Desejo de Natal

Hoje eu vou pedir em minhas orações que, de agora em diante, todos os dias seja dia de Natal.

Vou pedir para que todos os amigos e familiares distantes se reúnam para celebrar o amor e a vida. E que as crianças fiquem brincando até tarde da noite, enquanto esperam para ganhar presentes que surgem subitamente embaixo de suas camas.

(Também vou pedir para que todas as crianças, sem exceção, de agora em diante, tenham uma cama).

Vou pedir para que todos sorriam constantemente e desejem mutuamente os melhores votos de paz, amor e felicidade. Vou pedir também para que, mesmo aqueles que não crêem (ou assim o dizem) participem dessa emanação de boas vontades. E que mesmo aqueles que não partilhem das mesmas crenças sentem-se à mesma mesa e confraternizem.

Vou pedir, por fim, que, de agora em diante, as pessoas possam se olhar nos olhos sem receios ou ressentimentos e que, juntos, todos possam trabalhar por um mundo melhor.

CARTINHA DE AMOR ANTIGA

Meu amorzinho…

Inexoravelmente, chegou o tempo em que nossos cabelos se tornaram brancos como fios de algodão; nossos olhos têm a vista anuviada e nossos ouvidos não são mais tão atentos quanto antigamente. E nossos dentes, assim como nossos ossos, se tornaram fracos. Nossa pele enrugou e o os nossos anos vividos tornaram-se um pesado fardo que nos obriga a arrastarmos os nossos corpos já cansados, carecendo de amparo.

Há alguns anos nossos corpos não se unem mais, como nas antigas conjunções da carne, mas nunca deixei de gostar de permanecer de mãos dadas com você nem de sentir a maciez dos teus lábios tocando os meus, até hoje – em beijinhos delicados, sublimes, discretos e tímidos, como aquele que demos da primeira vez, quando nos conhecemos.

O tempo que outrora chamávamos de futuro chegou. A velhice é o nosso presente. Mas eu nunca tive medo de nada disso. Eu sempre soube que seria assim…

E apesar de tudo, minha amada… apesar da vista turva e de toda a decadência física a qual fatalmente se submete toda a humanidade, eu ainda te amo da mesma forma como no primeiro dia em que te vi naquela praça, irradiando sua beleza com aquele longo vestido vermelho e os cabelos dourados refletindo o sol de fim de tarde, quarenta e seis anos atrás.

O tempo passou. Mas todas as vezes que nos olhamos, sinto que o que vemos são aqueles jovens namorados que se encontraram pelas amarras do destino naquela praça do centro da cidade, no final da tarde, naquele dia em que todas as previsões indicavam o juízo final. O que vemos (e ouvimos) são os mesmos sorrisos e brincadeiras e bobagens sussurradas ao ouvido um do outro. E o que temos é aquela mesma certeza de que o nosso amor permanece eterno, como eternos são o tempo e a vida – o que ainda me dá segurança para dizer que irei te amar para sempre…

 

Para Lulih Rojanski,

07 de dezembro de 2057

A FANTÁSTICA HISTÓRIA DE TICO-LYN

Esta é a fantástica história de Tico-Lyn.

Tico-Lyn não era nenhum chinês. Tampouco era artista de um circo chinês. Mas carregava em si o nome e a alma de um velho malabarista das terras de Cantão.

Não ouso dizer que Tico-Lyn era homem ou animal. Afinal de contas, que diferença faz? O fato é que a maioria de nós, humanos, andamos sobre as patas traseiras e Tico-Lyn era a atração das ruas por onde andava pois sustentava-se majestosamente em suas patas dianteiras.

Ainda criança, Tico-Lyn caiu de mau jeito de um escorregador no parquinho da praça. Ele quebrou a perna direita e nunca mais consertou. Mas o que era pra ser uma tragédia, Tico-Lyn conseguiu transformar em graça. E lá se ia Tico-Lyn fazendo a alegria da garotada por onde passava.

E eram garotos e garotas de todas as idades – de oito a oitenta anos – que ficavam encantados com a beleza e graça de Tico-Lyn, que andava todo faceiro “plantando bananeira” como se fosse um malabarista cantonês.

28 de novembro de 2011

DESPERTAR

Para ele, não havia melhor coisa no mundo do que acordar de manhã, olhar para o lado esquerdo da cama e vê-la dormindo, ressonando como um anjo que sonha deitado nas nuvens. Para ele, não havia coisa melhor no mundo do que acordar e ter a certeza de que tudo que viu e sentiu na noite anterior não havia sido apenas um sonho vulgar.

Ela estava, de fato, lá. E seus cabelos tinham o dourado dos raios do sol matutino. Sua pele tinha a alvura das neves de terras distantes. Sua boca possuía a frescura do orvalho da madrugada e seu corpo, a maciez do canto dos pássaros.

Lá estava ela – de fato: o amor da sua vida. O amor encarnado em todo seu esplendor e glória. E seu coração batia acelerado, enquanto seu corpo ardia em chamas de paixão e desejo.

De repente, como se adivinhasse que ele estava a velar seu sono na penumbra do quarto, ela despertava docemente, abrindo seus olhinhos azuis de turquesa e seu sorriso iluminava o cômodo, como se fosse o sol desvirginando a madrugada.

25 de novembro de 2011

PROBLEMA CRÔNICO

“Crônica” é uma palavra interessante. Pode ter o sentido de fato, registro, relatório, reportagem. Mas também pode significar algo incurável ou recorrente. O que eu tento é escrever sobre fatos, registrar observações e devaneios, relatar coisas cotidianas… mas percebo que os significados menos “nobres” também acabam fazendo parte deste meu hobby. Assim, sou um jornalista “incurável” que tem um problema “recorrente”: tentar escrever bons textos. Busco me esmerar nesse ofício, me espelhando em mestres como Rubem Braga, Vinícius de Moraes, Luis Fernando Veríssimo e tantos outros que costumo ler diariamente. Mas é uma tarefa árdua.

Às vezes me sinto na obrigação de escrever diariamente sobre qualquer coisa. Mas quando me sento diante do computador e começo a buscar ideias para um bom texto, nem sempre sai algo que eu considero aproveitável. Então eu me retraio e nada mais escrevo.

Esta crônica que tento (com muito custo) terminar de escrever não é algo importante. Não se trata de um relato importante ou um registro de algo que desperte o interesse de quem quer que seja. É, antes, um desabafo de alguém que deseja resolver com urgência um PROBLEMA CRÔNICO: Escrever bem e cada vez melhor.

23 de novembro de 2011

Obsolescências

Não quero me obrigar a nada. Muito menos a escrever neste velho blog. Sim, velho. Porque tudo hoje se torna velho numa velocidade espantosa. Envelhecemos à velocidade da luz. Tudo que nasce agora perderá o sentido, não foi?

Mas falar de tecnologias que se tornam obsoletas é fácil. Difícil mesmo é aceitar que envelhecemos rapidamente e que nós próprios nos tornamos obsoletos.

Ora, vejam! A quem eu quero enganar com esse papo furado? Estou aqui no meio da madrugada tentando achar algo interessante para fazer e, quando tento escrever alguma coisa aqui para este blog, percebo que os blogs já estão ultrapassados e que, provavelmente, ninguém vai se dar ao trabalho de ler um texto com mais de 140 caracteres (maldito seja para sempre o Twitter!). Ler um texto que supere esse número de dados representa perda tempo, pois, hoje, 140 caracteres são tudo o que as pessoas precisam para se informar, se entreter, desabafar, interagir, flertar, etc. Ninguém tem mais tempo para perder com textos “muito longos”. Se você parar para ler um texto com mais de um parágrafo você já está ficando velho e sendo deixado para trás nessa corrida vertiginosa por informação que, no final das contas, mais deforma do que informa. Mas pelo menos você estará “antenado” com o que acontece no mundo todo: Quantas vezes o seu ídolo foi ao banheiro hoje? Quantos se empenharam em discutir alguma coisa que valesse a pena?

Não quero me obrigar a nada. Muito menos a escrever neste velho blog. Estou cansado e só preciso agora de uma boa noite de sono. Mas antes acho que vou ler mais um pouquinho aquele livro antigo com “200 Crônicas Escolhidas”, do Rubem Braga. Pois Rubem Braga não fica obsoleto nunca!

Um tema difícil…

Depois de muito tempo sem a mínima inspiração para escrever e atualizar o blog, resolvi falar um pouco sobre um tema difícil…

Na verdade, esse tema é bem difícil para aqueles que se dizem “roqueiros”. Mas bastante fácil para quem, assim como eu, cresceu ouvindo um pouco de tudo e tem como principal referencial de “boa música” simplesmente aquilo que lhe soa bem aos ouvidos.

Eu, por exemplo, aprendi essa lição com meu pai que, desde cedo me ensinou a ouvir (e curtir!) nomes como Bach, Beethoven, Elvis Presley, The Beatles, Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves, Clara Nunes, Raul Seixas, Black Sabath, Pink Floyd, Rush, Roberto Carlos… A lista é imensa, assim como é imensa também a diversidade de estilos musicais que sempre ouvi na pequena (porém preciosa) coleção de LPs do meu pai.

Aí, hoje, eu fico vendo as transmissões do Rock in Rio… E num giro rápido pela net ou mesmo ouvindo as opiniões inflamadas de amigos e pessoas próximas, vejo a indignação das pessoas por causa das atrações menos… “ortodoxas”, digamos assim. Este ano o evento trouxe em sua programação nomes como Milton Nascimento, Maria Gadú, Claudia Leitte, Katy Perry, Rihanna, Ke$ha, Ivete Sangalo, Shakira, entre outros. Os “roqueiros puristas” (se é que podemos chamar assim), ficaram indignados pelo fato desses nomes citados não serem rock e isso tudo ser uma grande “incoerência” com o evento.

Basta lembrar um pouco da história do próprio festival:

O Rock in Rio é um festival de música idealizado pelo empresário brasileiro Roberto Medina e realizado pela primeira vez em 1985, no Rio de Janeiro. Ao longo da sua história, o Rock in Rio teve nove edições, três no Brasil, quatro em Portugal e duas na Espanha. Em 2008, foi realizado pela primeira vez em dois locais diferentes, Lisboa e Madrid.

Graças ao enorme sucesso do evento original, Medina promoveu o Rock in Rio II (91) e o Rock in Rio III (2001).

Rock in Rio foi internacionalizado em 2004 com a primeira edição do Rock in Rio Lisboa, em Portugal. Entretanto, a mídia brasileira e o público foram totalmente contra a realização do festival naquele país, mas ignorados devidos a pensamentos ambiciosos por parte de Roberto Medina.

Em 2006 e 2008, foram realizadas a segunda  e a terceira edição do Rock in Rio Lisboa e , no mesmo ano, foi realizada a primeira edição do Rock in Rio Madrid, na Espanha.

A primeira edição do evento, no Rio de Janeiro, em 1985, contou com nomes como: AC/DC, Os Paralamas do Sucesso, Iron Maiden, Barão Vermelho, James Taylor, Ivan Lins, Ozzy Osbourne, Pepeu Gomes, Queen, Rod Stewart, Scorpions, Yes e Whitesnake. Com certeza a versão mais “roqueira” do evento até hoje.

A segunda edição trouxe: Guns N’ Roses, Faith No More, Sepultura, Happy Mondays, Titãs, Judas Priest, A-ha, Debbie Gibson, Megadeth, Engenheiros do Hawaii, George Michael, Lobão, Queensryche, Moraes Moreira e Pepeu Gomes e Billy Idol. Também se apresentaram pela 1ª vez no Brasil o grupo New Kids On the Block (muito contestado por fãs do “verdadeiro” rock’n’roll, no aeroporto Internacional do Rio de Janeiro), Information Sociaty, Lisa Stanfield entre outros.

O Rock in Rio III trouxe aos palcos: Iron Maiden, Sepultura, Rob Halford, Guns N’ Roses, Papa Roach, Oasis, Pato Fu, R.E.M., Ira! & Ultraje a Rigor, Foo Fighters, Capital Inicial, Silverchair, Cássia Eller, Sandy e Junior, Britney Spears, Red Hot Chili Peppers, Carlinhos Brown, Oficina G3 e Os Nazaritos (estas duas últimas, bandas “gospel”!).

Pra finalizar o histórico, é bom lembrar que o hino do festival é de autoria do compositor Nelson Wellington e do maestro Eduardo Souto Neto e foi gravado originalmente pelo grupo Roupa Nova.

Como se pode ver pelos nomes das diversas atrações que se apresentaram só aqui no Brasil, o Rock in Rio não é um festival de rock, mas de música em geral, para todos os públicos. Simplesmente não dá pra querer comparar um evento mercadológico desse tipo com Woodstock ou o White Island Festival, até porque estes também foram festivais de música em geral e não só de rock.

O grande problema é que boa parte dos chamados “roqueiros” são radicais, preconceituosos e limitados em aceitar a diversidade musical (incluindo a do seu próprio país).

Eu, particularmente, não sou consumidor dos trabalhos de Sandy e Junior, Britney Spears, Oficina G3, Cláudia Leite ou Ivete Sangalo. Mas não me espanto com esses nomes inseridos no Rock in Rio. Simplesmente porque a música, no mundo todo, está ficando cada vez mais misturada e “inrotulável” (para usar um neologismo). Eu não me espanto, por exemplo, com declarações como a de Paula Fernandes, que declarou ao site TopTVZ, do Canal Multishow, que é fã do Metallica ou de Nando Reis, em recente entrevista à revista masculina Playboy que disse não gostar de ouvir bandas de rock brasileiro.

Alguns meses atrás, pelo Facebook, andou circulando uma foto de Chimbinha (ex-Banda Calypso) usando uma camisa de uma banda de Death Metal. E daí se o cara curte um som mais agressivo e ganha sua grana com um ritmo de apelo extremamente popular? – E olha que ele é um exímio guitarrista, mas parece que os “roqueiros puristas” tem isso como um sacrilégio!

Anos atrás, numa entrevista exibida no programa da Xuxa, na Rede Globo, Durval Lélis, vocalista da banda de axé Asa de Águia, revelou que a banda começou na adolescência tocando punk rock. Muitos punks, na época, ficaram literalmente “de cabelo em pé”…

Quando vejo essas opiniões inflamadas, costumo pensar o que seria da nossa música brasileira, tão rica e diversa – e, por isso mesmo tão apreciada lá fora – se Raul Seixas, junto com a turma da Jovem Guarda e do Tropicalismo não tivessem incorporado a guitarra elétrica nessa salada cultural, mesclando rock com baião, reggae e iê, iê, iê. Ou se Chico Science, Marcelo D2 e Los Hermanos não tivessem tido a ousadia de misturar maracatu com música eletrônica, hip-hop com samba e bossa-nova com rock, respectivamente.

Penso que é hora de se libertar das amarras do preconceito e abrir os ouvidos para aquilo que lhe soe bem aos seus ouvidos. Que cada um possa curtir a sua “onda” em paz, enquanto empresários como o sr. Medina conta seu rico dinheirinho. E o resto é papo furado!

Comendo Rubem com suco de manga

Já são 14:11h e eu não tenho a mínima fome. Enquanto muitos já almoçaram – alguns sozinhos, outros em família – e outros continuam na peleja por um punhado de comida para matar a fome, eu – após uma noite de amor e de excessos – só tenho sede. Assim, resolvo me alimentar apenas de suco de manga e das crônicas de Rubem Braga, que leio avidamente num livro que reúne duzentos de seus melhores textos.

Enquanto saboreio cada palavra, tento aprender um pouco com seu estilo narrativo, seu discurso direto, seus parágrafos reticentes, seus diálogos contundentes…

E assim vou comendo Rubem com suco de manga, enquanto penso como é maravilhosa a alquimia das palavras. Penso em toda a história da humanidade que nasceu muda e que só milhões de anos depois veio descobrir a beleza de transformar gestos e grunhidos em expressões corporais e palavras significantes. Quanto prazer não deve ter sentido o primeiro homem que descobriu a tinta – numa mistura de sangue e banha animal com seiva de plantas – e com essa mesma tinta conseguiu representar pela primeira vez as cenas de caça que faziam parte do seu cotidiano! Quanto prazer não deve ter sentido aquele simples homem sumério que talhou um símbolo após outro naquele pequeno bloco de argila, dando, assim, origem ao primeiro alfabeto! Ah, os alquimistas das palavras! Seres fabulosos de espírito e inteligência que souberam como ninguém unir umas letras às outras e formar palavras. E depois agruparam estas mesmas palavras em frases e períodos. E depois estas frases e períodos se tornaram parágrafos. E esses mesmos parágrafos deram origem a opúsculos e tomos inconcebíveis pela mente primitiva que descobriu a tinta e inventou as gravuras…

Para mim não há alquimia mais bela que a das palavras – sejam estas expressas em versos, prosa ou canções. E Rubem era um desses mestres alquimistas, que durante toda sua vida soube captar a quintessência da vida, colocá-la para ferver no cadinho de sua criatividade sempre em ebulição e nos proporcionar seus elixires mágicos em formato de palavra escrita.

Este foi um dos melhores almoços de minha vida. O dia em que comi Rubem com suco de manga…

A goiabeira mágica

Pausa para o café. No quintal da repartição em que eu trabalho tem uma goiabeira mágica. Sim, mágica. Porque todas as vezes que eu a contemplo, ela tem o poder de me levar pelas asas do tempo, de volta aos meus dias de criança, quando eu costumava passar minhas férias escolares na casa da minha avó materna.

De repente eu começo a ver aquele menino moreno, barrigudinho, de cabelos encaracolados, correndo de pés descalços, só de cueca, pelo quintal da casa da vovó. O menino olhava com olhinhos brilhantes para o alto daquela goiabeira, em busca da goiaba mais docinha e subia rápido como um sagui por entre os galhos finos – porém resistentes – da frondosa árvore. E lá em cima ficava por horas intermináveis.

Às vezes, quando o menino aprontava muito, os galhinhos finos daquela mesma goiabeira eram usados como açoite, que chegavam a zunir no ar, antes de estalar nas pernas e na bunda do menino traquinas – isso, claro, quando conseguiam alcançá-lo!

De repente, acordo e volto à realidade dos dias atuais. Percebo que o menino barrigudinho sumiu; que a goiabeira morreu; que a casa da avó materna não existe mais…

Olho para o copo de café e percebo que este também acabou, assim como também acabou a pausa no trabalho. Hora de recomeçar…

O Garoto “Lugar Nenhum”

De 1952 a 1957, John estudou na Quarry Bank Grammar School, onde ficou conhecido pelos seus desenhos e pelas suas mímicas. Nessa escola, em 1956, ele fundou uma banda de rock chamada The Quarrymen e quando o diretor da escola disse ao jovem John que ele nunca chegaria a lugar nenhum, recebeu como resposta: “Lugar nenhum é para onde vão os gênios? Por que se for, é pra lá que eu vou”.

O menino John nasceu em 9 de outubro de 1940. Filho único de Alfred  e Julia. Alfred trabalhava na marinha mercante durante a Segunda Guerra Mundial e mandava frequentemente dinheiro para a mulher e o filho. O dinheiro parou de vir quando Alfred desertou.

Após ser muito criticada pela família por continuar casada e “viver em pecado” com Bobby Dykins, e a considerável pressão de sua irmã Mary “Mimi” Smith (que por duas vezes contactou o Serviço Social reclamando por John ter que dormir na mesma cama que o casal Julia e Bobby) Julia deixou o filho aos cuidados de Mimi.

Em 1946, Alfred visitou a casa de Mimi e levou John até Blackpool e secretamente planejou emigrar para a Nova Zelândia com o garoto. Após o fracasso de sua tentativa, Alfred largou o menino com Julia e não manteve contato com John por muitos anos.

The Quarryman era uma bandinha de escola com pelo menos três jovens muito talentosos: John (vocalista, guitarrista e dono da banda), o menino Paul (vocalista secundário, guitarrista canhoto e à época com apenas 15 anos) e George (guitarrista). Essa banda trocaria de nome ainda umas cinco vezes até chegar ao que todos conhecem: The Beatles!

Toda essa história é retratada no filme O Garoto de Liverpool (Nowhere Boy. UK / CAN; 2009). O filme mostra um pouco da adolescência conturbada; do convívio frio com sua Tia Mimi e da relação que beirava o incesto entre John e sua mãe desajustada que o abandonara quando ele era apenas um menino de cinco anos.

O filme é uma cinebiografia simples. Não merece nenhum Oscar de melhor filme estrangeiro, mas traz a atuação brilhante e forte da veterana Kristin Scott Thomas (indicada para o Oscar de melhor atriz em O Paciente Inglês, de 1996), como Tia Mimi. Talvez o único diferencial desse projeto seja sair da mesmice da beatlemania, mostrando um lado pouco conhecido e divulgado de John. Vale a pena assistir pela curiosidade.