O homem que amava as mulheres

Ela chegou ao estúdio de gravações e ele já a esperava com seu ar blasé de sempre. Do mesmo jeito que estava, sentado, de pernas cruzadas, fumando um cigarro de forma relaxada, ele a dardejou com seus olhos de caçador por entre a fumaça sinuosa. Ela, por sua vez, estava bastante excitada com o que poderia vir a acontecer – apesar de sua experiência como estrela de cinema. Olhando para ele e vendo que aquele homem único (que ela já conhecia tão bem, mas que sempre a surpreendia com o inusitado) não esboçava nenhuma reação que não fosse um certo ar de indiferença, ela entrou no aquário* para tentar colocar sua voz naquela música intrigante que tinha sido feita especialmente para ela, por aquele sujeito que exalava sedução.

Nervosa e meio trêmula – o tempo todo vigiada por aqueles olhos lancinantes – ela colocou seus fones de ouvido, tentou se concentrar um pouco e deu o “ok”. O engenheiro de som, por sua vez, deu a ordem ao técnico da mesa que imediatamente soltou o “play” e a tal música começou a penetrar os ouvidos dela. E aquele ritmo envolvente e repetitivo, de melodia singular, ia lentamente tomando todo o seu corpo.

Primeiro veio a introdução, composta por um compasso quádruplo de guitarra, contra-baixo e bateria que permanecem imutáveis durante toda a canção. E na segunda parte da introdução, depois de uma pausa brevíssima, entra o som sinuoso dos teclados (programados para soar como um antigo órgão ou harmônica). E quase junto à introdução do teclado, ela tinha que começar a letra: “Je t’aime… Je t’aime… Oui, Je t’aime…”. E o cara com ar de sedutor, levantou-se apressadamente e mandou interromper a gravação.

Fones nos ouvidos, letra da música no suporte de partituras, tudo ok. Tomada dois: guitarras, contra-baixo e bateria, em seguida os teclados e, finalmente, “Je t’aime… Je t’aime… Oui, Je t’aime…”. A gravação foi interrompida mais uma vez. Dessa vez o homem com ar de sedutor olhou para ela e falou através do microfone da mesa de gravação que faltava um pouco mais de ritmo e sensualidade na voz. Ela que já estava nervosa, ficou mais nervosa ainda e apenas balançou a cabeça acatando a sugestão.

Tomada três: a mesma sequência de guitarras, contra-baixo, bateria e teclados e o início da letra: “Je t’aime… Je t’aime… Oui, Je t’aime…”. Desta vez ela havia conseguido ir um pouco mais além.

Quando ela terminava de cantar a primeira frase, era a voz dele (do homem sedutor) que entrava no meio da música que tinha a idéia de sugerir um diálogo entre dois amantes. Mas houve uma nova interrupção. Ao ouvir a voz dele na música, através daqueles fones de ouvido, parecia que ele sussurrava e ela chegou a sentir um arrepio que percorreu por toda a sua coluna cervical. Ela havia se desconcentrado mais uma vez e havia deixado “buracos” na canção.

Várias tomadas se sucederam e foram interrompidas até que o homem com ar de sedutor mostrou um leve ar de irritação e, lá pela vigésima tomada, resolveu pedir para que o técnico da mesa tocasse apenas a base original, sem os arranjos pré-gravados com a sua voz já posta na trilha. Mandou que o técnico da mesa só começasse a gravar quando ele desse um sinal.

Com a leveza no andar que lhe era peculiar, ele se dirigiu ao aquário, aonde ela se encontrava. Puxou dois banquinhos. Mandou que ela se sentasse em um. Regulou bem a altura do microfone para que ela cantasse confortavelmente sentada e sentou-se no outro banquinho, bem colado às costas dela. E quando ela sentiu aquele cheiro conhecido de cigarro e aquela temperatura também conhecida do seu corpo roçando suas costas, um novo arrepio lhe percorreu a espinha dorsal e todos os poros de sua pele ficaram eriçados. E sua calcinha começou a umedecer. E ele, segurando firmemente com as duas mãos em seus quadris de fêmea, puxou-a ainda mais para perto de si e sussurrou em seus ouvidos: “Agora, mon’amour, você vai fazer amor com a música. Concente-se na letra e deixe a música lhe penetrar a alma e lhe encher de orgasmo sonoro”.

Nesse instante ela suspirou num reflexo de excitação total. Ele fez um sinal com a mão direita para o técnico de som e a música começou a tocar. A mesma sequência de guitarras, contra-baixo, bateria e teclados e o início da letra: “Je t’aime… Je t’aime… Oui, Je t’aime…”. Agora aquelas palavras saíam da boca daquela jovem e belíssima fêmea com tons de suspiros e respiração ofegante. E eles seguiram cantando e sussurrando juntos, enquanto as mãos daquele sedutor deslizavam sofregamente por entre as pernas molhadas da jovem fêmea – que agora estava completamente entregue nas mãos do seu algoz.

A gravação foi finalizada nesta última tomada. O casal de artistas se recompôs, enquanto o engenheiro de som e o técnico não acreditavam naquilo que haviam acabado de presenciar. Como aquele sujeito mediano conseguiu domar com tanta maestria aquela linda fêmea, conhecida e amada no mundo todo por suas películas cinematográficas?

Os gemidos e sussurros, e a respiração ofegante ficaram eternizadas naquela gravação que foi arquivada por mais de dez anos, pois, ao final daquela sessão, ela lembrou que era casada e não podia expor o marido daquele jeito.

Ela era ninguém mais, ninguém menos que Brigitte Bardot, uma das maiores divas que o cinema já viu. Ele era o excêntrico sedutor francês Serge Gainsbourg – cantor, compositor, cineasta e um dos maiores causadores de escândalo de seu tempo. A música era “Je T’Aime… Moi Non Plus”.

http://www.youtube.com/watch?v=So_Pi87P1Ec

A história contada acima retrata apenas os detalhes que minha imaginação criou, baseada nesta lenda da música. Mas a essência desta história, o fato em si é verídico.

Gainsbourg (2 de abril de 1928, Paris — 2 de março de 1991, Paris) escreveu canções para diversos intérpretes da música francesa, dentre os quais destacam-se Françoise Hardy, Catherine Deneuve, Isabelle Adjani, Vanessa Paradis e para sua esposa Jane Birkin, mãe da sua filha Charlotte Gainsbourg. Mas foi com a bela Brigitte Bardot que ele promoveu um dos mais comentados escândalos da época, no mundo das celebridades.

“Je T’aime… Moi Non Plus” havia sido composta originalmente para Brigitte, mas ela, insegura com o escândalo que a música poderia causar (e certamente causou), preferiu não lançar o dueto. Serge, por sua vez, encontrou uma substituta à altura: a atriz britânica Jane Birkin, que já havia causado escândalo com cenas de nudez em Blow-Up (filme de Michelangelo Antonioni) e com a qual foi depois casado.

Também foi ator e cineasta. Contudo, seu maior personagem era ele mesmo. Viciado irrecuperável em cigarros, álcool, mulheres e versos com temas polêmicos, ele colecionou escândalos e amantes durante toda a vida.

O sucesso de “Je T’aime…”, no entanto, foi inegável, e a canção foi regravada mais tarde por Donna Summer e Ray Conniff, entre outros.

Gainsbourg foi um talentoso compositor que soube trafegar por diversos ritmos e estilos. Produziu muitas músicas para filmes e trabalhos que vão do jazz ao rock e ao reggae, incluindo um álbum com Sly Dunbar e Robbie Shakespere na Jamaica.

Apesar das inúmeras polêmicas e escândalos que causou durante toda sua vida, ao morrer 2 de março de 1991, a França inteira parou ao ouvir a notícia, e os fãs correram para sua casa para prestar homenagem à estrela do rock mais ilustre do país. François Mitterrand, o presidente na época, descreveu Gainsbourg como “Nosso Baudelaire, nosso Apollinaire …Ele elevou a canção ao nível da arte”. Apesar de deixar um legado de drama, escândalo e controvérsia, Gainsbourg é lembrado agora muito mais pela sua capacidade artística, música e carisma.

Serge Gainsbourg ainda é um ícone da cultura francesa e mundial, que por mais polêmica que causou, é adorado e aclamado por todos. Ele também conseguiu o que queria, levou todos a falar dele, mesmo 20 anos após sua morte. Simplesmente genial.

A cinebiografia “Gainsbourg – O Homem Que Amava as Mulheres” estreia hoje (08 de julho de 2011) nos cinemas brasileiros. Confira o trailler em http://www.youtube.com/watch?v=R82F3EjXBMM&feature=player_embedded

 

*AQUÁRIO: Sala isolada acusticamente dentro de um estúdio onde são gravados os instrumentos e vozes do músicos para a mesa de gravação. É geralmente chamado de aquário por causa do grande vidro que o separa do restante do estúdio.

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