Relendo Brecht…

Estantes ligeiramente desordenadas, carregadas de velhos livros, revistas e LPs empoeirados compõem o cenário do velho Sebo da Cultura, na rua Getúlio Vargas, em Campina Grande-PB. O lugar é um encontro de intelectuais e amantes das letras de todos os tipos, jovens, adultos e idosos. E um dos meus passeios prediletos pela Rainha da Borborema.

Foi neste velho sebo que eu encontrei um livro sem capa, sem nenhuma identificação, que reunia os poemas eróticos de Bertolt Brecht.

Eugen Berthold Friedrich Brecht nasceu em Augsburg no dia 10 de Fevereiro de 1898. Foi dramaturgo, poeta, teatrólogo e cineasta. Seus trabalhos artísticos e teóricos influenciaram profundamente o teatro contemporâneo, tornando-o mundialmente conhecido a partir das apresentações de sua companhia o Berliner Ensemble realizadas em Paris durante os anos 1954 e 1955.

Ao final dos anos 20 Brecht, agora marxista, viveu o intenso período das mobilizações da República de Weimar, desenvolvendo o seu teatro épico. Sua praxis sintetiza os experimentos teatrais de Piscator e Meyerhold; o conceito de “estranhamento” do russo Chklovski; o teatro chinês e o teatro experimental soviético. Seu trabalho como artista concentrou-se na crítica artística ao desenvolvimento das relações humanas no sistema capitalista porém, transitou por terrenos mais arejados de política, como a poesia erótica.

Relendo Brecht, nesse velho livro encontrado entre estantes que carregam a poeira do tempo, encontrei preciosidades poéticas e, ao mesmo tempo, sensuais e escandalosas (talvez para a época) como as que se seguem logo abaixo:

Maria sejas louvada

Maria sejas louvada
Como és tão apertada
Uma virgindade assim
É coisa demais p’ra mim.

Seja como for o sémen
Sempre o derramo expedito:
Ao fim dum tempo infinito
Muito antes do amen.

Maria sejas louvada
Tua virgindade encruada
‘Inda me pões fora de mim.
Porque és tão fiel assim?

Por que devo eu, que dialho
Só porque esperaste tanto
Logo eu, o teu encanto
Em vez doutro ter trabalho?

(Tradução de Aires Graça)

Aula de amor

Mas, menina, vai com calma
Mais sedução nesse grasne:
Carnalmente eu amo a alma
E com alma eu amo a carne.

Faminto, me queria eu cheio
Não morra o cio com pudor
Amo virtude com traseiro
E no traseiro virtude pôr.

Muita menina sentiu perigo
Desde que o deus no cisne entrou
Foi com gosto ela ao castigo:
O canto do cisne ele não perdoou.

(Tradução de Aires Graça)

Da sedução dos anjos

Anjos seduzem-se: nunca ou a matar.
Puxa-o só para dentro de casa e mete-
-Lhe a língua na boca e os dedos sem frete
Por baixo da saia até se molhar
Vira-o contra a parede, ergue-lhe a saia
E fode-o. Se gemer, algo crispado
Segura-o bem, fá-lo vir-se em dobrado
P’ra que do choque no fim te não caia.

Exorta-o a que agite bem o cu
Manda-o tocar-te os guizos atrevido
Diz que ousar na queda lhe é permitido
Desde que entre o céu e a terra flutue �

Mas não o olhes na cara enquanto fodes
E as asas, rapaz, não lhas amarrotes.

(Tradução de Aires Graça)

Brecht morreu em Berlim, no dia 14 de Agosto de 1956, aos 58 anos…

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