Um terrível paradoxo

O filósofo Platão, na Grécia Antiga, dizia que o amor era o filho bastardo da Pobreza e do Ardil. E, sendo assim, “ele é sempre pobre e, longe de ser sensível e belo, como a maioria das pessoas imagina, ele é duro e curtido pelo tempo, descalço e sem teto, sempre dormindo ao relento por falta de uma cama, no chão, na soleira das portas e na rua. Até aí ele se parece com a mãe (Pobreza) e vive necessitado. Mas, sendo também o filho de seu pai (Ardil), ele trama para conseguir para si mesmo tudo que for belo e bom; ele é corajoso, direto e persistente, sempre inventando truques como um ardiloso caçador”.

Em suas metáforas, Platão devia falar do tal “amor romântico”. Pois este, sim, é duro e vive nos fazendo sofrer com seus caprichos; vive se mostrando carente e mendigando a piedade do outro, como um descalço sem teto; sempre fraco e passivo como quem dorme ao relento, na soleira das portas e na rua. E esse mesmo “amor romântico” é, ao mesmo tempo, extremamente egoísta, querendo sempre e invariavelmente tudo que for belo e bom só pra ele. É assim que, quem ama desse jeito, usa expressões naturais como “minha mulher”; “meu namorado”; “meu amor”; “meu bem”… E tudo vai ficando quantificado sob a sua possessividade.

É como aquele cara que está saindo com uma garota maravilhosa e a leva para um restaurante muito caro, imaginando que no final da noite vai estar com “aquilo tudo” em sua cama e acaba ficando decepcionado, pois tudo o que ele consegue é um beijo de “boa noite” de, aproximadamente, trinta segundos. Ou aquele sujeito que pensa que o amor é, necessariamente, aquela coisa pegajosa e adocicada que te obriga a dar um ramalhete de flores todos os dias e uma caixa de bombons pelo menos uma vez por semana.

Eu penso que o amor seja mais simples do que tudo isso. Mais simples até do que o próprio filósofo imaginava.

Penso que o Amor (colocado aqui com inicial maiúscula propositalmente) seja um sentimento tão grandioso que nós, simples mortais, jamais possamos expressá-lo por palavras. Amor é um sentimento mudo – ou pelo menos indizível, impronunciável.

Ele pode estar entre pais e filhos ou entre irmãos, mas não só nisso exclusivamente, pois caso contrário não haveria crimes de família desde que o mundo é mundo.

Também não é possível estar exclusivamente naqueles que querem egoisticamente perpetuar seus genes.

Não acredito que ele possa ser, simplesmente, nossos “próprios valores multiplicados por algumas vezes mais e refletidos no suposto ser amado”. Assim como não acredito na teoria dos opostos.

Ele também não está só na beleza das coisas, porque a beleza é muito relativa e, por isso mesmo, tão abstrata quanto ele próprio (o Amor).

E também, definitivamente, não creio que possa ser este Amor confundido com o “amor próprio que releva nossos passos em direção a autosabotagem, quando acreditamos amar alguém e que não somos merecedores desse alguém”.

Geralmente, as pessoas costumam confundir o Amor com a paixão (este sim, um sentimento super humano). E nessa confusão, passamos a crer que “Amor seja morrer de tanto chorar porque algo saiu errado, etc.”.

É a paixão – com todo o seu séquito de doces ilusões e amargos arrependimentos – que nos induz ao engano de achar que o Amor verdadeiro seja assim tão fácil de exprimir em palavras. É a paixão que “ama” esperando algo em troca. É a paixão que “ama” nos tornando alienados de nós mesmos, fazendo com que passemos a viver em função de um outro alguém.

O Amor verdadeiro nunca sofre, pois nunca espera nada em troca, pois não aceita barganha. Amor que pede algo correspondente ao que oferece não é amor, é comércio de sentimentos. Pois o Amor verdadeiro é uma dádiva divina somente alcançada por seres separados e inteiros, que retêm sua unicidade, sua individualidade, mesmo estando unidos. O Amor verdadeiro é um terrível paradoxo.

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2 comentários sobre “Um terrível paradoxo

  1. Meu primeiro impulso ao ler a resposta foi me calar. Pontuar algo daqui em diante ficaria assim… a esmo. Contudo, a teimosia é algo quase arterial e incontrolável e cá estou discorrendo minhas, meus… seja lá o que pretendo fazer, amor, paixão, dores físicas ou da alma, tudo relevante e ao mesmo tempo sem importância diante de outras coisas ainda maiores. Que coisas seriam essas? Não faço ideia, mas acredito que estão por aí, esperando ser encontradas, identificadas ou atingidas. Enfim, dizendo nada ou dito isso, a refutação de certo modo corresponde a provocação, assim espero, rsrs. Paradoxalmente concluo com a inconclusa opinião de que asserções correspondem a capacidade de assimilação…
    Adorei o texto resposta. Beijo!

  2. Sílvio Carneiro esmiuçando as facetas do AMOR…
    Quem ousa se meter nessa briga de titãs? Arrepiei…
    MA RA VI LHO SOS!!! Texto excelente. Parabéns

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