Cultura, sub cultura e outras drogas afins…

Falar de cultura é sempre complicado, seja pela amplitude, seja pela complexidade do tema ou pela abstração de conceitos.
O termo provém do latim colere, que significa “cultivar”. Mas só isso não explica lá muita coisa. Um conceito comum é aquele ligado às ciências sociais, principalmente com Edward B. Tylor, defensor da idéia de que cultura é “aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade”.
Só que a cultura é também associada, comumente, a altas formas de manifestação artística ou técnica da humanidade, como a música erudita européia.
Ainda assim, não podemos nos limitar a estas percepções academicistas.
Por ter sido fortemente associada ao conceito de civilização no século XVIII, a cultura muitas vezes se confunde com noções de: desenvolvimento, educação, bons costumes, etiqueta e comportamentos de elite. Essa confusão entre cultura e civilização foi comum, sobretudo, na França e na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, onde cultura se referia a um ideal de elite. Ela possibilitou o surgimento da dicotomia (e, eventualmente, hierarquização) entre “cultura erudita” e “cultura popular”, melhor representada nos textos de Matthew Arnold, ainda fortemente presente no imaginário das sociedades ocidentais.
Em Filosofia, cultura é o conjunto de manifestações humanas que contrastam com a natureza ou comportamento natural. No dia-a-dia das sociedades civilizadas (especialmente a sociedade ocidental) e no vulgo, a cultura costuma ser associada à aquisição de conhecimentos e práticas de vida reconhecidas como melhores, superiores, ou seja, erudição; este sentido normalmente se associa ao que é também descrito como “alta cultura”, e é empregado apenas no singular (nesse sentido não existiriam culturas, apenas uma cultura ideal, à qual os homens indistintamente devem se enquadrar).
Dentro desse contexto filosófico, a cultura é um conjunto de respostas para melhor satisfazer as necessidades e os desejos humanos. É um conjunto de conhecimentos teóricos e práticos que se aprende e se transmite. É o resultado dos modos como os diversos grupos humanos foram resolvendo os seus problemas ao longo da história.
Independente do conceito que se queira adotar, temos apenas uma certeza: Cultura é criação. O homem não só recebe a cultura dos seus antepassados como também cria elementos que a renovam. É um fator de humanização. O homem só se torna homem porque vive no seio de um grupo cultural. A cultura é um sistema de símbolos compartilhados com que se interpreta a realidade e que conferem sentido à vida dos seres humanos.
Foi necessário fazer toda esta prolixa introdução para eu poder começar a refletir sobre mais uma noite atípica – aliás, a coisa mais comum na minha vida é ter “noites atípicas”, junto de amigos, conhecidos e outros agregados que vão surgindo de repente, sabe-se lá como!
Pois bem, numa dessas noites atípicas, eu e uns amigos chegamos a um bar, já altas horas da madrugada e ocupamos duas mesas. Uma terceira mesa estava ocupada por um senhor e duas senhoras. Ao fundo, fazendo um clima, rolava uma dessas bandas de melody.
A turba de libertinos, já chegou fazendo barulho e dominado a cena local. Um dos companheiros foi logo pedindo para a dona do bar colocar um DVD do ZZ Top, que ele havia trazido em seu carro.
Após a segunda música do ZZ, o pessoal da terceira mesa começou a chiar, querendo ouvir seus breguinhas…
Iniciou-se aí uma certa contenda. E a sorte é que a turma não era de brigas, porque, senão, uma verdadeira guerra teria começado ali mesmo – principalmente porque a turma dos bregueiros estava bastante alterada.
No meio do bate boca, a dona do bar resolve tirar o DVD do ZZ e “equilibrar” a situação com um CD de forró…
Não considero que tenha sido uma sábia decisão, uma vez que, talvez, o mais acertado a fazer fosse cancelar o som de vez até os ânimos se acalmarem.
Agora eram os “doces bárbaros” que bradavam e urravam à medida em que os sucessos do forró de plástico se sucediam.
Tentando fazer uma diplomaciazinha básica, eu resolvo puxar uma das damas bregueiras para dançar um forró comigo! Ora, nordestino, paraibano que sou, nascido e criado na terra do forró, puxei a coroa pela cintura e logo estava eu, rodopiando com aquela criatura nefasta pelo salão do bar, enqanto éramos ovacionados pelo “público”.
Neste instante eu tive uma visão (ou uma vertigem) quase divinal! Aquilo era uma verdadeira suruba cultural: um paraibano que ama forró como ama rock, trajando uma camisa do Ramones e falando com sotaque arrastado (e arretado!), está acompanhado de um bando de roqueiro num bar freqüentado por bregueiros e dança um forró de plástico com uma bregueira que, no entanto, detesta rock e que, por sua vez, começa a dizer que rock é coisa de gente sem cultura… EPA!!! Para tudo! Para essa putaria aí, camarada!
Aquilo era praticamente um empate cultural técnico! Considerávamos o som daquela galera como “lixo cultural” e vice-versa!
Terminei de dançar com o pequeno monstro, voltei pra mesa e, entre um gole e outro, entre uma foto e outra com os amigos e entre uma provocação e outra por parte dos dois grupos, eu refletia em estado catatônico sobre o que afinal é essa tal de CULTURA!
Pude perceber que, realmente, falar de cultura é complicado e que ela está muito além dessa proposta elitista que as ciências sociais do ocidente tentaram ao longo da História incutir em nossas cabeças.
O nosso bom e velho rock – que já foi visto como algo “contracultural” e subversivo – é sim, cultura, no instante em que ela própria transforma o som dos velhos camponeses escravos norte-americanos e reinventa seu estilo a cada dia em suas mais diversas nuances.
Da mesma forma, o forró, o brega, o melody ou o que quer que seja, também é cultura, uma vez que dá uma nova roupagem a estilos musicais que se perdem no tempo e que se recriam a todo instante, seja por meio dos DJs, das aparelhagens ou das bandas de “forró de plástico”.
Tudo é cultura. E aqui não vamos entrar nos méritos de conteúdo ou de estética.
A literatura de cordel de Patativa do Assaré pode ser tão erudita quanto uma obra de Brecht. Os bonecos de barro do mestre Vitalino de Caruarú, vendidos nas feiras populares do Nordeste, podem ser tão bem expostos numa galeria quanto uma peça da Bauhaus. Da mesma forma, o heavy metal está para Beethoven ou Wagner, assim como Luiz Gonzaga está para Elvis Presley e para o Falamansa!
É engraçado como algumas pessoas, por exemplo, sempre acharam bossa nova coisa de velho e deliraram quando a banda Los Hermanos inovou o estilo acrescentando guitarras e distorções. O que seria da nossa música sem as fusões de maracatu e hip-hop do Chico Science, ou o hip-hop com samba e pagode do Marcelo D2 ou mesmo o rock com baião de Raul Seixas, Zé Ramalho e Alceu Valença?
O importante é o respeito e a liberdade de pensamento SEMPRE! E viva a cultura!

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Um comentário sobre “Cultura, sub cultura e outras drogas afins…

  1. Que choque cultural foi esse rapá??? acho que a cultura, de quem quer que seja, foi renovada ali mesmo, naquele exato momento do conflito entre a camisa do ramones e a senhora ( de idade? ) bregueira… o mais engraçado é que o Ramones é uma banda antiga que atiça a cabeça de qualquer adolescente que tenha um pingo indignação no sangue… e o brega melody, techno melody, brega chick ou seja lá o que for… é uma coisa que se atualiza a cada dia… é novo e nada é mais atual que o melody com aqueles sons de botões de celular que soam tão modernos quanto um filme de ficção cientifica… e esse som geralmente é se propaga nos ouvidos das nossas funcionárias publicas que ficam o dia inteiro comendo pupunha com café, conformadas com a vida e esperando dar 18 hs… quma contradição cultural… mas contando que não haja uma guerra de proporçÕes atómicas… o conflito sempre é válido.

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