pesquisar um pouco – eu não me perdoo de ter passado tanto tempo de minha vida sem ter ouvido esta também inglesa de 23 anos e que foi a primeira a receber o prêmio Critics’ Choice do BRIT Awards e foi nomeada “artista revelação” em 2008 pelos críticos da BBC. Em 2009, Adele ganhou dois Grammy Awards de “Artista Revelação” e “Melhor Vocal Pop Feminino”. Teve seu reconhecimento mundial ao lançar o álbum 21 e dominar as paradas de sucesso nos Estados Unidos e Reino Unido com o single “Rolling In The Deep. Adele atraiu a atenção da XL Recordings com suas três demos no seu perfil no MySpace e acabou por assinar com a gravadora. Desde a sua estreia, o álbum 19 de Adele foi aclamado pela crítica e foi um sucesso em vendas. O álbum estreou em número um e recebeu três certificações de platina no Reino Unido. Sua carreira de sucesso nos Estados Unidos começou após uma apresentação sua no programa Saturday Night Live em 2008. Adele lançou seu segundo álbum 21 em 24 de janeiro de 2011 na Inglaterra e em 22 de fevereiro nos Estados Unidos. O álbum foi um sucesso comercial e com a crítica, vendendo 208 mil cópias na primeira semana de vendas no Reino Unido estreando em primeiro lugar na UK Albums Chart e também liderou as paradas de vendas em vários países. O CD também estreou muito bem nos Estados Unidos alcançando a primeira posição na Billboard 200 vendendo 352 mil cópias na primeira semana.

Depois de uma aclamada performance ao vivo no BRIT Awards de 2011, a canção “Someone Like You” chegou ao primeiro lugar das paradas de sucesso no Reino Unido, enquanto o álbum também permaneceu como número um no país. A Official Charts Company anunciou que Adele é a primeira artista a alcançar, ainda viva, a ter uma canção e um álbum como número um ao mesmo tempo na Inglaterra desde Os Beatles em 1964.

As novas divas do Soul podem até vir agora no rastro do sucesso post mortem de Amy Winehouse, até porque, como é comum aos artistas pop após morrer, sua obra vira febre e, com toda certeza, o estilo de Amy, já seguido em vida por Duffy e Adele vão se fortalecer cada vez mais.

Conhecer o trabalho dessas duas belíssimas vozes foi uma surpresa formidável. Só espero que não fique na modinha…

*Se tiver a fim de conhecer mais um pouco visite:

www.adele.tv

www.iamduffy.com

Exagerado

… Eu sou exagerado mesmo. E pouco me importa se os outros vão gostar ou não dos meus exageros. Sou feliz com eles. Exageradamente feliz. E exageradamente infeliz também, às vezes. Mas não importa. Fico com aquela frase do Vinícius, que dizia: “Ai de quem não rasga o coração! Esse, não vai ter perdão”…

 

Sou exagerado mesmo. Amo exageradamente, bebo e como exageradamente, durmo exageradamente, dou gargalhada quando é para ficar sério… E pouco me importa se as outras mulheres do mundo (incluindo minha mãe) vão se ofender por eu achar que a minha amada é mais perfeita do que elas! Pouco me importam os olhares de inveja ou repulsa que vão me dardejar ao me verem passeando de mãos dadas com a minha vida, numa fresca brisa de uma tarde de domingo.

 

Não gosto de nada pela metade. Quem me conhece sabe disso. Por isso, não me julguem pelos meus exageros. Isso faz parte de minha natureza. E eu sou muito mais exagerado ainda com quem eu gosto. Faço declarações públicas de amor, serenatas à janela, doação de órgãos e o que mais for preciso para manter ao meu lado a pessoa de quem eu gosto.

 

Se você não consegue ser exagerado assim como eu, nem possui alguém assim ao seu lado, eu só lamento. Afinal, ninguém é perfeito…

Use com moderação*

O texto a seguir é de autoria da escritora Lulih Rojanski. Considero um verdadeiro presente para mim e para os amigos leitores deste blog. Lulih é o meu anjo, meu amor… mas antes de tudo é uma mulher maravilhosa e doce, que consegue transmitir em seus textos toda a doçura, serenidade e firmeza de sua alma, nos fazendo viajar por entre suas palavras como quem viaja numa floresta encantada onde as árvores tenham se transformado em letras. Não vou me alongar nesta apresentação. Então, simplesmente delicie-se com este texto…

Abra a porta de minha vida com firmeza, mas não abra mão de entrar de vez em quando pela janela. A primeira coisa que vai me encantar é sua atitude. A segunda, suas garras de tigre. Eu gosto do olhar distraído, mas cuide de onde e quando vai acionar o botão off, pois embora eu adore seu braço tatuado e o desenho pós-moderno de sua boca, meu tesão maior é por seu cérebro. Nunca pense que sei menos porque falo pouco, que sei muito porque meus olhos mostram profunda concentração. Costumo olhar mais para os barcos que passam do que para a teoria do caos. Em compensação, sei dizer duas palavras em polonês: meu amor. Não me acanho de dizer que Jacques Prévert me encanta mais que Platão, que José Mojica Marins mais que François Truffaut e que La Chambre Verte me deu náusea. Detestaria ser perfeita. Lembre sempre a data do meu aniversário, mas jamais mencione quantos anos eu tinha quando você nasceu. Acredite na minha infância, ela realmente existiu! Não ria quando eu falar da encarnação em que fui a Rainha de Sabá, porque, se você prestar bem atenção, vai ver que conservo resquícios de sua altivez. Portanto, me reverencie, às vezes, porém sem se curvar diante dos meus caprichos, porque eu costumo enjoar da submissão. Mais do que flores, permaneça me dando garantia de duradoura libertinagem, de sexo furtivo num terreno baldio, de doses diárias de afagos na nuca. Em minha presença, você só deve olhar pra mim, ainda que estejamos também na presença da Beyoncé. Quer olhar para outra mulher? Olhe para Martha Medeiros, que com ela eu divido qualquer coisa. Mas se ainda assim olhar para outras mulheres, que seja só para constatar que, definitivamente, eu sou muito melhor! Não precisa gostar de futebol apenas porque eu gosto, mas nunca torça contra meu time. Tenha noção de tempo, e nunca pergunte as horas quando estiver na cama comigo. Tenho muitas manias, mas não a do sexo apressado nem a do sono antes da meia-noite. Depois, o que pode haver além de nosso mundo quando estivermos na cama sobre a estampa da partitura de um allegro? Não me deixe brigando sozinha. Eu posso pensar que você não é de nada. Discuta à altura, mas não esqueça que no final das contas eu tenho razão. É o único modo de eu reconhecer que a razão é sua. Goste de carne vermelha mal passada, de lasanha de espinafre e de pudim de maracujá, senão nunca poderemos jantar juntos. De minha parte, prometo gostar imensamente de rúcula, de tomate seco e de pão integral. Perceba e elogie a mudança de cor dos meus olhos, conforme a luz do dia ou de acordo com meu grau de alegria, mas jamais diga que estou com olheiras. Desnecessário. Tenho em casa vários espelhos. Seja sempre terno, doce e inusitadamente louco. Adoro quebrar a mansidão com uma pegada bem firme, sair da rotina com um convite à pirataria, a um bar imaginário, ao heavy-rock-punk-trash. Cante pra mim ao telefone, me conte de quantas seitas foi adepto, confesse que tomou Daime, que fez picolé de cogumelo e que adorou cannabis no narguilé. Mate-me de rir de sua cueca nova, me sirva pão com ovo e café com leite pela manhã, pois eu sou de carne e osso, embora adore fazer você pensar que nasci no Olimpo. E nunca se canse de repetir que me ama bem muito. Acredite: vai sempre funcionar!

*Inspirado em “Eu, modo de usar”, de Martha Medeiros.

Juntando pedaços…

O menino chegou em casa com as mãozinhas juntas em concha, cheias de caquinhos vermelhos miúdos. Correu para seu quarto e espalhou aqueles mil pedacinhos em cima dos lençóis brancos de sua vazia cama. Olhou para todos os cantos do seu aposento e não conseguiu encontrar nada que servisse de remendo. Vasculhou as gavetas do armário. Correu para ver se havia algum resto de Super-Bonder esquecido na porta da geladeira. Nada, absolutamente nada servia para juntar novamente aqueles mil caquinhos vermelhos que trouxera nas mãos.

Foi então que veio à lembrança os olhos tristes azuis de sua amada e as palavras secas que proferira sem que o menino atinasse para o fato de que o coração dela também se partira. O que teria acontecido? O que o menino teria feito dessa vez que tanto magoou o coração de sua amada?

Respostas não havia – pelo menos na suposta inocência do menino. De concreto mesmo só havia a certeza (pela amada anunciada) de que ele teria, sim, provocado tamanho desencanto…

E por mais que insistisse e tentasse, ele não via razão para sua suposta culpa. A única coisa que ele sabia era que, se sua amada estava ferida, haveria de ter uma razão. Teria sido a Maria, ou o João? Teria sido alvoroço, ou solidão? Teria sido, enfim, a Lua que entrara em conjunção com Plutão? – Qual era a razão, meu Deus, qual era a razão?

O pensamento do menino cada vez mais se turvava e ele sentia o sangue gelar em suas veias. E, sem que achasse razão aparente para tal acontecido, ouviu um estalo no peito e seu coração amoroso se partiu em cacos.

Ainda deu tempo ele juntar tudo nas mãos – os caquinhos vermelhos – e correr para casa, tentando remendar. Mas não havia remendo que não fosse o perdão de sua amada (ainda que ele não soubesse o crime que cometera).

Talvez ele nunca saiba. Talvez nem precise mesmo saber. Apenas uma coisa lhe é certa: sem o amor de sua amada, o menino pode até morrer…

A Conspiração Informática

Isso já deve ter acontecido com você (é mais comum do que se imagina): você está no seu trabalho e, de repente, pimba! Seu computador dá bug

 

Nesse momento, você acabou de perder algumas horas de seu precioso trabalho porque nunca se lembra de salvar e confia (às vezes faz até uma oração) que o documento tenha sido salvo automaticamente pelo software – ledo engano (tsc, tsc, tsc) pois, nessa hora, nem Jesus salva se você mesmo não tiver usado o Ctrl+S.

 

Diante da tragédia anunciada (pois seu chefe canibal a essa hora já está com água na boca para comer seu fígado), você inocentemente telefona para o setor de informática, na esperança de ser socorrido. Então, em poucos minutos, entra em sua sala um jovem com a metade (ou mais da metade) de sua idade, tênis All Star desbotado, uma calça jeans surrada e uma camiseta com a estampa do Darth Vader ou do Seu Madruga, além de um par de óculos de grau com armação de acetato preto em estilo retrô. Com aquele ar natural de arrogância juvenil e do alto de sua cara cheia de espinhas, aquele rapaz só tem em mente um pensamento: “Tiozinho burro! Aposto que isso é problema de B.I.O.S. – Bicho Ignorante Operando o Sistema!”.

 

O jovem bizarro, então, mexe de um lado, mexe de outro, aperta rapidamente uma sequência de botões no seu teclado e, como num passe de mágica, (ufa!) sua máquina volta a funcionar normalmente. Seu documento está perdido mesmo, mas ainda dá tempo de você recomeçar o trabalho.

 

Você pergunta ao garoto qual foi o problema, mas como ele tem plena certeza que você não sabe de nada, dá-lhe uma resposta hermética e garante que não foi nada grave. Nos dias seguintes, o problema se repete. Você se descabela com a sequência de bugs e o garoto garante o emprego dele, sendo o único capaz de resolver os seus problemas com a sua máquina (ainda que paliativamente)…

Como eu já falei antes, nada disso deve ser novidade para você. O que você não sabe, porém, é a verdade que existe por trás de tudo isso!

 

Você não sabe que, na verdade, aquele jovenzinho asqueroso faz parte de uma terrível sociedade secreta que, pouco a pouco, está dominando o mundo. A sociedade secreta em questão é a NERD (Nova Era da Realidade Digital) e seus adeptos, os nerds, estão espalhados por todos os lugares.

Suspeita-se que os nerds tenham surgido ainda no século XVIII, em plena Revolução Industrial, tendo sido John Napier (1550-1617), um escocês inventor dos logaritmos, o fundador desta ordem hermética (ele também inventou os “ossos de Napier”, que eram tabelas de multiplicação gravadas em bastão, o que evitava a memorização da tabuada).

 

Depois disso veio Ediin, com sua máquina capaz de somar, subtrair, multiplicar e dividir. Essa máquina foi perdida durante a Guerra dos Trinta Anos. Durante muitos anos nada se soube sobre essa máquina, por isso, atribuía-se a outro nerd famoso, Blaise Pascal (1623-1662) a construção da primeira máquina calculadora, que fazia apenas somas e subtrações.

 

A máquina Pascal foi criada com objetivo de ajudar seu pai a computar os impostos em Rouen, França. O projeto de Pascal foi bastante aprimorado pelo matemático alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1726), que também inventou o cálculo, o qual sonhou que, um dia no futuro, todo o raciocínio pudesse ser substituído pelo girar de uma simples alavanca. Nascia aí a vontade desta sociedade secreta dominar o mundo e o pensamento da humanidade!

 

Após uma longa e oculta sucessão de fatos históricos, o primeiro computador eletro-mecânico foi construído por outro nerd, Konrad Zuse (1910–1995). Em 1936, esse engenheiro alemão construiu, a partir de relês que executavam os cálculos e dados lidos em fitas perfuradas, o Z1. Zuse tentou vender o computador ao governo alemão, que desprezou a oferta, já que não poderia auxiliar no esforço de guerra. Os projetos de Zuse ficariam parados durante a guerra, dando a chance aos americanos de desenvolver seus computadores.

 

Foi na Segunda Guerra Mundial que realmente nasceram os computadores atuais. A Marinha americana, em conjunto com a Universidade de Harvard, desenvolveu o computador Harvard Mark I, projetado pelo professor Howard Aiken, com base no calculador analítico de Babbage. O Mark I ocupava 120m³ aproximadamente, conseguindo multiplicar dois números de dez dígitos em três segundos. Era um verdadeiro templo da informática.

A partir daí, a evolução das máquinas e da seita NERD não parou. Nomes famosos como Bill Gates, Steve Jobs, Mark Zuckerberg, entre outros, fazem parte desta sociedade que possui um verdadeiro exército de jovens que usam tênis, jeans, camisetas geeks e blusas xadrez.

 

Eles possuem também um código, um pacto secreto:

 

“Criaremos frentes separadas de atuação para evitar que eles vejam a conexão entre nós. Nos comportaremos como se não estivéssemos conectados, para manter viva a ilusão. Nosso objetivo será alcançado byte-a-byte, para nunca trazer suspeitas sobre nós. Estaremos sempre acima do campo relativo da experiência deles, pois nós retemos os segredos do absoluto. Usaremos nossos conhecimentos de ciência de forma sutil, para que eles nunca vejam o que está acontecendo. Precisamos ser espertos na disseminação de vírus. Eles crescerão com depressão, devagar e obesos, e quando vierem nos pedir ajuda, nós iremos dar a eles mais softwares e redes sociais. Iremos focalizar a atenção deles para o dinheiro e bens materiais, de tal forma que eles nunca possam conectar-se sem serem obsoletos. Iremos encontrar modos de implementar tecnologias de controle mental em suas vidas, tais como o Kinect e outras ferramentas de realidade aumentada. Quando nosso objetivo for conseguido, uma nova era de dominação irá começar (a Nova Era da Realidade Digital – NERD). Este é o pacto secreto pelo qual viveremos pelo resto das nossas vidas presente e futura, pois esta realidade irá transcender muitas gerações e muitos períodos de vida. Este pacto é selado com bits, nossos bits. Nós, os eleitos, aqueles que do céu para a terra vieram”.

 

E assim, nós, simples mortais, vamos sobrevivendo, sem que estes filhos da puta resolvam um só dos nossos problemas cotidianos com a informática!

Crônica de uma saudade

… E então me vi sozinho, deitado sobre a partitura de um adágio em sol maior, como o de Albinoni. Em meio à melancolia e à ansiedade de reencontrar-me com Ela, vesti uma roupa de domingo e saí pelas ruas, carregando no rosto, além de um semblante triste e um olhar distante, o cheiro da chuva que se anunciava para breve e, nas mãos, um livro de Vinícius. Por mais que eu caminhasse por ruas, estradas e caminhos, por mais que centenas de pessoas cruzassem meus passos aleatórios, eu não conseguia ver o rosto d’Ela. Procurei-a por todos os lugares – ruas e rios, risos e olhares – mas eu não a encontrava. “E eu que preciso d’Ela como um pássaro precisa de céu”, pensava. Acordei com batidas intermitentes na porta. Olhei pela janela e era Ela! E então Ela deitou-se por sobre a minha partitura, transformando em alegro cantante aquele adágio triste…

Vivere parvo

 

Diógenes, o Cínico, era um filósofo da Grécia Antiga que tornou-se um mendigo que habitava as ruas de Atenas, fazendo da pobreza extrema uma virtude. Ele vivia num grande barril, no lugar de uma casa, e perambulava pelas ruas carregando uma lamparina, durante o dia, alegando estar procurando por “um homem honesto”.

Reza a lenda que seus únicos bens eram um alforje, um bastão e uma tigela (que simbolizavam o desapego e autossuficiência perante o mundo), sendo ele conhecido também, talvez pejorativamente como kinos, o cão, pela forma como vivia.

A felicidade – entendida como autodomínio e liberdade – era a verdadeira realização de uma vida. Sua filosofia combatia o prazer, o desejo e a luxúria pois isto impedia a autossuficiência. A virtude – como em Aristóteles – deveria ser praticada e isto era mais importante que teorias sobre a virtude.

Diógenes é tido como um dos primeiros homens (antecedido por Sócrates com a sua célebre frase “Não sou nem ateniense nem grego, mas sim um cidadão do mundo.”) a afirmar, “Sou uma criatura do mundo (cosmos), e não de um estado ou uma cidade (polis) particular”, manifestando assim um cosmopolitismo relativamente raro em seu tempo.

É famosa, por exemplo, a sua história com Alexandre, o Grande, que, ao encontrá-lo, ter-lhe-ia perguntado o que poderia fazer por ele. Acontece que devido à posição em que se encontrava, Alexandre fazia-lhe sombra. Diógenes, então, olhando para a Alexandre, disse: “Não me tires o que não me podes dar!”. Essa resposta impressionou vivamente Alexandre, que, na volta, ouvindo seus oficiais zombarem de Diógenes, disse: “Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes”.

Conheci algumas histórias de Diógenes através dos velhos livros do meu pai que, apesar de matemático, sempre foi um grande humanista. E desde sempre me identifiquei com aquele filósofo que tinha como lema “vivere parvo” (em latim, “viver do pouco”). Nunca tive muitas necessidades materiais – “Eu não preciso de muito dinheiro, graças a Deus!”, como diz a letra daquela música antiga – e sempre desejei, no máximo, viver em paz.

Ultimamente – e eu quero deixar aqui bem claro, sem um motivo específico – venho ficando cada vez mais abusado de certas coisas desse mundo contemporâneo em que vivemos. Simplesmente por ser um mundo em que tudo parece ser tão superficial quanto a página deste blog. Lembro do início da internet, quando surgiram os primeiros IRCs, chats e cidades virtuais, antecessores já remotos das atuais redes sociais. Tudo era moda e quem não estivesse conectado não era cool – assim permanece até hoje. Tem gente que é tão viciada que, quando a conexão do seu modem está lenta, seu coração começa a bater em disritmia também. Alguns profissionais (e aqui eu só posso falar dos meus colegas jornalistas) não sabem mais fazer nada se não tiver uma internet pra produzir seus textos repletos de CTRL+C / CTRL+V. Ah, fala sério!

Já falei antes aqui sobre o Twitter, uma ferramenta que nunca me apeteceu, depois veio a enxurrada de orkuteiros sem noção que dominaram o mundo virtual com suas bobagens. Agora o Facebook é a bola da vez, onde muitos já reclamam da “orkutização” de uma ferramenta de comunicação revolucionária, mas que muita gente ainda não sabe realmente para que serve e usa todos os recursos disponíveis apenas para tentar viver aquele sonho dos 15 minutos de fama que Andy Worhol previu nos anos 60.

Certo dia reencontrei um velho amigo que há anos eu não via. Jornalista, produtor de audiovisual, um cara altamente descolado e inteirado com o mundo, ele não possui contas de Twitter, Orkut, Facebook, MSN ou qualquer outra coisa parecida, a não ser uma conta de e-mail pra manter alguns contatos. Ele também não possui telefone celular. O mais incrível disso tudo é que ele vive muito bem sem todas essas bugingangas virtuais.

Como um Diógenes moderno, o meu velho amigo faz questão de mostrar que é ainda é possível viver no mundo real e que o mundo virtual, muitas vezes, não passa de uma vitrine de fantasmas decadentes que passam a eternidade tentando aparecer para os “vivos”.

Como Diógenes e meu velho amigo Bruno Sena, cada vez mais me convenço da verdade do lema “vivere parvo” e penso que todos nós precisamos , de acordo com a realidade de cada um, voltar a praticar coisas simples do mundo como sair de casa, ver as outras pessoas na rua, conversar pessoalmente, olhar nos olhos do outro, dizer o que se pensa sem a necessidade de se esconder por trás de escudos…

Que as conexões transformem-se em abraços e apertos de mão verdadeiramente amistosos. Que os bate-papos saiam das telas dos computadores e encham as praças, ruas e, sobretudo, as mesas dos bares. Que as pessoas abandonem o chilrear (twitter, em inglês) dos computadores e ouçam o canto dos pássaros que rasgam os céus e enfeitam as árvores e alamedas. E que os “livros de rostos” tornem-se rostos vivos e sorridentes no mundo real.

Com esse texto, aos poucos me despeço das redes sociais (por enquanto e até quando me der na telha manterei esse blog). Quero amigos de verdade que estejam sempre por perto e com quem eu possa contar. Quero abandonar de vez a frieza dos bits e bytes e sentir o calor humano e o sangue correndo nas veias, no caminhar do meu dia a dia.