O dia em que John Lennon errou…

Em um dia frio de dezembro de 1970, depois de um silêncio angustiante de meses, John Lennon lançava seu primeiro trabalho solo oficial. Era um trabalho quase terapêutico  – na época, ele e Yoko participavam da terapia primal do Dr. Arthur Janov, em Los Angeles, onde tentava lidar com seus traumas da infância (abandono, isolamento e morte).

Seu álbum, chamado John Lennon Plastic Ono Band, mostrava toda a sua revolta e desapontamento com o mundo e com ele mesmo, em músicas vicerais como Mother, onde fala sobre o abandono dos pais na infância e God, onde ele diz: “Deus é um conceito, pelo qual nós medimos nossa dor […]. Eu não acredito em mágica […]; eu não acredito em Bíblia […]; eu não acredito em Jesus […]; Buda […]; eu não acredito em reis; eu não acredito em Elvis […]; eu não acredito em Beatles. Eu só acredito em mim. Em Yoko e em mim. E isso é real. O sonho acabou […]”.

Sim. Podia parecer estranho, mas o “sonho” ao qual Lennon se refere na música parecia que havia acabado oito meses, no dia 10 de abril de 1970. Nesta data, que hoje completa 40 anos, o antigo parceiro de tantos anos Paul McCartney decretava oficialmente em uma entrevista coletiva, o fim dos Beatles, a maior banda de rock’n’roll de todos os tempos!

Voltando mais ainda no tempo, aquilo tudo realmente parecia um sonho. Em Março de 1957, John Lennon (um moleque de 15 anos da cidade de Liverpool-UK) criara uma banda composta por colegas da escola Quarry Bank School — que incluía seu melhor amigo na época, Pete Shotton — primeiramente chamada de The Black Jacks, mas logo definida como The Quarrymen (em homenagem à escola). Inicialmente, além dos dois, a banda era composta por Eric Griffths (violão), Bill Smith (baixo improvisado) e Rod Davis (banjo). Em 6 de julho de 1957, Paul McCartney havia assistido uma apresentação da banda em uma festa na Igreja St. Peter, e Ivan Vaughan, amigo de John Lennon e colega de classe de Paul, apresentou-lhe a Lennon; Paul foi convidado a ingressar na banda e, no mesmo ano, mostrou a Lennon a composição “I’ve Lost My Little Girl”. Em 6 de fevereiro de 1958, o jovem guitarrista George Harrison juntou-se à banda, apresentado por Paul que o teria conhecido por acaso num ônibus. Lennon e McCartney desempenharam a guitarra rítmica durante esse período e, após o baterista oficial do Quarrymen, Colin Hanton deixar a banda, em 1959, depois de uma discussão com os outros membros, teve uma alta rotatividade de bateristas. Stuart Sutcliffe, colega de Lennon numa escola de arte de Liverpool, aderiu ao baixo em janeiro de 1960, a pedido do amigo.

Como Paul e George estudavam em outra escola, o Instituto de Liverpool, o grupo resolveu procurar um novo nome, entre eles, “Johnny and The Moondogs” e “Long John and The Beatles” (ambos ressaltando o egocentrismo de John ao colocar seu próprio nome em evidência). Sutcliffe sugeriu o nome “The Beetles” em homenagem a Buddy Holly e “The Crickets”. Em maio de 1960, os então “Silver Beetles” realizaram uma turnê no norte da Escócia. Nessa época os Beatles não tinham um baterista fixo, assim, profissionais desse gênero tocavam para eles apenas em determinadas ocasiões. Após a turnê , a banda mudou definitivamente seu nome para “The Beatles”.

Sem um baterista para sua próxima apresentação, em Hamburgo, Alemanha, o grupo convidou Pete Best para assumir a posição em 12 de agosto de 1960. Quatro dias após a entrada de Best, o grupo partiu para Hamburgo; lá, eram obrigados a se apresentarem seis ou sete horas por noite durante sete dias por semena, com um repertório de covers de rock’n’roll dos anos 1950, basicamente americanos.

Retornando à Liverpool, o grupo realizou sua primeira aparição no famoso The Cavern Club, numa terça-feira de 21 de fevereiro de 1961. A banda se apresentou 292 vezes no Cavern, entre 1961 e 1963. Em 9 de novembro de 1961, Brian Epstein, dono da loja de música North End Music Store (NEMS) na Great Charlotte Street, viu o grupo pela primeira vez no clube. Intrigado com o som da banda, e maravilhado com seu carisma (sobretudo o de John), Epstein decidiu empresariá-los.

Em uma reunião com os Beatles na NEMS, em 10 de dezembro de 1961, Epstein propôs a ideia de gestão da banda. Os Beatles assinaram um contrato de cinco anos com Epstein em 24 de janeiro de 1962 e ele se tornou o empresário oficial deles. Com Brian Epstein como empresário do grupo, o primeiro passo foi mudar a imagem dos integrantes, substituindo as roupas de couro por algo mais formal. Epstein conduziu a procura dos Beatles na Inglaterra em encontrar um contrato de gravação. Ele era gerente do departamento de gravações da NEMS, uma loja de instrumentos musicais, discos de música, entre outras coisas. Nessa época, ele apostou no status da NEMS como uma importante distribuidora para obter acesso a empresas de gravações e a produtores executivos. O executivo Dick Rowe, da famosa Decca Records A&R, respondeu-lhe na época com uma carta onde dizia: “bandas com guitarras estão fora de moda, Sr. Epstein”.

Enquanto Epstein negociava com a Decca, ele também abordou o executivo de marketing Ron White, da EMI. White, que não desempenhava a função de produtor musical na gravadora, por sua vez, contatou os produtores Norrie Paramor, Walter Ridley e Norman Newell e todos se negaram a produzirem gravações dos Beatles. Contudo, White não havia abordado o quarto produtor da EMI, e também administrador — George Martin — que estava de férias na época. Foi também nesta época que, após mais uma temporada em Hamburgo, foram informados que Stuart Sutcliffe havia morrido devido a uma hemorragia cerebral.

Ainda abalados com a morte de Stuart e sem perspectivas de progresso profissional, os Beatles continuaram a fazer shows em Hamburgo e Liverpool. Enquanto isso, depois de não conseguir impressionar a Decca Records, Epstein foi para a loja HMV, em Londres, e transformou os teipes que havia utilizado na Decca em um disco. Epstein conseguiu encontrar com George Martin e levou o material. Martin interessou-se pelo som da banda e aceitou uma audição. A banda então assinou um contrato de um ano, renovável, com a EMI.

A primeira sessão de gravação dos Beatles na EMI com Martin foi marcada no dia 6 de junho de 1962, no famoso Abbey Road Studios, no norte de Londres. Musicalmente, Martin não se impressionou com os Beatles, mas a personalidade dos integrantes lhe agradou. Ele concluiu que a banda tinha um talento cru e muito humor, e que poderia melhorar musicalmente.

Martin resolveu contratá-los, mas teve um problema com Pete Best, considerando-o, à época, “fraco”. Martin sugeriu a Epstein, particularmente, que utilizassem outro baterista nos estúdios no lugar do atual. Assim, a conclusão foi de que Martin contrataria um baterista para as gravações, enquanto Brian poderia usar Pete Best nas apresentações. Isso ocorreu, principalmente, pelo fato de que os fãs dos Beatles na época não poderiam suportar vê-los sem Best. Os três membros-fundadores da banda – George, Paul e John – pediram a Brian que ele demitisse Pete Best, e foram atendidos. A partir disso, o grupo começou a cogitar alguns nomes para assumir a função de baterista. Entre esses nomes, estava o de Richard Starkey – conhecido como Ringo Starr – que já era baterista da famosa “Rory Storm and the Hurricanes”, e que também já havia tocado com os Beatles em algumas apresentações de Hamburgo. Em 19 de agosto, três dias após a demissão de Pete, Ringo, definitivamente como baterista, tocou com os Beatles no Cavern; a apresentação gerou confusão, pois o público repudiou a nova formação.

A primeira gravação dos Beatles com Lennon, McCartney, Harrison e Starr juntos aconteceu em 15 de outubro de 1960, na demonstração de uma série de gravações registradas particularmente em Hamburgo, onde atuaram simultaneamente como grupo de apoio da cantora Lu Walter.

A primeira sessão dos Beatles na EMI de Londres, em 6 de junho de 1962, não rendeu uma gravação digna de lançamento, mas as sessões de setembro produziram o hit “Love Me Do”, compacto que, no mesmo ano, alcançou o primeiro lugar na lista dos vinte melhores da revista Mersey Beat (em 18 de outubro) e entrou na lista dos vinte compactos mais vendidos da revista Billboard (em 1 de dezembro).

A partir daí tudo é História. Em 63 ganham a fama no Reino Unido; em 64 conquistam a América; em 66 eram “mais populares que Jesus Cristo”…

Hoje, exatos 40 anos depois de decretado publicamente o fim da banda, o “sonho” continua mais vivo que nunca, seja nos inesquecíveis sucessos atemporais (pois não envelhecem nunca e são sempre atuais), seja  na influência que ainda hoje exercem sobre trabalhos de músicos do mundo todo.

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