Memórias (parte II)

O post intitulado “Memórias” mostrou um lado meu que poucos conhecem.

Para muitos que me vêem esse “quase” senhor de 33 anos de idade, separado, pai de dois filhos, etc., nem sequer imagina que eu já tenha participado de um movimento anarco-punk e que, desde os meus 13 anos de idade já estava metido com gente “alternativa”, “esquisita”… Enfim…

Por isso hoje eu vou falar sobre minha relação com o Anarquismo e como me tornei um punk entre o final dos anos 80 e início dos anos 90. A partir daí, aproveitarei o espaço pra falar sobre algumas coisas que eu ainda acredito.

Como filho de pai e mãe professores, eu me alfabetizei muito cedo, aos 05 anos. Minha mãe, professora de alfabetização, dava um reforço naquilo que eu aprendia na escola. Meu pai, ainda hoje, é professor de matemática, mas ele sempre foi um grande humanista. E foi com ele que, já aos 08 anos de idade eu comecei a me aproximar dos grandes humanistas da História, tais como Sócrates, Platão, Aristóteles, entre outros…

Nessa fase da infância o exemplo dos pais é fundamental para a formação do pensamento e do caráter do ser humano. Quando eu via meu pai circunspecto, com um livro nas mãos, eu corria para a rica estante de livros dele, pegava qualquer livro e me sentava ao lado dele, lendo também. O que começou como uma simples imitação de criança, foi aos poucos se tornando meu passatempo predileto, ao ponto de, por volta dos meus 10 anos de idade, eu já estar abandonando meus carrinhos e bonecos para ficar horas devorando os verbetes das enciclopédias “Conhecer Universal” e “Delta Larousse”!

E foi assim que, por volta dos meus 11, 12 anos, eu já tinha um pensamento crítico desenvolvido e já debatia com meu pai e com alguns amigos dele, temas como filosofia, política, religiões… Sempre gostei de pessoas mais velhas. Eu mesmo sempre me senti velho ao lado de outras pessoas da minha idade que só pensavam em jogar Atari e assistir “A Turma do Balão Mágico”…

Aos 13 anos, quando eu cursava a 8ª série, ganhei de presente de uma tia minha o livro da “Coleção Primeiros Passos”, chamado “O que é o Anarquismo”. Na época, essa minha tia conhecia um pessoal da Universidade Federal da Paraíba que estava organizando um grupo de estudos sobre o Anarquismo. Como ela sabia que esses assuntos já me interessavam, me presenteou com o tal livrinho. Na mesma época, soube que a minha professora de História da escola também se interessava pelo Anarquismo e ela se tornou para mim numa grande fonte de estudos! Tinha também um colega de sala, meio “nerd”, chamado Wittenburgo (putz, que nome escroto!) que era parecido comigo nesse aspecto de “leituras afins”. Só que ele era o meu oposto. Enquanto eu já ouvia rock’n’roll e andava com roupas rasgadas, ele era todo certinho, a ponto de ser chato. E o pior, ele era apaixonado pelo Comunismo marxista! Vivíamos tendo brigas homéricas sobre o melhor modelo socialista, nessa época! (Good times!)

Foi nesse mesmo ano (1990) que fui passar férias em João Pessoa e pedi à minha tia (que me presenteara com o livrinho sobre Anarquismo e que morava lá) pra me levar em uma reunião do tal grupo de estudos da UFPB. Foi um dia inesquecível!

Ao chegar à reunião (que era realizada numa sala de aula no bloco do curso de História, da UFPB), deparei-me com uma diversidade de figuras que iam de professores “hippongas”; “nerds” cheios de espinhas na cara; senhores sisudos de cabelos brancos e punks de cabelo espetado, jaqueta de couro e piercings na cara…

Eu era o mais novo dali e logo fiquei conhecido como “mascote” do grupo (rsrs). As reuniões iniciavam com a leitura de algum texto “clássico” e seguia com debates que tentavam trazer aquelas idéias para a conjuntura político-social daquele momento. Lembro que um senhor grisalho, professor da Federal, lembrava constantemente que não devíamos ter aqueles textos “clássicos” como “sagradas escrituras”, ou “a última palavra sobre o Anarquismo”. Ele costumava citar Woodcock ao dizer que a posição do anarquismo é diferente de outras correntes socialistas pelo fato de não ter “gurus” ou “profeta” a quem todos deveriam seguir. Assim, seguíamos debatendo e procurando exprimir nossas próprias idéias e compreensão acerca do que vinha a ser o Anarquismo.

Aquelas reuniões para mim foram fundamentais porque, além de tomar um contato maior com o Anarquismo, passei a tomar contato também com o movimento punk (que ainda hoje é muito forte em João Pessoa).

O movimento punk faz parte de uma contra-cultura urbana que tem algumas características como o princípio de autonomia (Anarquismo Individualista), simplicidade, sarcasmo niilista e a subversão da cultura tradicional.

Ao longo dos anos, a cultura punk desenvolveu um estilo musical, uma moda própria e outros elementos voltados ao design, às artes plásticas, ao cinema, à poesia, e também ao comportamento (podendo incluir ou não princípios éticos e políticos definidos), além de um vocabulário próprio, símbolos e outros códigos de comunicação.

Outra consideração importante é que, a partir do fim da década de 1970, o conceito de “cultura punk” adquiriu novo sentido com a expressão “Movimento Punk”, que passou a ser usada para definir sua transformação em tribo urbana, substituindo uma concepção abrangente e pouco definida da atitude individual e fundamentalmente cultural pelo conceito de movimento social propriamente dito, com a aceitação individual de uma ideologia, comportamento e postura comum à maioria dos membros do “movimento”.

Nas cidades aonde existe, o movimento é geralmente organizado com o intuito de alcançar objetivos – seja a revolução política ou simplesmente a preservação e resistência da “tradição” punk (se é que podemos usar esse termo), como forma cultural deliberadamente marginal e alternativa à cultura tradicional vigente na sociedade.

No caso dos punks de João Pessoa, naquela época, existiam dois grupos: um, engajado politicamente com o Anarquismo e os chamados “punks de boutique”, que só queriam saber de curtição e tirar onda com as pessoas no calçadão da Praia de Tambaú (um dos principais cartões postais da cidade).

Ao voltar para minha cidade (Campina Grande), comecei a conhecer um pessoal que curtia metal. Eu era praticamente o único punk da cidade. E foi a partir daí que começamos a organizar um grupo de estudos nos moldes do que eu havia participado em João Pessoa. Logo, alguns “metaleiros” migraram para o punk. Nascia assim o “Movimento Anarco-Punk de Campina Grande (MACG)”.

Conseguimos uma sala de aula num colégio estadual. O diretor da escola era amigo do meu pai e professor de História. Ele ficou fascinado quando eu disse que queria o espaço para montar um grupo de estudos sobre o Anarquismo e nos cedeu a sala, para nos reunirmos aos sábados, a partir das 15h.

Conseguimos reunir um bom acervo com textos de “clássicos” como Proudhon, Malatesta, Nietzsche, Thoreau, Tolstoi, Bakunin, Kropotkin, entre outros. E mantínhamos correspondência com uma rede de “fanzineiros” que escreviam sobre Anarquismo, movimento punk e temas afins.

Ganhamos espaço junto ao movimento estudantil na cidade, principalmente quando unimos força com um outro grupo anarquista que iniciava suas atividades na cidade, o “Movimento Carcárá” e, logo estávamos liderando protestos contra aumentos abusivos de passagens de ônibus ou mensalidades escolares. Instituímos o “Dia do Pulo”, onde todos os estudantes eram incentivados a pular a roleta ou descer pela porta traseira dos ônibus sem pagar passagem, em protesto pelo aumento abusivo das passagens.

Fazíamos “muros humanos” nas portas das garagens das empresas de ônibus e nenhum ônibus rodava na cidade nesse dia.

Íamos para a frente das escolas particulares da cidade com carros-de-som e discursávamos contra o aumento das mensalidades até ser impossível alguém assistir aula.

Fazíamos campanhas de agasalho para os necessitados durante o inverno e a “Noite da Sopa”, toda quinta-feira, quando nos reuníamos em praça pública e distribuíamos um caldeirão de sopa para os mendigos do centro da cidade.

Por estas e outras iniciativas, o MACG ganhou a simpatia  e o respeito de muita gente na cidade, mas também o ciúme de outros tantos que tinham outros interesses escusos.

Infelizmente, com o passar do tempo, alguns “deslumbrados” fizeram do movimento estudantil um degrau para a política e alguns chegaram até a se candidatar a vereador! O movimento foi se corrompendo e enfraquecendo logo após o impeachment do Collor. Parecia que o Brasil voltava a um período de paz e progresso com o novo “Plano Real”, que estabilizava a moeda nacional e pela primeira vez, depois de anos de sérias crises, tornava a moeda brasileira mais forte que o dólar americano. Além disso, a Seleção Brasileira ganhava finalmente mais um título mundial (1994) depois de um longo jejum…

Daí pra frente, já começa um outro capítulo da nossa História…

(continua)

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