Dândi Masculino

Para minha Piratinha…

 

Na década de 1870, o pastor Henrik Gillot era o queridinho da intelligentsia de São Petersburgo. Era jovem, simpático, versado em filosofia e literatura, e pregava um tipo de cristianismo esclarecido. Dezenas de moças se apaixonaram por ele e iam em bando aos seus sermões só para vê-lo. Em 1878, entretanto, ele conheceu uma garota que mudou sua vida. Chamava-se Lou Von Salomé (mais conhecida como Lou Andreas-Salomé), e tinha 17 anos; ele estava com 42.

Salomé era bonita, com olhos azuis radiantes. Ela havia lido muito, particularmente para uma menina da sua idade, e estava interessada em questões filosóficas e religiosas mais sérias. Sua veemência e sua sensibilidade às idéias fascinaram Gillot. Quando ela entreva no gabinete para as discussões cada vez mais freqüentes com ele, a sala parecia mais clara e cheia de vida. Talvez ela estivesse flertando com ele, como fazem as moças inconscientemente – mas quando Gillot reconheceu que estava apaixonado e a pediu em casamento, Salomé ficou horrorizada. O confuso pastor jamais conseguiu esquecer totalmente Lou Von Salomé, tornando-se o primeiro de uma longa série de homens famosos a caírem vítimas, pelo resto da vida, de uma paixão frustrada pela jovem.

Em 1882, o filósofo alemão Friedrich Nietzche passeava pela Itália sozinho. Estava em Gênova quando recebeu uma carta do amigo Paul Rée, um filósofo prussiano a quem admirava, relatando suas discussões com uma notável jovem russa., Lou Von Salomé, em Roma. Salomé estava lá passando as férias com a mãe; Rée tinha dado um jeito de acompanhá-la em longas caminhadas pela cidade, só os dois, e tinham conversado muito. Suas idéias sobre Deus e o cristianismo eram muito parecidas com as de Nietzche, e quando Rée lhe contou que era amigo do famoso filósofo, ela insistiu para que ele o convidasse para se juntar a eles. Em cartas subseqüentes, Rée descrevia como Salomé era misteriosamente cativante e desejava muito conhecer Nietzche. O filósofo foi logo para Roma.

Quando Nietzche finalmente conheceu Salomé, ficou deslumbrado. Nunca tinha visto olhos tão belos, e naquela primeira e longa conversa que tiveram eles brilhavam tanto que ele só pôde achar que havia algo de erótico no entusiasmo dela. Mas também estava confuso: Salomé mantinha-se distante e não reagia aos seus elogios. Que jovem diabólica! Dias depois ela leu para Nietzche um poema que havia escrito, e ele chorou; as idéias de Salomé sobre a vida eram muito parecidas com as dele. Decidindo aproveitar a ocasião, Nietzche lhe propôs casamento. (Ele não sabia que Rée também fizera isso.)Salomé recusou. Estava interessada em filosofia, vida, aventura, não em casamento. Sem se intimidar, Nietzche continuou a cortejá-la. Numa excursão ao rio Orta com Rée, Salomé e a mãe dela, ele conseguiu ficar a sós com a moça, acompanhando-a numa subida a pé ao monte Sacro enquanto os outros ficaram para trás. Pelo jeito, a paisagem e as palavras de Nietzche provocaram a emoção adequada; numa carta que lhe escreveu mais tarde, ele descreveu o passeio como “o sonho mais beloda minha vida”. Agora ele era um homem obcecado: só pensava em se casar com Salomé e tê-la somente para si.

Meses depois, Salomé visitou Nietzche na Alemanha. Os dois faziam longas caminhadas juntos e ficavam até tarde da noite discutindo filosofia. Ela espelhava os pensamentos mais íntimos dele, adiantava-se às suas idéias sobre religião antes mesmo que ele as expressasse. Mas, quando ele lhe propôs casamento mais uma vez, ela o censurou chamando-o de convencional: afinal de contas, Nietzche é quem tinha desenvolvido a defesa filosófica do super-homem, dom homem acima da moral cotidiana; no entanto, Salomé era por natureza muito menos convencional do que ele. Os seus modos firmes, intransigentes, só acentuavam o fascínio que ela exercia sobre ele, da mesma forma que o seu toque de crueldade. Quando ela finalmente foi embora, deixando claro que não tinha nenhuma intenção de se casar, Nietzche ficou arrasado. Como antídoto para sua dor, ele escreveu Assim falou Zaratustra, um livro repleto de erotismo sublimado e profundamente inspirado nas conversas que teve com Salomé. Desde então, Salomé ficou conhecida por toda a Europa como a mulher que partiu o coração de Nietzche.

Salomé mudou-se para Berlim. Não demorou muito e os maiores intelectuais da cidade estavam fascinados com a sua independência e a sua liberdade de espírito. Os dramaturgos Gerhart Hauptmann e Franz Wedekind a adoravam; em 1897, o grande poeta austríaco Rainer Maria Rilke se apaixonou por ela. A essa altura a sua fama já havia se espalhado, e ele era um romancista com obras publicadas. Sem dúvida, isso teve o seu papel na sedução de Rilke, mas ele também foi atraído por uma espécie de energia masculina que encontrou nela e que jamais havia visto numa mulher. Na época, Rilke tinha 22 anos, e Salomé estava com 36. Ele lhe escrevia cartas e poemas, acompanhava-a por toda a parte, e durante muitos anos os dois tiveram um caso. Ela corrigia as poesias dele, impunha uma disciplina aos seus versos declaradamente românticos, dava-lhe idéias para novos poemas. Mas ficava desconcertada com a forma infantil como ele dependia dela, com a fraqueza dele. Incapaz de suportar fraquezas de qualquer tipo, ela acabou abandonando-o. sem conseguir esquecê-la, Rilke continuou perseguindo-a durante muito tempo. Em 1926, no seu leito de morte, ele implorava aos médicos: “Perguntem a Lou o que há de errado comigo. Só ela sabe.”

Um homem escreveu sobre Salomé: “Havia algo de aterrorizante no seu abraço. Olhando para você, com seus olhos azuis radiantes, ela dizia: ‘Receber o sêmen é para mim o auge do êxtase.’ E o seu apetite era insaciável. Ela era totalmente amoral. (…) uma vampira.” O psicoterapeuta  sueco Poul Bjerre, uma das suas últimas conquistas, escreveu: “Acho que Nietzche estava certo ao dizer que Lou era uma mulher totalmente má. Má, no entanto, no sentido de Goethe: o mal que produz o bem. (…) Ela pode ter destruído vidas e casamentos, mas sua presença era excitante.”

GREENE, Robert. A arte da sedução / Robert Greene; tradução de Talita M. Rodrigues – Rio de Janeiro: Rocco, 2004

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3 comentários sobre “Dândi Masculino

  1. Linda história, muito bem contada. Fiquei encantada pela Lou-Salomé! Obrigado Mestre, pela dedicatória. Eu já sabia que ela tinha feito Nietzche chorar, só não sabia em que circunstâncias. Ai, ai…Bem feito!

    • A parte que eu acho mais legal nessa história é essa: “Mas, quando ele lhe propôs casamento mais uma vez, ela o censurou chamando-o de convencional: afinal de contas, Nietzche é quem tinha desenvolvido a defesa filosófica do super-homem, dom homem acima da moral cotidiana; no entanto, Salomé era por natureza muito menos convencional do que ele.”kkkk
      Essa mulher era FODAAAAA!!!!!

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