Os ecos da câmara de eco

Os sinais estão por toda parte. Eles estão aí para serem vistos, lidos, interpretados e para nos mostrar que tudo está conectado. Uma borboleta pousa displicentemente sobre um número 7 que está inscrito na placa de um carro. Mas o 7 não está só. Ele faz parte de um número maior: 971. Então, ao me deparar com essa imagem captada pelas lentes da artista plástica Renata Cabral para a capa do novo disco do poeta e cantador paraibano Júnior Cordeiro, um aluvião de ideias e imagens simbólicas toma conta do meu cérebro e eu, como mero aprendiz do Bruxo do Cariri Velho, tento decifrar mais uma vez os enigmas dessa feitiçaria meio cigana, meio cabocla-cibernética que o poeta nos apresenta.

A borboleta é o símbolo da transformação. O 7 é o número que traz a energia da análise, da introspecção; mas também é o número dos vícios, do sarcasmo e da solidão. O 7, inscrito numa placa de carro, também me faz recordar da carta de número 7 do Tarô, o Carro, com seu significado de vitória, triunfo e realização. E o número 971 tem a energia da soma dos seus algarismos que, pelas leis da Numerologia Pitagórica, resultam no 8 (971 = 9+7+1 = 17 = 1+7 = 8). O 8 é o número que representa o infinito e as verdades universais. Daí que, diante disso tudo, eu só posso enxergar que o disco de número 7 da carreira de Júnior Cordeiro, traz em si toda a energia das transformações infinitas pelas quais passamos nestes últimos tempos. Tempos marcados por uma pandemia virulenta que nos obrigou a todos (ou pelo menos à maioria) a vivenciar um estado de autoanálise e introspecção, presos nas cerquilhas das rashtags que nos encurralam e nos jogam numa #câmaraeco. Ainda que não tenhamos nos livrado completamente dos vícios do narcisismo causado pelas redes sociais; do sarcasmo dos nossos governantes e da solidão de um mundo conectado digitalmente e, ao mesmo tempo, tão desconectado afetivamente.

Então começo a ouvir o disco, que já está disponível em todas as plataformas digitais desde o dia 2 de janeiro e também em vinil 180g – como comemoração pelos seus 15 anos de carreira. O 7° disco de Júnior Cordeiro tem a produção musical dele e de Moisés Freire. Cordeiro também assina todas as composições e a direção musical, além de dividir os créditos da direção artística com a artista plástica Renata Cabral – a Renata, aliás, está de parabéns pela foto e concepção da capa. Cordeiro divide ainda os créditos de todos os arranjos das 13 músicas contidas no disco com os parceiros Moisés Freire, Cris Lima e o virtuose Giordano Frag.

Fotografia: Jordy Ribeiro

Todo o disco traz a marca da mistura do rock psicodélico com regionalismos que vem se consolidando em cada trabalho de Júnior Cordeiro. Musicalmente, é possível identificar toda a riqueza melódica e rítmica do cancioneiro tradicional popular nordestino, em especial os repentes e emboladas dos violeiros, bem como o estilo contemporâneo de nomes como Alceu Valença e Zé Ramalho, além do folk, do blues, do jazz e do rock mais pesado norte-americano. Cordeiro consegue captar e misturar muito bem, através de arranjos altamente criativos, as raízes culturais dos rios Hudson e Mississipi com as águas do São Francisco e do Paraíba.

Já em suas letras, autores importantes como Bauman, Dostoiévski, Foucault, Rousseau e Sérgio Buarque de Holanda, entre outros, dialogam tranquilamente com Cego Aderaldo, Zé Limeira, Patativa, etc. E é, justamente, nesse clima, que o disco é aberto com o rock psicodélico Não Faz Muito Tempo, que lembra muito os experimentalismos lisérgicos de Alceu Valença no show “Vou Danado Pra Catende”.

Na sequência, a belíssima Quando a Gente Ainda Revelava Fotos – de longe, a minha preferida! – com a presença marcante do cello de Lalá Oliveira que lembra as intervenções de violino do disco Desire, de Dylan (1976). Além de uma letra quase cinematográfica de tão imagética.

Apesar do disco ter sido todo composto, produzido e gravado em meio à pandemia de covid-19 que assola o mundo desde 2020, Junior Cordeiro diz que este não é um disco temático sobre a pandemia. Porém, como os trabalhos anteriores que ele vinha fazendo, #CâmaraEco traz como temática central pós-modernidade líquida e globalizante, o narcisismo e o individualismo hodierno – alguns dos assuntos preferidos do poeta. Mas, mesmo não tendo a pandemia como tema central ou pano de fundo, é impossível não fazer relações, como na música de trabalho Conexão Amor, que fala, sobretudo, das relações intensas vividas neste mundo líquido – como diria Bauman – e que podem se desfazer num clique ou numa queda de sinal do wi-fi.

A música de número 4 é, simplesmente, genial. Em O Vira-Lata do Sul, o poeta consegue fazer uma autocrítica de nossa brasilidade inspirado no modelo do “brasileiro cordial”, descrito por Sérgio Buarque de Holanda, e do nosso “complexo de vira-lata” cunhado por Nelson Rodrigues, numa letra atualíssima e vigorosa, que faz ferver nosso sangue latino, apesar do arranjo soul-funk americano e da guitarra matadora de Giordano Frag.

Aliás, antes de continuar falando das outras músicas, devo dizer que a banda base que acompanha Júnior Cordeiro está afinadíssima com a proposta do trabalho e consegue nos presentear com um som de primeira qualidade. A banda é formada por Moisés Freire (viola e guitarra); Giordano Frag (guitarras); Cris Lima (teclado e arranjo de cordas); Max Dias (baixo); Kamillo Lima (bateria); Sandrinho Dupan (percussão); Lalá Oliveira (cello) e Luiz Saraiva (flauta e sax).

Voltando à sequência das músicas, a quinta faixa, Retrotópica é um soco no estômago que entra com um peso quase heavy-metal e parece ser uma segunda parte de O Vira-Lata do Sul.

A sexta música, Ando Com Vontade de Ser Feto Novamente, é uma balada quase psicanalítica, marcada por um belo arranjo de sax, executado com maestria por Luiz Saraiva.

O Andarilho (Mourão Perguntado) é, como o nome já diz, inspirado num estilo de poesia popular nordestina onde dois repentistas dialogam através de perguntas. E a escolha de Cordeiro para fazer o duelo da cantoria nesta sétima faixa não podia ter sido melhor do que Silvério Pessoa (ex-Cascabulho), que trouxe um toque do bom e velho manguebeat pernambucano para o repente caririseiro de Cordeiro. Dá vontade de sair pulando numa roda de ciranda com maracatu.

A música de número 8 é #CâmaraEco. É ela que dá nome ao disco e, segundo Júnior Cordeiro, deve ser pronunciado “rashtag-câmara-eco”, numa clara crítica do artista à ditadura dos algoritmos das redes sociais, onde as coisas só ganham importância se vierem precedidas da cerquilha (#), este símbolo que nos cerca e nos tranca como num cômodo fechado, numa câmara de eco, onde tudo que ouvimos é apenas o discurso repetido do nosso Narciso a ecoar. E como todo o disco, essa música, em especial, mostra essa dissociação da realidade em que vivemos.

Este mesmo tema retorna brevemente na música de número 10, #mundo #medo #lindo e na música de número 13, que fecha o disco, #ressentida.

Em O Mundo Não Precisa Ver, Júnior Cordeiro revisita um estilo já explorado em discos anteriores: Uma balada romântica com leves toques de blues e jazz ressaltados pelo piano intimista de Cris Lima.

Na 11ª faixa, intitulada Só, Demasiado Só, temos também uma releitura de outros trabalhos anteriores de clara inspiração “ramalhiana”, com aquele compasso quase ibérico de canções como “Vila do Sossego” e “Falas do Povo”.

Por fim, na música de número 12, Uma Selfie para Sísifo, Cordeiro mostra a que veio numa música brevíssima, porém rica em ritmo, letra e melodia.

Como eu disse lá no início, os sinais estão em toda parte e eu penso que a minha leitura dos sinais que vi na capa de #CâmaraEco não poderiam ser mais claros: O sétimo disco de Júnior Cordeiro o coloca triunfante e vitorioso (como na carta O Carro, do Tarô), no hall dos grandes artistas da música paraibana contemporânea.
Para quem não conhece, vale muito a pena conhecer o trabalho do Bruxo do Cariri Velho. #FICADICA

Fotografia: Jordy Ribeiro

Ficha Técnica

Produção musical: Júnior Cordeiro e Moisés Freire
Direção musical: Júnior Cordeiro
Direção artística: Júnior Cordeiro e Renata Cabral
Foto e concepção da capa: Renata Cabral
Fotografia: Jordy Ribeiro
Gravado e Mixado entre julho e dezembro de 2020
Masterizado por Recomaster/São Paulo

Todas as canções são da autoria de Júnior Cordeiro

Arranjos: Júnior Cordeiro, Moisés Freire, Cris Lima e Giordano Frag

*Participação especial de Silvério Pessoa em O Andarilho (Mourão Perguntado)

Banda base
Moisés Freire: Viola e guitarra
Giordano Frag: Guitarras
Cris Lima: Teclado e arranjo de cordas
Max Dias: Baixo
Kamillo Lima: Bateria
Sandrinho Dupan: Percussão
Lalá Oliveira: Cello
Luiz Saraiva: Flauta e sax

Disponível em: https://open.spotify.com/album/13aXeNYDj6NpxVnEhjlOqL?si=vrvKppfmQLOTTiqlOB0k8g

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s