Um tema difícil…

Depois de muito tempo sem a mínima inspiração para escrever e atualizar o blog, resolvi falar um pouco sobre um tema difícil…

Na verdade, esse tema é bem difícil para aqueles que se dizem “roqueiros”. Mas bastante fácil para quem, assim como eu, cresceu ouvindo um pouco de tudo e tem como principal referencial de “boa música” simplesmente aquilo que lhe soa bem aos ouvidos.

Eu, por exemplo, aprendi essa lição com meu pai que, desde cedo me ensinou a ouvir (e curtir!) nomes como Bach, Beethoven, Elvis Presley, The Beatles, Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves, Clara Nunes, Raul Seixas, Black Sabath, Pink Floyd, Rush, Roberto Carlos… A lista é imensa, assim como é imensa também a diversidade de estilos musicais que sempre ouvi na pequena (porém preciosa) coleção de LPs do meu pai.

Aí, hoje, eu fico vendo as transmissões do Rock in Rio… E num giro rápido pela net ou mesmo ouvindo as opiniões inflamadas de amigos e pessoas próximas, vejo a indignação das pessoas por causa das atrações menos… “ortodoxas”, digamos assim. Este ano o evento trouxe em sua programação nomes como Milton Nascimento, Maria Gadú, Claudia Leitte, Katy Perry, Rihanna, Ke$ha, Ivete Sangalo, Shakira, entre outros. Os “roqueiros puristas” (se é que podemos chamar assim), ficaram indignados pelo fato desses nomes citados não serem rock e isso tudo ser uma grande “incoerência” com o evento.

Basta lembrar um pouco da história do próprio festival:

O Rock in Rio é um festival de música idealizado pelo empresário brasileiro Roberto Medina e realizado pela primeira vez em 1985, no Rio de Janeiro. Ao longo da sua história, o Rock in Rio teve nove edições, três no Brasil, quatro em Portugal e duas na Espanha. Em 2008, foi realizado pela primeira vez em dois locais diferentes, Lisboa e Madrid.

Graças ao enorme sucesso do evento original, Medina promoveu o Rock in Rio II (91) e o Rock in Rio III (2001).

Rock in Rio foi internacionalizado em 2004 com a primeira edição do Rock in Rio Lisboa, em Portugal. Entretanto, a mídia brasileira e o público foram totalmente contra a realização do festival naquele país, mas ignorados devidos a pensamentos ambiciosos por parte de Roberto Medina.

Em 2006 e 2008, foram realizadas a segunda  e a terceira edição do Rock in Rio Lisboa e , no mesmo ano, foi realizada a primeira edição do Rock in Rio Madrid, na Espanha.

A primeira edição do evento, no Rio de Janeiro, em 1985, contou com nomes como: AC/DC, Os Paralamas do Sucesso, Iron Maiden, Barão Vermelho, James Taylor, Ivan Lins, Ozzy Osbourne, Pepeu Gomes, Queen, Rod Stewart, Scorpions, Yes e Whitesnake. Com certeza a versão mais “roqueira” do evento até hoje.

A segunda edição trouxe: Guns N’ Roses, Faith No More, Sepultura, Happy Mondays, Titãs, Judas Priest, A-ha, Debbie Gibson, Megadeth, Engenheiros do Hawaii, George Michael, Lobão, Queensryche, Moraes Moreira e Pepeu Gomes e Billy Idol. Também se apresentaram pela 1ª vez no Brasil o grupo New Kids On the Block (muito contestado por fãs do verdadeiro “Rock and Roll”, no aeroporto Internacional do Rio de Janeiro), Information Sociaty, Lisa Stanfield entre outros.

O Rock in Rio III trouxe aos palcos: Iron Maiden, Sepultura, Rob Halford, Guns N’ Roses, Papa Roach, Oasis, Pato Fu, R.E.M., Ira! & Ultraje a Rigor, Foo Fighters, Capital Inicial, Silverchair, Cássia Eller, Sandy e Junior, Britney Spears, Red Hot Chili Peppers, Carlinhos Brown, Oficina G3 e Os Nazaritos (estas duas últimas, bandas “gospel”)

Pra finalizar o histórico, é bom lembrar que o hino do festival é de autoria do compositor Nelson Wellington e do maestro Eduardo Souto Neto e foi gravado originalmente pelo grupo Roupa Nova.

Como se pode ver pelos nomes das diversas atrações que se apresentaram só aqui no Brasil, o Rock in Rio não é um festival de rock, mas de música em geral, para todos os públicos. Simplesmente não dá pra querer comparar um evento mercadológico desse tipo com Woodstock ou o White Island Festival, até porque estes também foram festivais de música em geral e não só de rock.

O grande problema é que boa parte dos chamados “roqueiros” são radicais, preconceituosos e limitados em aceitar a diversidade musical (incluindo a do seu próprio país).

Eu, particularmente, não sou consumidor dos trabalhos de Sandy e Junior, Britney Spears, Oficina G3 Cláudia Leite ou Ivete Sangalo. Mas não me espanto com esses nomes inseridos no Rock in Rio. Simplesmente porque a música, no mundo todo, está ficando cada vez mais misturada e “inrotulável” (para usar um neologismo). Eu não me espanto, por exemplo, com declarações como a de Paula Fernandes, que declarou ao site TopTVZ, do Canal Multishow, que é fã do Metallica ou de Nando Reis, em recente entrevista à revista masculina Playboy que disse não gostar de ouvir bandas de rock brasileiro.

Alguns meses atrás, pelo Facebook, andou circulando uma foto de Chimbinha (Banda Calypso) usando uma camisa de uma banda de Death Metal. E daí se o cara curte um som mais agressivo e ganha sua grana com um ritmo de apelo extremamente popular? – E olha que ele é um exímio guitarrista, mas parece que os “roqueiros puristas” tem isso como um sacrilégio!

Anos atrás, numa entrevista exibida no programa da Xuxa, na Rede Globo, Durval Lélis, vocalista da banda de axé Asa de Águia, revelou que a banda começou na adolescência tocando punk rock. Muitos punks, na época, ficaram literalmente “de cabelo em pé”. e por aí seguem os exemplos.

Quando vejo essas opiniões inflamadas, costumo pensar o que seria da nossa música brasileira, tão rica e diversa – e, por isso mesmo tão apreciada lá fora – se Raul Seixas, junto com a turma da Jovem Guarda e do Tropicalismo não tivessem incorporado a guitarra elétrica nessa salada cultural, mesclando rock com bião, reggae e iê, iê, iê. Ou se Chico Science, Marcelo D2 e Los Hermanos não tivessem tido a ousadia de misturar maracatu com música eletrônica, hip-hop com samba e bossa-nova com rock, respectivamente.

Penso que é hora de se libertar das amarras do preconceito e abrir os ouvidos para aquilo que lhe soe bem aos seus ouvidos. Que cada um possa curtir a sua “onda” em paz, enquanto empresários como o sr. Medina conta seu rico dinheirinho. E o resto é papo furado!

 

Anúncios

Um comentário sobre “Um tema difícil…

  1. Isso também acontece na literatura. Eu, por exemplo, me recuso a aceitar Paulo Coelho (e sua subliteratura) na Academia Brasileira de Letras, embora reconheça que o patife seja hoje a maior atração literária brasileira em Feiras de Livros e prateleiras internacionais. Misturar Metallica com Cláudia Leite, pra mim, é a mesma coisa que misturar Paulo Coelho com Nélida Piñon e João Ubaldo Ribeiro (e diria até José Sarney, que pode ser o diabo que for na política, mas é um bom escritor). Que cada um “curta a onda” de ler Paulo Coelho quando quiser, só não precisavam lhe dar uma cadeira na ABL. Sei lá, a sua prosa me remete sempre à literatura… você sabe!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s