E viva a hipocrisia brasileira!

A putaria sexualidade é inerente ao ser humano. Você pode ser mais ou menos puto(a) sexualizado(a). Mas o fato é que, como já dizia Freud, somos todos adeptos de uma boa sacanagem experiência prazerosa desde sempre. O problema é que a putaria sexualidade e a sacanagem satisfação só são o que são porque, muitos séculos atrás, algum pedófilo de batina lá pras bandas de Roma resolveu tornar a sexualidade humana em um tabu e implantou na cabeça de todo mundo essa falácia de pecado.

Ok, eu amo história. Mas prometo que não vou fazer nenhum retrospecto histórico sobre a relação da sociedade ocidental com a sexualidade recalcada. Vamos pular essa parte. Vamos tornar o texto mais leve e cheio de algumas boas lembranças. Afinal, como já dizia o “velho deitado”, recordar é viver…

O dia era 30 de junho de 1986. Férias escolares na casa da avó e eu tinha acabado de completar nove anos, em março daquele ano. Estava com minha irmã (na época com quatro anos), primos, tios, pai e mãe, a turma toda. Eu ainda não havia superado a minha separação da Simoni e de toda a Turma do Balão Mágico que, a partir daquele dia eram simplesmente trocados por um tal de Xou da Xuxa… Mas quem era aquela tal de Xuxa? Até então eu só sabia, da boca dos adultos da família, que ela tinha namorado o Pelé, era modelo e tinha feito um filme pornô com um menino de 12 anos. Mas o que era “filme pornô”?…

Voltando ao assunto… Quando aquele disco voador cor-de-rosa pousou em meio a fumaças e luzes coloridas com uma loira de quase 1,80m saindo de dentro, usando uma minissaia preta e um top tomara-que-caia bem decotado, inaugurava-se uma nova era da televisão brasileira. O programa era “só para baixinhos”, mas muitos “altinhos” não tiravam os olhos da tela e das pernas de Xuxa e do seu time de ninfetas adolescentes fantasiadas de balizas de fanfarra, as Paquitas, as equivalentes tupiniquins das míticas cheerleaders norte-americanas. Não sabe o que é uma cheerleader? (Çei!) Assista Beleza Americana (1999) ou qualquer outra porcaria cinematográfica americana que você vai entender do que eu estou falando…

Fato é que, a partir daquele fatídico ano de 1986 as casas, ruas, praças e escolas do Brasil foram tomadas por pequenas miniaturas de… Xuxa e suas Paquitas. E sim, as crianças passaram a ser cada vez mais sexualizadas – do jeito errado, mas foram. Botas de couro sintético de cano alto cobriam até a metade perninhas que mais pareciam uns gravetos; minissaias (também de couro sintético) juntamente com tops tomara-que-caia decotados (iguais aqueles que a apresentadora usava) viraram itens obrigatórios em corpinhos impúberes, inocentes e (por que não?) indefesos diante da moda imposta pela mídia.

Se você acha que eu estou exagerando, estas foram as palavras da própria apresentadora em entrevista recente no programa do jornalista Pedro Bial: “Se você parar pra pensar e ver meus programas, 80% das coisas que eu fazia no Xou da Xuxa era politicamente incorreto. Da maneira como eu falava com as crianças, coisas que eu fazia, o jeito que eu me vestia, até as músicas que tocavam. Eu teria sido crucificada se tivesse feito isso hoje em dia”.

Anos depois, outra loira (dessa vez falsa) encantava as crianças (e, lógico, a macharada brasileira) com sua garrafa. Uma linha inteira de bugigangas e shortinhos de lycra mínimos eram vendidos em toda esquina; nas festinhas de escola (todas, do pré-escolar ao ensino médio) sempre tinha que ter um concurso de dança e, nestes concursos, inevitável e lamentavelmente estava ela, a garrafa, como principal objeto fálico (ops! Cínico! Ops de novo! Cênico! Objeto cênico)…

Mas tudo isso é como a “Rainha dos Baixinhos” também falou no Conversa com Bial: “Se eu não fizesse isso, estaria fora do que estava acontecendo diariamente da porta pra fora. Todo mundo fazia isso na praia, na piscina, nas músicas, videoclipes, na TV, nas aberturas de novela”… Sim, ela tem razão nesse ponto: Nessa sociedade de massa em que vivemos, a mídia se alimenta do povo e o povo se alimenta da mídia.

E hoje, tá diferente? Tá nada! Quer dizer, a caretice do falso moralismo e o sexismo doentio tem ganhado espaço em várias partes do mundo, depois que o pêndulo da História passou a pender para a extrema direita. Mas veja, vivemos no país da incoerência: Peitos, bundas e patas-de-camelo desfilam tranquilamente nas praias, academias, praças, supermercados, etc. Anitta, ao invés de fazer videoclipes, praticamente faz vídeo aulas de como mexer a bunda em “quadradinho”. Nos postos de gasolina, estacionamentos e até em casa, distintos pais de família exibem a potência do som dos seus carros com canções de letras profundas e uma poesia vibrante, do tipo: “A galera tá pedindo pra tocar no paredão / As novinhas tão subindo e descendo até o chão”… (e o que mais me impressiona é que não é de escada nem elevador)! Hehehe

Aí, do lado oposto nós temos: Um arremedo de ditador que defende a tortura e o estupro; uma ministra evangélica que tentou mexer os pauzinhos (não sei de quem) pra impedir uma criança estuprada de abortar o feto de seu estuprador; um padre pedófilo que tem certeza que essa mesma criança gostava de ser violentada e um monte de lacaio uniformizado com a camisa da CBF achando que tudo isso é “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”… E agora estão tentando, na justiça (que também não anda lá com essa moral toda), proibir Mignnones (2020), filme francês, vencedor de prêmios internacionais, alegando que o mesmo faz apologia à pornografia infantil!

Puta que pariu! Meu gato pôs um ovo!

Eu assisti à porra do filme e, ao terminar, fiquei tentando imaginar que mente doentia é essa que se excita com um bando de meninas pré-adolescentes dançando, muito provavelmente as mesmas danças que seus filhos dançam nos aniversários dos coleguinhas! Fico imaginando os tarados que conseguem enxergar pornografia infantil nesse filme. Talvez tenham se confundido com o título: Mignnones, em francês, quer dizer algo como “fofas”, enquanto o filme preferido dessa corja se chama Minions, que em inglês significa “lacaios” (aliás, termo que lhes cai feito uma luva)…

O filme da estreante franco-senegalesa Mïrmouna Doucouré conta apenas a história de uma menina de 11 anos, imigrante senegalesa em Paris, fazendo suas descobertas de toda uma vida e mundo novos a partir de um grupo de outras meninas locais que sonham em ganhar um concurso de dança. Essa história serve como pano de fundo para temas como as dificuldades econômicas e sobretudo culturais que os imigrantes enfrentam ao chegar à Europa, o choque cultural, as descobertas e sonhos de milhares de meninas no mundo contemporâneo, etc.

O filme tem muito o que mostrar, só não mostra – em nenhum dos 96 minutos de duração – pornografia infantil! É um filme simples, com uma história simples, e só. Não é um filmaço daqueles de relembrar pelo resto da vida e arrebatar todas as estatuetas do Oscar. Mas uma coisa é não gostar do filme, outra é ver peito e bunda onde não tem! Aliás, o nome disso, segundo Freud, é perversão.

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