Em Infinito Migrar, Júnior Cordeiro derruba todas as fronteiras entre o sertão e o deserto

“Bismillah ar-rahmaan ar-raheem: Al-hamdu lillahi rabb al-alameen…” (“Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso: Louvado seja Deus, Senhor do Universo…”) – diz o beduíno, recitando o Corão, recurvado sobre a fina areia do deserto, voltado em direção à Meca, nas primeiras horas do fajr (a oração ao amanhecer).
“Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Para sempre seja louvado! Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo…” – diz o vaqueiro, olhando para o céu, com o chapéu de couro numa mão e fazendo o sinal da cruz com a outra, nas primeiras horas do raiar do dia.
Nas mesquitas distantes da África saariana, uma voz solitária entoa um canto de louvor e de lamento. Enquanto em meio ao burburinho da feira de mangaio, um cego repentista entoa um improviso:

“Vou viajar, na minha imigração
E quero passar no Japão
E ver a beleza de lá.
Pra Gibraltar,
Quero um cantador mouro,
Vestido em jibão de couro
Pra romper no alto-mar…”

Então desperto; abro os olhos e vejo que estou com o meu celular na mão e com os fones no ouvido, ouvindo Infinito Migrar, o oitavo disco de Júnior Cordeiro, antes de tudo, poeta; mas também cantador, cantor, compositor, escritor, roqueiro… um artista completo, enfim.
Nesse novo álbum, Júnior Cordeiro – músico que vem se destacando nacionalmente no cenário musical, referenciado por gente de peso, que entende de música, como o crítico musical Régis Tadeu – traz toda a magia do imaginário popular cordelista que mescla elementos da caatinga e do deserto em músicas fortes como um coice de jumento e suaves como os passos de um camelo.
O disco traz 13 faixas – todas de sua autoria – que repetem a receita de todos os discos anteriores de Cordeiro – no sentido de serem, todos, discos temáticos. Em Infinito Migrar, encontramos como tema principal essa influência mourisca-andaluza-lusitana no imaginário popular nordestino. E que mistura rica! Rica em timbres, melodia, ritmos e harmonias às vezes polifônicas, às vezes homofônicas, outras vezes dissonantes e frequentemente sampleadas e distorcidas – porque, afinal de contas, Infinito Migrar é, em essência, um disco de rock, onde a presença das guitarras melódicas e distorcidas de Giordano Frag mais uma vez são presença marcante.
De tão diversa e rica, a musicalidade de Júnior Cordeiro é difícil de ser definida. É rock progressivo regionalista? É xote-chachado-baião metalizado? É pop, balada, hard blues?… – impossível resumir a obra desse matuto com pinta de rock-star. Júnior Cordeiro é um músico “agênero” (se me permitem um neologismo) e atemporal.
Mas vamos falar do disco!

Já na capa, a artista plástica Leticia Pantoja concebeu e elaborou uma arte que, de alguma forma lembra a estética onírica do ibérico catalão Salvador Dali. A arte traz elementos que sintetizam, num único olhar, elementos como as areias do deserto, com as cores da caatinga; as águas do mediterrâneo (ou, quem sabe, do Rio Taperoá); uma ave migratória que tanto pode ser um gavião do Cariri quanto um falcão do deserto e parte de um rosto feminino, de lábios carmin-andaluz, cuja pele é marcada pelas andanças dos nômades (sertanejos ou tuaregues) representada por um mapa em marca d’água. Por fim, o quadro se fecha numa fachada em pórtico ao estilo de Alhambra.
A primeira faixa, intitulada “No Rastro da Lua (Blues Mourisco)”, começa com um repente à capela evocando Euterpe, deusa grega da poesia – o que, de certa forma, reforça as raízes caririzeiras de Cordeiro, natural de São João do Cariri (a Atenas do Cariri Velho). Além do repente, evoca a figura do mouros e beduínos em um arranjo que muito lembra uma psicodelia repaginada.
Na sequência imediata, a segunda faixa, “Dança dos Milênios”, entra como se fosse uma continuação da primeira e traz um refrão que beira o romantismo das cantigas de amigo dos menestréis medievais – e o mais importante: Sem ser piegas!
“Na Volta do Sonho”, a terceira faixa, é um rock pesado quase que no sentido tradicional da expressão. E essa trinca de músicas que abre o disco fecha a primeira quadra com “Entre a Cruz, a Lua e o Candelabro (Martelo Alagoano)”, numa mistura perfeita dos diatonismos árabes e nordestinos. Sem falar do refrão que ganha tons de pós-modernidade ao misturar galope rasante com um remix eletrônico – você acha isso impossível? Então você ainda não viu nem ouviu nada!
Se você alguma vez na vida se admirou da pequena miragem que o calor do sol faz em contato com o asfalto, numa estrada, dando-lhe uma aparência molhada, vai se identificar com a quinta faixa, “Miragem do Asfalto”, onde o solo de sax do Luiz Sarayva, consegue levar a urbanidade pro deserto e vice versa. Luiz Sarayva, aliás, está impecável também nas flautas que se destacam em “Temperada dos Trópicos”, sétima música (da qual vou falar daqui a pouco).
Antes vem a sexta, “Sem Lei, Nem Rei (O Eldorado)”, um baião que nos remete ao País de São Saruê de 1971 (e viva o cinema novo de Vladimir Carvalho!), além de evocar a lenda messiânica de Don Sebastião e o “Eldorado” de Pedra Bonita (e viva a literatura de José Lins do Rego!).
Em “Temperada dos Trópicos”, sétima faixa, além das flautas de Luiz Sarayva que remetem aos pífanos das feiras livres (tanto da península ibérica medieval quanto do nordeste hodierno), temos a presença da “galega”, termo que alude às mulheres da região da Galícia, na divisa de Espanha e norte de Portugal. O termo remete a pessoas (na música, especificamente à mulher) de pele clara com sangue mourisco, ou seja, ibéricos mestiços com árabes que povoam o noroeste da península desde o século IV d.C. E como não falar da presença do doce cello de Lais Oliveira?! Ela, já havia dado o ar de sua graça no disco anterior de Cordeiro (#CâmaraEco; 2021) e agora, com certeza, vem dar ainda mais leveza tanto em “Temperada dos Trópicos” quanto em “O Oito Deitado”, décima segunda música?! Mas “Temperada” é, não apenas, a mistura das galegas da Galícia, mas a própria mulher brasileira. E Júnior Cordeiro retrata muito bem tudo isso na letra da música.
“Suçuarana”, oitava música, traz a onça parda castanha que reina soberana nas matas nativas do sertão e nas obras de Ariano Suassuna. Seu porte de elegância esguia pode ser comparado ao da Moura Encantada, figura bastante popular do folclore lusitano que, assim como a suçuarana, devora suas presas depois de seduzi-las.
A nona música, “Infinito Migrar”, que dá nome e consistência ao disco é um tradicional galope a beira-mar (estilo de poesia popular nordestina) que dialoga com uma base totalmente hard-rock e que desemboca num galope rasante (outra vertente da poesia popular nordestina) – coisas de Cordeiro.
“Eterno Mar, Eterna Luta”, a décima, é um baião moderno misturado com hard-jazz – como eu disse antes, a musicalidade de Júnior Cordeiro é muito difícil de se encaixar em rótulos.
Finalmente, chegamos à última trinca, com “Freyriana Primeira (Galope Mourisco)”, a décima primeira faixa; “O Oito Deitado”, décima segunda e “Faminto de Mundo”, décima terceira e última.
“Freyriana” é um galope ligeiro que fala de elementos do folclore brasileiro, de expressões africanas e do universo mítico retratado em Casa Grande & Senzala, de Gilberto. Mas bem que poderia ser uma referência ao mesmo universo explorado pelo educador Paulo Freyre (conterrâneo de Gilberto) e que, em seus experimentos pedagógicos, buscava na tradição popular os elementos linguísticos mais adequados para alfabetizar as camadas mais pobres da população brasileira.
“O Oito Deitado” é uma música diferente. É quase uma rapsódia. É uma música dentro da outra. Começa com uma peleja de violeiros entre Júnior Cordeiro e o repentista Felipe Canário do Império (numa participação especialíssima), aos moldes de Zé Limeira, o Poeta do Absurdo e, quando menos se espera, se transforma num algo indefinido, suave e bruto, marcado pela percussão pulsante de Sandrinho Dupan, que dialoga com a bateria difusa de Kamillo Lima e com o cello de Lais.
Por fim, “Faminto de Mundo” fala de Pindorama, o paraíso perdido dos antigos povos tupis-guaranis. É uma música suave como o entardecer no Lagedo de Pai Mateus ou no Vale dos Reis de Gizé.
No fim, a sensação que fica é que os poucos mais de 6 mil quilômetros que separam o Cariri paraibano do deserto do Saara não é uma lonjura tão grande. E que nesse mundo de hoje, onde tanta gente ainda vive um “migrar infinito” sempre em busca de melhores condições de vida, as distâncias geográficas e as fronteiras étnicas e culturais precisam ser urgentemente derrubadas para que todos possam, quem sabe um dia, tratarem-se como irmãos, filhos de um mesmo Pai – seja este chamado de Javé, Oxum ou Alah.

FICHA TÉCNICA:
Músicos: Júnior Cordeiro (vozes e violões aço e nylon chorus), Giordano Frag (guitarras), Moisés Freire (viola de 12 e guitarras), Cris Lima (Teclados), Max Dias (baixo), Kamillo Lima (bateria), Luiz Sarayva (flautas), Sandrinho Dupan (percussões) e Laís Oliveira (Violoncelo).
DIREÇÃO MUSICAL E ARTÍSTICA: Júnior Cordeiro
PRODUÇÃO MUSICAL: Júnior Cordeiro e Moisés Freire
PRODUÇÃO EXECUTIVA: Alma Nua Produtora
ENGENHEIRO DE GRAVAÇÃO: Moisés Freire
MIXAGEM: Moisés Freire e Júnior Cordeiro
CONCEPÇÃO E ELABORAÇÃO DA ARTE DA CAPA: Leticia Pantoja
PROJETO GRÁFICO E ARTE FINAL: Álisson Lima
FOTOGRAFIA: Cássio Nogueira (Prysma Mídia)
ARREGIMENTAÇÃO: Júnior Cordeiro, Giordano Frag, Cris Lima e Moisés Freire

Gravado e mixado no MF Estúdio, em Campina Grande-PB, entre julho e novembro de 2021
Masterizado por Reco-Master

DISPONÍVEL EM TODAS AS PLATAFORMAS. EM BREVE TAMBÉM EM VINIL 180g

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