Bons modos

Fiz-me elegante. Tornei-me obcecado por pontualidade e, com isso, um refém da espera pelos outros. Fiz-me gentil. Aprendi a conter meus gestos. Fui bem educado – pelos meus pais, pela sociedade… “Fale baixo”, “não discuta” – me diziam. E pouco a pouco, fui sendo podado pelos “bons modos”…

Aprendi a ser hipócrita, sempre evitando assuntos constrangedores. Aprendi a ser falsamente humilde, para jamais parecer arrogante. Fui forçado a tratar todos de igual para igual – imbecis, cretinos, idiotas, pessoas dignas e honradas. Tudo no mesmo saco. “O silêncio vale ouro” – me diziam – e fui obrigado a me calar.

Mas o silêncio me apavora e tudo que eu quero é gritar, insultar. Quanto mais intensos forem o atraso, o tom de voz ou o constrangimento imposto pelos outros, mais intenso é o meu desejo de explodir (literalmente) o miserável. Certa vez, Freud citando um escritor inglês, disse que “o primeiro homem a desfechar contra seu inimigo um insulto, em vez de uma lança, foi o fundador da civilização”. Concordo – apesar de que, algumas vezes, acho a barbárie mais coerente. Mas o que Freud explica com essa frase (e ele sempre explica) é que palavras podem substituir ações de modo satisfatório sem que ninguém vá para trás das grades por isso (no máximo uma indenização por danos morais)…

Por isso, hoje, prefiro ser visto como “deselegante” e “mal-educado” a ser visto como paciente em alguma ala psiquiátrica de um hospital qualquer. Libertei-me dos bons modos. O silêncio, pra mim, não vale nada. Hoje o que eu quero mesmo é gritar cada vez mais alto: “Filho da puta”!

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