ABRINDO O BAÚ #2

No texto anterior, vimos o nascimento de um artista careta e tímido, apesar de já ser considerado rebelde para sua época.

Em sua primeira tentativa de alçar vôo rumo ao estrelato e tornar-se o “Elvis Presley Brasileiro” (seu grande sonho de infância e adolescência), Raulzito (seu nome artístico na época), acompanhado da banda “Os Panteras”, mostrou toda a sua inocência primaveril ao cantar músicas de amor melosas, com aquelas juras de amor eterno típicas da adolescência, como nas canções “Brincadeira”; “Um minuto a mais”; “Triste mundo”; “Dê-me tua mão”; “Me deixe em paz” e “Trem 103”. Cantou seus amores de menino (registrados com todos os detalhes em seu diário) nas músicas “Vera Verinha”; “Menina de Amaralina” e “Alice Maria”. Chegou até mesmo a falar um pouco, de maneira bem-humorada, sobre seus problemas de jovem recém-casado em “O Dorminhoco”. E, finalmente, tentou ousar um pouco mais com suas primeiras indagações filosóficas em “Por que, pra que” e “Você ainda pode sonhar (Lucy in the Sky with Diamonds)”.

Depois disso, desapontado com os resultados do trabalho no Rio, Raul decidiu voltar para Salvador, onde prestou vestibular para Filosofia. Mas o espírito careta daquele canceriano estava em ebulição. Aliás, o mundo todo estava em ebulição naquele ano de 1969.

O ano de 1969 foi o que muitos historiadores chamam de “o ano fora do tempo”, pois foi exatamente nesse período que muitas coisas aconteceram e que viriam a mudar a visão que se tinha do mundo, principalmente no campo das artes (Cinema, Literatura, Música, Teatro e Televisão), ciências e desportos.

Foi nesse ano, por exemplo, que as fronteiras reais do mundo diminuíram com a criação do Boeing 747 e do Concorde, verdadeiras maravilhas da aviação moderna. Outras fronteiras também diminuíam com a criação da ArpaNET (embrião da Internet) e com o envio da primeira mensagem de e-mail entre computadores distantes (26 de outubro).

No dia 20 de Julho, o americano Neil Alden Armstrong dava o seu “pequeno passo para um homem, mas um passo gigantesco para a humanidade”, tornando-se o primeiro homem a pisar na Lua, como comandante da missão Apollo 11.

Foi nesse ano “mágico” regido pelo número cabalístico 7 que os visionários da Era de Aquárius viam surgir um “Novo Aeon” (uma Nova Era), celebrada durante “3 dias de paz e amor”, nos dias 15, 16 e 17 de Agosto, durante a realização do incrível Festival de Woodstock, considerado o maior festival de rock and roll de todos os tempos.

Falando em misticismo, foi também por essa época que antigas culturas do oriente se mesclavam com o ocidente e tornavam-se cada vez mais comuns novos cultos e práticas espirituais, como o Movimento Hare Krishina (existente nos EUA desde 1962), o ressurgimento do Xamanismo por Carlos Castañeda e até mesmo expressões de antigos cultos pagãos, como o satanismo, que chocou a América no dia 9 de Agosto, quando a bela atriz de cinema, Sharon Tate, foi cruelmente assassinada pelos seguidores de um culto liderado por Charles Manson (líder da exótica Igreja Satânica)

Aqui no Brasil o regime autoritário já estava implantado há cinco anos (desde 1964), resultando em vinte anos de uma ditadura sangrenta, marcada por ações armadas de milícias, assaltos a banco para angariar fundos para a rebelião e seqüestros como o do embaixador americano no Brasil, Charles Burke Elbrick, sequestrado por militantes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) e da Ação Libertadora Nacional (ALN), com o objetivo de resgatar presos políticos na época.

O general Emílio Garrastazu Médici, era eleito sem eleições diretas, apertando ainda mais o regime ditatorial no país.

O mundo estava sofrendo profundas mudanças e jovens da geração de Raulzito começavam a vivenciar cada vez mais intensamente essas mudanças.

Foi exatamente nessa época que Raul entrou em contato com os novos filósofos em voga na época, principalmente com a metafísica de Schopenhauer e o misticismo de Aleyster Crowley.

Apesar de nunca ter gostado de ser “selado, registrado, rotulado, avaliado, carimbado…”, Raul entrou de corpo e alma (principalmente alma) no movimento hippie. Curiosamente, ele não se identificou com os Tropicalistas (Gil, Caetano, Gal, Betânia, Tom Zé, etc.), nem com Os Novos Baianos (Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Moraes Moreira, etc.). Pois a proposta desses grupos era mesclar as influências do rock inglês e norte-americano com o samba e a bossa nova. E Raul simplesmente DETESTAVA a tal da “bosta nova pra universitário, gente fina, intelectual”. A veia musical de Raul pulsava com mais força nas vertentes de raiz. Na raiz do sertão e semi-árido brasileiro com as planícies e desertos do Texas e Arizona, nos Estados Unidos. E assim, ele foi o primeiro artista brasileiro a conseguir juntar o rio São Francisco com o rio Mississipi, a música caipira de Luiz Gonzaga com a música caipira de Chuck Berry. Ele foi o primeiro a “descobrir que Genival Lacerda tem a ver com Elvis e com Jerry Lee”.

Começa a nascer daí, de todo esse caldeirão em ebulição constante um novo Raul. Já bem diferente do menino Raulzito. Nascia agora “O Homem”, Raul Seixas. Era apenas o início do Verão de Raul.

Em 1970, Evandro Ribeiro, diretor da CBS, convidou Raul para ocupar a vaga de Jairo Pires, como produtor musical. Raul havia amadurecido mais. Agora já era pai de sua primeira filha, Simone Andréa Wisner Seixas. Profundo conhecedor do universo musical e extremamente criativo, Raul encarna o papel de executivo bem sucedido (de terno e gravata) de uma gravadora multinacional instalada no Brasil, produzindo e compondo centenas de músicas para artistas como Jerry Adriani (“Doce, doce amor”); Diana (“Ainda queima a esperança”); Trio Ternura (“Vê se dá um jeito nisso”); Leno (“Lady Baby”); Renato e Seus Blue Caps (“Playboy”), só para citar alguns.

É nessa fase que Raul adquire cada vez mais a experiência de compor musicas fáceis, extremamente comerciais, que marcariam sua carreira para o resto da vida.

Certo dia, aproveitando-se da ausência do diretor da gravadora, Raul resolver reunir alguns amigos e fazer experimentações musicais. Convidou a sambista paulistana Miriam Batucada, o cantor e compositor capixaba Sérgio Sampaio e o cantor baiano Edy Star. Numa mistura curiosa de brega, rock, chorinho, samba, Jovem Guarda e até Tropicália, nasceu o famigerado disco “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10”. O resultado da peraltice foi a expulsão de Raul da CBS e o disco acabou sendo guardado nos arquivos da gravadora (até ser relançado em 1975, após Raul ganhar disco de ouro com os álbuns “Gita” e “Novo Aeon”; em 1985 e finalmente em 1991, em CD).

Este disco traz muitas revelações e curiosidades sobre a vida e obra de Raul, principalmente por ser o primeiro passo do Raul “Maluco Beleza” que ficou na memória de todos os fãs. O disco traz, assim como o primeiro, 12 faixas. Mas estas merecem uma análise especial, em separado. Portanto, por enquanto ficamos aqui. No próximo texto, nós abriremos os portais da enigmática “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista” e começaremos a entrar de cabeça na obra do Mago Raul Seixas.

(continua)

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