ABRINDO O BAÚ #1

Este texto inaugura uma série de textos analíticos que pretendo fazer e publicar ao menos uma vez por semana aqui no meu blog sobre a obra daquele que, em minha modesta opinião foi um dos artistas mais criativos de todos os tempos. Uma lenda que jamais será superada: Raul Seixas. Trata-se de uma coletânea de artigos para aqueles que são fãs e para aqueles que ainda não conhecem ou conhecem apenas superficialmente a vida e a obra desse gênio da música brasileira.

É impossível falar da obra de Raul sem abordar sua vida, pois ele foi um dos raríssimos artistas que teve a coragem de estampar com todas as cores a sua vida particular para que todos pudessem ver e julgar como bem quisessem. Não é à toa que são muitos os julgamentos, que o definem como anti-cristo, anarquista alienado, louco… Mas isso agora não importa. Vamos começar já a abrir a tampa deste “baú, almejado desde a aurora dos tempos por gênios, sábios, alquimistas e conquistadores…”.

Raul Santos Seixas encarnou neste planeta sob o signo de Câncer, no já distante dia 28 de junho de 1945, na cidade de Salvador (BA), às 8h da manhã no quarto de uma casa de classe média. Seus pais eram Raul Varella Seixas, engenheiro e poeta e Maria Eugênia Seixas, dona-de-casa.

Parece contraditório, mas o fato de Raul ser canceriano, explica boa parte do temperamento e da postura de vida que o Maluco Beleza tinha longe dos palcos, na sua “vida real”. Câncer é um signo da água, regido pela lua e é um signo feminino (por isso mesmo ligado ao misticismo, tão presente na obra de Raul). Ligado à família, a valores tradicionais e ao romantismo. Resumindo: Uma caretice só. Por mais paradoxal que seja, o Maluco Beleza era sim, até certo ponto, um cara bastante careta. Lado que ele deixa inclusive escapar em muitas de suas composições que iremos analisar ao longo desta série de textos.

Sua infância e adolescência são influenciadas pela imensa biblioteca de seu pai e por músicas brasileiras (de raiz, como o baião de Luiz Gonzaga e as modas de viola sertaneja) e americanas (o blues, o jazz e o rock’n’roll). Aqui cabe um parêntese: Raul Morou durante muitos anos vizinho ao consulado dos EUA em Salvador, onde fez amizade com os filhos dos diplomatas que lá viviam, tendo assim acesso ao material de músicas inéditas e às modas que chegavam de fora, de forma que ele foi, sem dúvida alguma, um dos primeiros brasileiros a curtir e vivenciar o estilo “rocker” da época, na provinciana cidade de Salvador dos anos 50.

Aos 17 anos monta sua primeira banda, “Os Relâmpagos do Rock”. Esta banda depois mudaria de nome para “The Panthers”, tornando-se uma das principais bandas de baile da Bahia, chegando inclusive a acompanhar os grandes astros da Jovem Guarda Jerry Adriany, Roberto Carlos e Wanderléa. Roberto, como “rei” afastou-se de Raul (num processo natural de “rei na barriga”), mas Jerry Adriany e Wanderléa foram grandes amigos de Raul até o fim de sua vida.

“The Panthers” tornam-se oficialmente a banda de apoio de Jerry Adriany, mudam o nome para “Os Panteras”  e se mudam para o Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano, Raul comemora seu aniversário de 22 anos casando-se com Edith Nadine Wisner, americana, filha de um pastor protestante (vindo daí, provavelmente, a sonoridade gospel e soul de Raul em algumas composições futuras). Nessa época, além de tocar com “Os Panteras”, Raul ganha a vida dando aulas de violão e inglês.

Finalmente, em janeiro de 1968 sai o primeiro LP “Raulzito e Os Panteras”, pela CBS (mesma gravadora de Jerry Adriany, seu “padrinho musical”).

“Raulzito e Os Panteras” traz um repertório de 12 músicas. Elas representam de fato as primeiras composições de Raul e são, de fato, simplórias e caretas (“Brincadeira”, “Por que, pra que”, “Um minuto a mais”, “Vera Verinha”, “Menina de Amaralina”, “Triste Mundo”, “Dê-me tua mão”, “Alice Maria”, “Me deixe em paz”, “Trem 103” e “O Dorminhoco”), com exceção de “Você ainda pode sonhar”, versão de “Lucy in the Sky with Diamonds”, dos “Beatles”. A curiosidade desse trabalho é que, em 1967, durante a primeira visita dos “Rolling Stones” ao Brasil, Raul teve a oportunidade de conhecer pessoalmente Mick Jagger e mostrar seu trabalho para ele. Mas diante daquelas baladinhas de “Jovem Guarda”, Jagger falou para Raul que o rock havia evoluído e não se fazia músicas como aquelas lá fora. Ora, naquela época, os “Beatles” já estavam entrando em sua fase psicodélica, os “Stones” já tinham entrado numa veia mais agressiva e Elvis Presley (o maior ídolo de Raul até então) estava em total decadência. O rock realmente vinha tomando novos rumos.

O primeiro disco saiu, portanto, com vários resquícios de uma época em que “Os Panteras” tocavam naqueles bailinhos interioranos da Bahia. Definitivamente , aquilo não era um disco de rock. Tanto que foi o primeiro e único da banda. Depois disso, desapontado com os resultados do trabalho no Rio, Raul decidiu voltar para Salvador, onde prestou seu segundo vestibular (o primeiro havia sido aprovado entre os primeiros lugares de Direito em 1966), desta vez para Filosofia.

“Raulzito e Os Panteras” é um disco que marca os 23 primeiros anos de vida de Raul. É um disco adolescente e imaturo, mesmo em sua única tentativa de fazer algo mais moderno como em “Você ainda pode sonhar (Lucy in the Sky with Diamonds)”. Uma canção que fala em sonho, mas ainda de forma bastante infanto-juvenil. Era apenas a Primavera de Raul…

(continua)

 

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Um comentário sobre “ABRINDO O BAÚ #1

  1. Muito interessante inteligente e informativo. Passei muito tempo da minha vida cantando baixinho as músicas do Raul por conta de uma visão errônea ou talvez equivocada que minha família tem desse inusitado ser. É muito bom desmistificar esses conceitos pré-estabelecidos com textos esclarecedores como o seu. Parabéns!

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