Contos de alcova – parte 1 – A viúva de vermelho…

Estou estreando hoje esta nova sessão (se é que se pode chamar assim) intitulada “Contos de alcova”, onde vez ou outra, sempre que me der na telha, vou publicar pequenos “causos” e mini-contos inusitados…

Pra começar, trago uma história real (acredite se quiser…) que aconteceu na rua em que me criei, aonde até hoje moram meus pais. Logicamente que para tal narrativa, alguns detalhes sórdidos serão cinicamente manipulados para dar um maior brilho à história.

Com vocês, apresento a história d’A viúva de vermelho!

O dia amanheceu dentro da mesma rotina que já se arrastava há algum tempo – quanto tempo, não se sabe. Nem mesmo ela sabia. já havia parado de contar seus  dias monótonos.

A janela gradeada do quarto deixava passar pelas persianas entreabertas o vento frio daquela manhã de inverno. Abriu os olhos lentamente e olhou para o lado com a certeza de encontrar seu velho e fiel companheiro, o vazio…

Sim. Mais uma noite ela havia dormido sozinha naquela casa de seis cômodos, para onde havia se mudado dois anos antes com seu esposo, Geraldo – já estavam casados há oito anos.

Ela chamava-se Carmem e era uma jovem senhora sem filhos e sem muitas alegrias na vida. Geraldo era gerente de banco. Por muito tempo ela acordava antes dele, preparava o café-da-manhã, passava a roupa dele e, só depois de tudo pronto, aconrdava-o para ir trabalhar. Ele, após um banho demorado, saía do banheiro sempre com a barba feita, perfumado, tomava seu café da manhã e saía com seu terno de microfibra impecável. Gel no cabelo, sapatos brilhantes…

À noite, quando chegava, o jantar já estava posto na mesa e ela sempre lhe recebia alegremente, docemente…

Com o passar dos anos, essas cenas mudaram um pouco. De uns dois anos para cá, ela continuava acordando cedo, mas já não tinha para quem preparar o café-da-manhã. Ele, por outro lado, raramente aparecia para o jantar, ou mesmo para dormir. Quando ela quis saber o que estava acontecendo, quando ela procurou Geraldo para conversar, foi agredida e se sentiu como uma cadela de rua, daquelas que vivem sendo enxotadas das casas, atrás de migalhas no lixo. Ela se sentiu o próprio lixo…

Em dois anos, Carmem perdeu o brilho de mulher. Seus cabelos viviam desgrenhados; suas roupas simples, de dona de casa; não usava mais suas bijuterias nem sua maquilagem delicada. Às vezes sentia até vergonha de se olhar no espelho.

Mas para Geraldo estava tudo bem. Ele continuava impecável, sempre muito bem arrumado e perfumado. Continuava colocando comida na mesa, não deixava faltar nada para Carmem… – realmente, Carmem tinha tudo que uma cadela podia querer, casa e comida. Mas não tinha o que mais desejava, amor.

Naquele dia em que Carmem acordava mais uma vez sozinha na cama, lençóis amarrotados, cheiro de solidão no ar, ouviu alguém batendo à sua porta. Seria Geraldo que havia esquecido a chave antes de sair para mais uma noitada no dia anterior, após o trabalho?

Quando ela abriu a porta, ainda sonolenta, deparou-se com a estranha figura de um jovem policial.

_ Aqui é a residência do senhor Geraldo Pereira dos Santos?

_ Sim. Por que? O que houve?

_ A senhora poderia chamar a dona da casa, por favor?

_ Sou eu mesma – “ora essa”, pensou, “esse idiota pensa que eu sou a empregada da casa!”…

_ Desculpe senhora…

_Carmem! Diga logo, moço, o que aconteceu!

_ O senhor Geraldo está morto…

_Que?! Como?! O que aconteceu, moço?! – o desespero tomou conta de Carmem e´lágrimas de desespero escorriam-lhe pelo rosto marcado de mais uma noite mal-dormida.

_ O corpo do senhor Geraldo foi encontrado num motel. Ao que tudo indica e pelo relato da jovem que estava com ele, o senhor Geraldo sofreu um infarto em pleno ato sexual…

_ Aonde está o corpo agora? – disse mudando o semblante e ficando aparentemente controlada.

_ No Hospital Central, senhora.

_ Obrigada. Vou tomar as providências imediatamente…

O jovem policial foi embora. Carmem ligou para a família de Geraldo, para que eles providenciassem o velório e o enterro. Enquanto as providências eram tomadas, Carmem foi às compras…

Lembrou de outra Carmem, a cigana de Mérrimé. Comprou um belo par de sapatos vermelhos; um vestido decotado de veludo vermelho com a parte de baixo preta; luvas pretas; colares e anéis. Fez um bonito penteado e uma belíssima e sensual maquiagem no salão de beleza e foi ao velório.

Diante de toda a comoção de parentes e amigos, Carmem adentrou triunfante pela porta dianteira da capela fúnebre, vestida vermelho e com uma garrafa de vinho bourbon na mão. Chegou às gargalhadas e cuspiu no rosto pálido de Geraldo que agora estava entre flores num caixão…

Quiseram tirar-lhe de lá. Mas ela resistiu. Passou duas horas tripudiando sobre o esquife do seu algoz de tantos anos. Naquele dia, Geraldo acabou sendo enterrado às pressas para não passar por humilhações piores…

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3 comentários sobre “Contos de alcova – parte 1 – A viúva de vermelho…

    • 1º A humilhação foi apenas uma ironia no texto;
      2º Ela precisava passar por uma dessa pra deixar de ser besta e se valorizar como mulher;
      3º O cartão sumiu no meio da confusão, mas a fatura chegou pra família do Geraldo pagar…

      kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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