O menestrel do sertão

Se estivesse vivo (em corpo físico), ele estaria completando hoje 101 anos de idade. Mas o homem não é eterno. A poesia, sim, é eterna. Eterna é a poesia de Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré, talvez o maior poeta popular, compositor, cantor e improvisador brasileiro.

Filho de uma família pobre de agricultores, ficou cego de um olho por causa de uma doença quando ainda criança.

Com a morte de seu pai, quando tinha nove anos de idade, passou a ajudar sua família no cultivo das terras. Aos doze anos, freqüenta a escola local, em que é alfabetizado, por apenas alguns meses. A partir dessa época, começa a fazer repentes e a se apresentar em festas e ocasiões importantes.

Por volta dos vinte anos recebe o apelido de “Patativa”, por sua poesia ser comparada à beleza do canto da ave patativa (nativa da região nordeste).

Participava do programa da rádio Araripe, declamando seus poemas, quando lançou seu primeiro livro, Inspiração Nordestina (1956). Em uma segunda edição (1967), com acréscimos de alguns poemas, este livro foi publicado sob o título Cantos do Patativa.

Em 1970 é lançada nova coletânea de poemas, Patativa do Assaré: novos poemas comentados, e em 1978 foi lançado Cante lá que eu canto cá. Os outros dois livros, Ispinho e Fulô e Aqui tem coisa, foram lançados respectivamente nos anos de 1988 e 1994.

Patativa obteve popularidade a nível nacional, possuindo diversas premiações, títulos e homenagens, tendo sido nomeado por cinco vezes Doutor Honoris Causa, ainda que semi-analfabeto.

Afirmava nunca ter buscado a fama, bem como nunca ter tido a intenção de fazer profissão de seus versos. Nunca deixou de ser agricultor e de morar na mesma região onde se criou no interior do Ceará.

Seu trabalho se distingue pela marcante característica da oralidade. Seus poemas eram feitos e guardados na memória, para depois serem recitados. Daí o impressionante poder de memória de Patativa, capaz de recitar qualquer um de seus poemas, mesmo após os noventa anos de idade.

A transcrição de sua obra para os meios gráficos perde boa parte da significação expressa por meios não-verbais (voz, entonação, pausas, ritmo, pigarro e a linguagem corporal através de expressões faciais, gestos) que realçam características expressas somente no ato performático (como ironia, veemência, hesitação, etc.).

A complexidade da obra de Patativa é evidente também pela sua capacidade de criar versos tanto nos moldes camonianos (inclusive sonetos na forma clássica), como poesia de rima e métrica populares (por exemplo, a décima e a sextilha nordestina).

Ele próprio diferenciava seus versos feitos em linguagem culta daqueles em linguagem do dia-a-dia (denominada por ele de poesia “matuta”).

Patativa transitava entre ambos os campos com uma facilidade camaleônica e capacidade criadora e intelectual ainda não totalmente compreendidas pelo meio acadêmico.

Sua obra, de dimensão tanto estética quanto política, aborda diferentes temas e possui outras vertentes além da social/militante; como a telúrica, religiosa, filosófica, lírica, humorística/irônica, motes/glosas, entre outras.

As múltiplas tentativas de categorização da obra de Patativa do Assaré (muitas vezes subjetivas e sem base teórica) expõem falhas inerentes dos próprios parâmetros de julgamento. Estes, na maior parte, baseados em pressuposições e preconceitos que levam a dois extremos: a representação idealizada do mito, a exclusão pela classe social, nível de escolaridade, etc.

Faleceu em 08 de julho de 2002 em Assaré, mesma cidade onde nasceu.

Aos Poetas Clássicos (fragmentos):

                                                        Poetas niversitário,
                                                        Poetas de Cademia,
                                                        De rico vocabularo
                                                        Cheio de mitologia;
                                                        Se a gente canta o que pensa,
                                                        Eu quero pedir licença,
                                                        Pois mesmo sem português
                                                        Neste livrinho apresento
                                                        O prazê e o sofrimento
                                                        De um poeta camponês.

                                                        Eu nasci aqui no mato,
                                                        Vivi sempre a trabaiá,
                                                        Neste meu pobre recato,
                                                        Eu não pude estudá.
                                                        No verdô de minha idade,
                                                        Só tive a felicidade
                                                        De dá um pequeno insaio
                                                        In dois livro do iscritô,
                                                        O famoso professô
                                                        Filisberto de Carvaio.

                                                        (…)

                                                         Poeta niversitaro,
                                                         Poeta de cademia,
                                                         De rico vocabularo
                                                         Cheio de mitologia,
                                                         Tarvez este meu livrinho
                                                         Não vá recebê carinho,
                                                         Nem lugio e nem istima,
                                                         Mas garanto sê fié
                                                         E não istruí papé
                                                         Com poesia sem rima.

Anúncios

Um comentário sobre “O menestrel do sertão

  1. Pode crê Silvio
    Essa semana o “povo” brasileiro só se lembra do centenário de Tancredo Neves, que deu sua parcela de contribuição na hitória do país, é claro, mas não deixou algo que afague a alma como Patativa, que sem estudar pelo menos aprendeu a não roubar a consciência do povo brasileiro, o Tancredo deixou como herança o ARRGH!!!sarney, aécio e um bando de seguidores infiéis ao que (pelo menos)ele pregava que era a Democracia.quem sabe se ele tivesse assumido a presidencia hj não teríamos o SR. de bigode fazendo seus desmandos por esses lados não é? mas essa é uma resposta que nunca teremos
    abraços!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s