Memórias…

Confesso que o post anterior mexeu comigo e reavivou algumas lembranças de minha vida. Lembranças estas (pelo menos algumas delas) que compartilharei aqui nesse espaço.

Isso não é nada especial. É algo que faço por mim mesmo, como um exercício de parar um pouco, olhar para trás, para o que passou e, com uma olhar sereno e tranquilo, seguir adiante no caminho que nos espera. Memórias. São apenas memórias…

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O ano era 1992. Foi um ano intenso. No dia 1 de Setembro o deputado Barbosa Lima Sobrinho entregava à Câmara dos Deputados o pedido de impeachment contra o presidente Collor, pedido que seria aprovado pelo Congresso Nacional no dia 25 do mesmo mês.

Itamar Franco, vice-presidente, assumiria interinamente a presidência, enquanto nas ruas de todo o País, o povo voltava a se mobilizar para pressionar o Congressoo a expulsar o cara que tinha confiscado a poupança dos brasileiros e tinha causado uma enorme crise ética e política meses antes. Era o fim da “Era Collor”, o “presidente mauricinho”.

Em outubro (02) acontecia a terrível chacina na Casa de Detenção do Carandiru (SP); o continente americano comemorava seus 500 anos de descoberta por Cristóvão Colombo e o casal Lady Diana e Príncipe Charles se separava.

Voltando a Fernando Collor, no dia 29 de Dezembro ele renunciaria à Presidência do Brasil, após processo de impeachment e, mesmo assim, teria seus direitos políticos suspensos por oito anos. O “topetudo” Itamar Franco assumiu em caráter definitivo a chefia do executivo nacional.

Ainda esse ano acontecia a Rio 92, uma grande conferência mundial sobre o meio ambiente realizada, no Rio de Janeiro. E, finalmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) deixava de considerar a homossexualidade como doença!

Anos incríveis! Anos dourados! Anos rebeldes… E, falando nisso, boa parte dessa agitação política e mobilização nas ruas para o impeachment do Collor, era promovida pelo que ficou rotulada pela mídia nacional (leia-se Global!) como “geração cara-pintada”. Eu fui um “cara-pintada”! Mas ao invés de pintar minha carinha juvenil com as cores verde e amarela, eu me pintava de preto, em sinal de luto e de vergonha de viver num país como o Brasil daqueles dias…

Eu pertencia a um grupo anarco-punk chamado M.A.C.G (Movimento Anarquista de Campina Grande), que depois se uniu ao Movimento Carcará, outro grupo político-anarquista mais bem articulado junto à classe estudantil e aos movimentos sociais de base, mas mantendo-se independente das politicagens da UNE, UBES, etc….

Enquanto os “burguesinhos caras-pintadas” faziam desenhinhos bonitinhos no rosto com as cores da banedeira e cantavam “Caminhando e cantando e seguindo a canção…” – fortemente influenciados pela minissérie global “Anos Rebeldes” (que foi, por sinal, estrategicamente veiculada nessa época) – o movimento anarquista se vestia e se pintava de preto e ia para as ruas “dar a cara à tapa”, enfrentar polícia, exército, o diabo! Gritando palavras de ordem como “ANARQUIA NÃO É ANOMIA”, ou “O POVO UNIDO, O POVO ORGANIZADO NÃO PRECISA DE PARTIDO, NÃO PRECISA DE ESTADO!”…

Não éramos, nem queríamos ser melhores do que ninguém. Também não tínhamos aquela velha utopia clássica do Anarquismo de querer mudar o mundo a ferro e a fogo. Nosso principal objetivo era acordar as pessoas com o nosso grito. Mostrar que a iniciativa deles precisava ser autêntica, convicta, não uma moda passageira estimulada por uma rede de televisão que, claramente, tinha seus interesses por trás (eles tiveram o poder de o colocar no poder, agora, convenientemente, eles queriam tirá-lo do poder).

Fizemos a nossa parte. Só isso! E, pelo menos na minha cidade, conseguimos concretizar algumas coisas que queríamos. Os tapas, cacetadas e empurrões que sofremos dos policiais valeram à pena. E nosso único revide era de forma pacífica.

Lembro-me que, exatamente no dia 07 de setembro, durante a parada cívica, nós estávamos protestando. Nosso protesto era simples. Conssitia apenas em fazermos o nosso próprio desfile na “contra-mão” dos militares. A polícia interveio para nos retirar da avenida. Foi um momento tenso. Mas, para nós, era apenas mais um momento comum…

A tropa de choque da PM veio pra cima do nosso grupo, marchando e batendo os cacetetes nos escudos, para nos intimidar. De repente, eles pararam a uns 05 metros na nossa frente e um dos nossos companheiros falou em voz alta: “AMIGOS! ABAIXEM SUAS ARMAS. NOSSO PROTESTO TAMBÉM É FEITO POR VOCÊS! NOSSA BRIGA É COM AQUELE QUE ROUBOU O NOSSO DINHEIRO E O DINHEIRO DE VOCÊS!”. Nisso, uma outra companheira nossa se aproximou do comandante da tropa sozinha, com uma flor na mão e entregou para ele. Comovido, o comandante pediu gentilmente que saíssemos da avenida e, para espanto de todos, as pessoas que assistiam ao desfile começaram a nos aplaudir… Foi um grande dia! Conseguimos dar o nosso recado.

(Talvez esse artigo continue…)

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