Reticente

Sou reticente. Sempre gosto de usar reticências em meu discurso, seja ele falado ou escrito…

Reticências são um sinal abstrato. Induz o interlocutor a abstrair o pensamento.

Existem diversos sinais na nossa gramática portuguesa. Mas nenhum se equipara às reticências. São todos muito chatos, quadrados – apesar de necessários…

Veja a vírgula, por exemplo: que sinal mais pobre. Mais desmilinguido! É apenas um respiro, uma breve pausa. Além disso é separatista por natureza – separa os elementos de uma relação e isola, separa as palavras. Que deprimente…

O ponto também é outro sinal deprimente. Em sua ânsia de concluir as coisas, ele mutila até palavras, transformando-as em tristes abreviaturas. Depois do ponto final de um texto, temos a certeza de que tudo se acaba. E ficamos com aquela impressão vazia de que, mais cedo ou mais tarde, tudo se acaba. Nada dura para sempre…

Pior ainda é quando o ponto se une à virgula e faz nascer uma aberração: o ponto-e-vírgula! Esse filho bastardo separar orações que estavam tão bem coordenadas. E também separa vários itens de uma enumeração…

Menos mal são os irmãos siameses dois-pontos: são bastante organizados. Gostam de enumerar tudo que vêem pela frente. Também gostam de fazer citações e prestar esclarecimentos. São muito cultos.

Não vou muito com a cara da interrogação: Muito curiosa, vive querendo saber de tudo através das perguntas. É muito duvidosa…

E também não gosto muito de sua prima, a exclamação. Esta é emotiva demais! Vive exprimindo admiração, surpresa, assombro, indignação. Acho muito afetada…

As aspas são outras metidas a intelectuais, sempre se envolvendo em citações ou assinalando estrangeirismos, neologismos, gírias e expressões populares ou vulgares. São umas bossais…

O travessão é um indeciso, vive o tempo todo indicando mudanças de interlocutor no diálogo e chega a ser pedante ao colocar em relevo certas palavras ou expressões _ É um bajulador. Como se não bastasse, substitui a vírgula ou os dois pontos. Sua única virtude é conseguir casar algumas palavras umas com as outras.

Finalmente, os parênteses. Estes são sujeitos limitados e limitadores, sempre destacando qualquer explicação ou comentário e incluindo dados informativos sobre bibliografias. É metido a indicar marcações cênicas numa peça de teatro, mas apesar dessa sensibilidade artística, costuma isolar orações intercaladas com verbos declarativos, em substituição à vírgula e aos travessões… deprimente!

Já as reticências… Ah! As reticências…

Elas interrompem o pensamento; suprimem passos de um texto e nos dão a emoção de um salto no escuro de um precipício, ao nos entregarmos às abstrações do pensamento. As reticências nos fazem pensar mais além. Elas dão uma nova esperança e alento ao leitor que não termina sua leitura ao fechar a última capa de um livro, pois a história vai continuar na cabeça dele, em abstrações. É esse o processo criativo! Sejamos reticentes, para darmos às pessoas a chance de fazê-las pensar sem limites…

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2 comentários sobre “Reticente

  1. Muito interessante o texto… eu tenho uma amiga… faz um tempo brigamos e demorou para que nós voltassemos o diálogo… depois ela só me escrevia assim… pouco e usando as reticências…

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