O sentimento das coisas – O Carimbo

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Ele era moderno; dinâmico e, ao contrário dos mais antigos, tinha seu próprio reservatório de tinta embutido – não precisava se sujar naquelas esponjas coletivas, onde os velhos se embebiam de tinta e, muitas vezes, eram contaminados pelos germes de alguns dedos analfabetos. Estava acostumado ao trabalho duro, à mão pesada do funcionário que lhe usava. Porém um dia, quando aquele mesmo funcionário, que há três anos manuseava-o sempre com mão tão firme e precisa, resolveu empregar menos força para carimbar seus papéis, o carimbo se sentiu estranho e travou. Quase não reconheceu a mão que o segurava. Sentiu-se impotente. Aterrorizou-se quando, erguido da folha, viu sua impressão mais fraca que o normal e, naquele dia, ao final do expediente, quando todas as luzes se apagaram e todos os funcionários foram embora da repartição, o carimbo não dormiu tranquilo como os outros. Pensou que, talvez, aquela tivesse sido sua última impressão numa folha de papel…

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