Baader-Meinhof

 

Se você é fã da Legião Urbana, provavelmente deve se lembrar de uma das melhores músicas do álbum de estréia da banda, de 1982, Baader-Meinhof Blues – “A violência é tão fascinante e nossas vidas são tão normais…”.

Para muitos, o título não faz sentido. Mas se você, assim como eu, nasceu nos anos 70 e vivenciou os 80 – e caso também não fosse nenhum alienado que só queria saber de discoteca e glam rock – provavelmente você deve saber que Renato Russo fazia uma homenagem a um grupo de jovens revolucionários alemães que morreram barbaramente nas prisões daquele país por terem iniciado uma luta armada feroz contra o stablishment.

Nos idos dos anos 60, enquanto os hippies norte-americanos usavam suas drogas psicodélicas e achavam que podiam deter os problemas do mundo apenas com flores, paz e amor – numa atitude até, muitas vezes, conformista disfarçada de pacifista – nações industrializadas do fim da década experimentavam o aparecimento de movimentos culturais ortodoxos, produto do amadurecimento da geração dos baby boomers – as crianças nascidas depois do fim da II Guerra Mundial – da Guerra Fria e do fim do colonialismo norte-americano. Nesse contexto histórico, novas subculturas como as comunas e assuntos como racismo, movimentos feministas e anti-imperialismo, estavam na linha de frente das preocupações das políticas de esquerda. Muitos jovens viviam alienados de suas famílias e descrentes das instituições do Estado.

Inicialmente centrados na crítica à instituição universitária, os estudantes alemães da época, por exemplo, viraram suas atenções para eventos internacionais, como a Guerra do Vietnã, a pobreza no Terceiro Mundo e a questão da energia nuclear. Além disso, eles criticavam igualmente aquilo que lhes parecia ser a relutância da sociedade alemã em confrontar-se com seu passado nazista. Para alguns, o Estado que vigorava na República Federal da Alemanha era uma continuação do antigo Reich. O legado histórico do nazismo havia criado uma fenda entre as gerações e aumentado a suspeita de estruturas autoritárias na sociedade. Na juventude esquerdista alemã, havia raiva com relação às falhas no processo de desnazificação da Alemanha no pós-guerra, visto como ineficiente.

O Partido Comunista alemão havia sido posto fora da lei desde 1956. Cargos eletivos e não-eletivos da administração pública, dos mais altos a nível nacional até pequenos cargos municipais, eram frequentemente ocupados por ex-nazistas. Até o primeiro chanceler da então Alemanha Ocidental, Konrad Adenauer, tinha um antigo nazista em seu gabinete. A mídia conservadora era vista pelos estudantes como tendenciosa, controlada por empresários como Axel Springer – dono do tablóide sensacionalista Bild-Zeitung e do jornal Die Welt, entre os de maior circulação na Europa – um implacável oponente do radicalismo estudantil.

Muitos dos pensadores radicais da época sentiam que os legisladores alemães continuavam a criar leis autoritárias e que a aparente aquiescência da sociedade a isso, era uma continuidade da doutrinação que os nazistas haviam feito sobre a população trinta anos atrás. A Alemanha Ocidental, então já uma das economias mais ricas da Europa, estava exportando armas para ditadores africanos e reestruturando seu próprio rearmamento com uma ferrenha posição pró-Estados Unidos contra o Pacto de Varsóvia.

Em 2 de junho de 1967 o Xá do Irã, Mohammad Reza Pahlavi, realizou uma visita oficial à cidade de Berlim. O movimento estudantil aproveitou a ocasião para efetuar uma manifestação de protesto contra as violações de direitos humanos que aconteciam no Irã, denunciando o descaso que o Xá e a sua esposa, a imperatriz Farah Diba, demonstravam perante as classes mais desfavorecidas de seu país. Nesta mesma noite, após um dia inteiro de manifestações de exilados iranianos na Alemanha, apoiados pelos estudantes, centenas de manifestantes concentraram-se junto à sala Ópera de Berlim, onde o casal real deveria comparecer a um espetáculo. A manifestação, a princípio pacífica, desembocou em violência entre estudantes, seguranças do Xá e a polícia, ao fim da qual um estudante, Benno Ohnesorg, casado e com a esposa grávida, foi morto a tiros por um policial, Karl-Heinz Kurras, mais tarde inocentado de todas as acusações.

A morte do estudante, ao lado das manifestações contra a Guerra do Vietnã e a percepção de que o país se tornava um estado policial, galvanizou a juventude esquerdista alemã. Entre os líderes dos manifestantes naquele dia, encontrava-se Gudrun Ensslin, uma estudante de literatura alemã e inglesa na Universidade Livre de Berlim que, indignada com a morte de Ohnesorg, discursou aos estudantes dizendo: “Eles vão nos matar a todos. Vocês agora sabem o tipo de porcos contra os quais nós estamos lutando. Esta é a geração de Auschwitz. Você não pode dialogar com as pessoas que criaram Auschwitz. Eles tem armas e nós não. Nós precisamos nos armar! Por que a única forma de responder à violência é com violência”. Até então, o monopólio da violência estatal nunca havia sido posto em questão por oposicionistas alemães desde 1945. Nascia nesse dia a RAF – Fração do Exército Vermelho (em alemão: Rote Armee Fraktion), também conhecida como Grupo Baader-Meinhof.

A RAF foi uma organização guerrilheira alemã de extrema-esquerda, fundada em 1970, na antiga Alemanha Ocidental, e dissolvida em 1998. Um dos mais proeminentes grupos extremistas da Europa pós-Segunda Guerra Mundial, seus integrantes se autodescreviam como um movimento de guerrilha urbana comunista e anti-imperialista, engajado numa luta armada contra o que definiam como um “Estado fascista”.

A RAF foi formada pelo anarquista Andreas Baader, pela estudante Gudrun Ensslin (namorada de Baader), pela jornalista de esquerda Ulrike Meinhof e pelo advogado Horst Mahler. Durante seus 28 anos de existência, nos quais contou com três gerações diferentes de integrantes, o popularmente assim chamado Grupo Baader-Meinhof foi responsável por inúmeras operações de guerrilha e atentados na Alemanha, especialmente os cometidos no segundo semestre de 1977. E esta história da primeira geração do grupo você pode conferir no filme O Grupo Baader-Meinhof (Der Baader-Meinhof Komplex; 2008).

O filme é uma co-produção da Alemanha, França e República Tcheca. Traz a direção de Uli Edel e roteiro de Stefan Aust e Bernd Eichinger. Além disso, teve um orçamento de 20 milhões de euros e foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro; Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme Estrangeiro e BAFTA na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. O elenco conta com Moritz Bleibtreu (Andreas Baader); Martina Gedeck (Ulrike Meinhof) e Johanna Wokalek (Gudrun). Finalmente, a trilha sonora inclui clássicos da época como Janis Joplin e Jimi Hendrix. Vale a pena conferir!

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