Quem cuidará?

Cultura… Uma palavra que vem da terra.

O latim, língua mãe da nossa língua, transformou o colere (de “vigiar, cuidar, acompanhar o crescimento de uma planta”) em cultura (de “colheita, agricultura”) dando também um sentido metafórico de “cuidado, ato de honrar”. Assim, tudo que vem, direta ou indiretamente, da terra – sejam plantas ou coisas do bicho-humano – é chamado de cultura.

Gosto da poesia que a metáfora primitiva nos proporciona ao nos fazer enxergar a cultura como um ato de cuidado e de honra, acima de todos os modismos e padrões impostos pela famigerada indústria cultural, goela abaixo de uma sociedade de consumo criada por essa mesma indústria e retroalimentada incessantemente pelos meios de comunicação de massa.

A arte, em todas as suas formas de expressão, e como produto genuíno de um povo, deve ser, acima de tudo, cuidada e honrada. E, uma vez que vivemos num modelo de organização social onde o Estado tem, como um de seus papeis, zelar pelos interesses do povo que o mantém, é seu dever – em todas as suas instâncias (federal, estadual e municipal) – cuidar e honrar a cultura de seu povo. Infelizmente, a realidade é bem diferente…

De um lado, vemos uma tendência geral da própria sociedade em diminuir a importância da cultura – sobretudo das artes – como resultado da industrialização e massificação dos chamados “produtos culturais”. De outro, uma gestão pública que burocratiza e engessa a coisa pública aos moldes de empresa – o que não é (ou, pelo menos, não deveria ser).

Para piorar mais um pouco, surge um novo cenário que pega todo mundo de surpresa – a pandemia – com o fechamento necessário de diversos segmentos funcionais da sociedade, incluindo é claro, os inúmeros estabelecimentos ligados à arte e cultura. Um contingente de artistas, técnicos e produtores culturais se viu totalmente desamparado de uma hora para outra.

Na música, dos mega-produtos do sertanejo, forró, axé, etc. até o músico da noite que bate cabeça de bar em bar aguentando porre e os técnicos de som e luz, todos tiveram suas agendas de trabalho canceladas. O mesmo se deu com as artes plásticas e cênicas que tiveram suas exposições e performances adiadas indefinidamente. Também não foi diferente para poetas e escritores que, já tendo uma enorme dificuldade para publicar seus trabalhos, tiveram que adiar até mesmo seus projetos independentes por causa da paralisação de editoras e gráficas.

Diversos países se apressaram a prestar apoio a estes trabalhadores – sim, artistas também são trabalhadores! – Aqui no Brasil, a pouca ajuda que veio, veio em conta-gotas ou em alguns casos – o que é pior – em cartas marcadas.

A Fundação Municipal de Cultura (Fumcult), aqui em Macapá, publicou em junho um edital de chamada pública para um “Prêmio Artístico Cultural em Tempo de Pandemia”. O resultado divulgado no último dia 23 de setembro mexeu com o ego artístico de muitos inscritos. E, logo, a polêmica se instalou nas redes sociais e na imprensa – como, naturalmente, já era de se esperar.

O edital tinha uns pontos cegos que já haviam gerado uma certa polêmica na época de sua publicação, mas o resultado da premiação divulgado no último dia 23 gerou uma reação de inconformismo, revolta e suspeita de favorecimentos ilícitos por parte de alguns artistas em relação ao diretor-presidente da Fumcult, Alain Cristophe que, logo em seguida, entregou o cargo.

Diante da sede da Fumcult, a poetisa Carla Nobre mostrou toda sua indignação com o resultado do certame. Num vídeo amador rapidamente espalhado na internet, a escritora alega falta de transparência no processo de curadoria e enfatiza que a classe artística não vai aceitar que ninguém “cague” em suas cabeças – “Não venham cagar em nossas cabeças!”, disse Carla.

A reação à fala da escritora foi vista de forma negativa e hipócrita por diversas pessoas. Acharam feio a poetisa falar palavrão. Por certo preferissem uma declamação de algum poema mais “limpinho” – o que me faz lembrar de Belchior em “Apenas um rapaz latino-americano” que dizia: “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve: Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém…”

Na minha opinião (e não deixando passar em branco o trocadilho), o que Carla fez diante da Fumcult foi tão nobre quanto seu sobrenome! Ela usou a palavra certa e adequada para expressara indignação de grande parte da classe artística que se sentiu mais uma vez órfã de apoio à cultura.

Em nenhum momento do vídeo Carla Nobre ataca a pessoa Alain Cristophe ou seus atributos sexuais, mas sua gestão – o que é bem diferente. Mas não demorou muito para que a coisa toda descambasse para o plano pessoal e, o que é pior, misógino…

Não ficou claro se foi o próprio Alain ou alguém que se ofendeu por ele, mas alguém se referiu à artista como “a fedorenta do sexo”. Numa postagem do Facebook, Carla Nobre escreveu: “Ser chamada de A FEDORENTA DO SEXO por gente que apoia quem caiu da cultura de Macapá hoje porque não sabe assinar documento, chega a ser elogio…”

Daí eu fico pensando: “Como é que um protesto legítimo de uma artista reivindicando seus direitos diante do poder público resvala para o terreno sexual?” Bem, sendo eu um psicanalista só posso dizer: “Freud explica!” Enquanto ainda me admiro da mentalidade machista que ainda perpassa todos os segmentos da nossa sociedade. Não importa se o sujeito é de direita ou de esquerda; se é reacionário ou de vanguarda; se tem “um nome a zelar” ou é um “Zé Povinho”, a verdade é uma só: Somos uma sociedade misógina, racista, homofóbica e cada vez mais aculturada. E se cultura é sinônimo de cuidar e honrar, infelizmente ainda estamos muito longe de encontrar alguém nesse cenário que assuma este tão virtuoso papel.

Penso, logo…

Dia Mundial da Liberdade de Pensamento | 14 de julho - Calendarr

… posso ser preso – pelo menos no país em que pensar é privilégio de poucos. Se ontem foi o Dia Internacional do Rock’n’roll – estilo musical que sempre foi símbolo da liberdade – hoje, pelo menos no calendário de efemérides do Brasil, é o Dia da Liberdade de Pensamento.

Em tese, é a liberdade que todos nós temos de manter e defender nossa posição diante de um fato, um ponto de vista ou uma ideia, independente das visões dos outros.

Está lá na Declaração Universal dos Direitos Humanos (artigo XVIII): “Todas as pessoas têm direito à liberdade de pensamento, consciência e religião”. E isso é tão elementar e importante para a democracia que vários países a incluíram em suas Constituições – até mesmo o Brasil de antigamente.

No Brasil atual, porém, a realidade é bem diferente e cada vez mais distante de tudo aquilo que está escrito na Carta Magna. Está cada vez mais difícil pensar nesse país. Está cada vez mais difícil de manter e defender nossa posição sem que alguém se sinta ofendido e nos acuse de estarmos fazendo propaganda político-ideológica – quando esse mesmo tipo de acusação é feito por outras pessoas totalmente idiotizadas por ideias político-ideológicas também.

Não importa se quem está na nossa frente é de direita ou de esquerda: A patrulha ideológica do “politicamente correto” está aí, para censurar nossa liberdade de pensamento e nossa liberdade de expressão.

Vinícius

Morte de Vinicius de Moraes | Acervo O POVO Online

Há 41 anos morria “O Poetinha”. Mas poeta não morre nunca. Nem a poesia! Hoje eu vi na Wikipedia que, no Brasil, 9 de julho é o Dia do Sonhador. Nada mais apropriado para um poeta que morreu exatamente nesta data, como a dizer que sua vida, sua obra e sua morte não passam de um sonho eterno… Viva Vinícius de Moraes!

Bons modos

Fiz-me elegante. Tornei-me obcecado por pontualidade e, com isso, um refém da espera pelos outros. Fiz-me gentil. Aprendi a conter meus gestos. Fui bem educado – pelos meus pais, pela sociedade… “Fale baixo”, “não discuta” – me diziam. E pouco a pouco, fui sendo podado pelos “bons modos”…

Aprendi a ser hipócrita, sempre evitando assuntos constrangedores. Aprendi a ser falsamente humilde, para jamais parecer arrogante. Fui forçado a tratar todos de igual para igual – imbecis, cretinos, idiotas, pessoas dignas e honradas. Tudo no mesmo saco. “O silêncio vale ouro” – me diziam – e fui obrigado a me calar.

Mas o silêncio me apavora e tudo que eu quero é gritar, insultar. Quanto mais intensos forem o atraso, o tom de voz ou o constrangimento imposto pelos outros, mais intenso é o meu desejo de explodir (literalmente) o miserável. Certa vez, Freud citando um escritor inglês, disse que “o primeiro homem a desfechar contra seu inimigo um insulto, em vez de uma lança, foi o fundador da civilização”. Concordo – apesar de que, algumas vezes, acho a barbárie mais coerente. Mas o que Freud explica com essa frase (e ele sempre explica) é que palavras podem substituir ações de modo satisfatório sem que ninguém vá para trás das grades por isso (no máximo uma indenização por danos morais)…

Por isso, hoje, prefiro ser visto como “deselegante” e “mal-educado” a ser visto como paciente em alguma ala psiquiátrica de um hospital qualquer. Libertei-me dos bons modos. O silêncio, pra mim, não vale nada. Hoje o que eu quero mesmo é gritar cada vez mais alto: “Filho da puta”!

Como diria Belchior…

A caveira do Belchior deve querer arrancar os fios espessos do seu bigodão cada vez que, lá do além, vê alguém, aqui do aquém, ficar repetindo suas frases totalmente fora de contexto nas redes sociais só pra parecer inteligente. É o caso da já batida frase “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”… – frase que, aliás ele tomou emprestada do cordelista paraibano Zé Limeira.
Lembro bem o quanto me incomodou o fato de as mentes geniais da internet, lá no início da pandemia, por volta de março de 2020, ficarem repetindo “O dia em que a terra parou”, de Raul Seixas e Cláudio Roberto, como tendo sido uma grande profecia. Coisa de gente que mal conhece a obra e as ideias do Maluco Beleza e que grita “toca Raul” até em show de crente, querendo ser o diferentão descolado… Foda-se! Não tenho paciência pra esse tipo de cretinice.
A porra da Terra não parou! Devia ter parado, mas não parou! Principalmente no Brasil, o empregado, fodido, continuou saindo pro seu trabalho, porque não tinha nenhuma garantia de receber o tal auxílio emergencial. A dona de casa continuou saindo pra comprar pão pois o coitado do padeiro também tava lá, firme e forte. O guarda saiu para prender e o ladrão continuou roubando normalmente. Nas igrejas, alguns sinos não bateram, mas os pastores continuaram pregando a desinformação e a vigarice sem parar, porque os fiéis são fiéis, afinal de contas. O aluno não saiu para estudar. Mas porque esses nunca estudam porra nenhuma mesmo. Os professores ficaram lá no Whatsapp, fingindo que estavam dando aula enquanto os pais dos alunos fingiam que eram os filhos estudando. O comandante e a turma do quartel não saíram pra guerra porque tiveram que ficar estocando latas de leite condensado. Muitos pacientes não saíram pra se tratar porque os hospitais não tinham mais leito disponível e outros voltaram pra casa com uma receita de cloroquina. E por aí vai…
Voltando para Belchior, a turma que só tem, no máximo, 2 bits de inteligência acreditou que a frase “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” era um grande achado, uma vez que 2020 foi um ano difícil e 2021 seria um ano mágico, com todo mundo tomando vacina e bebendo leite condensado. Aí entrou janeiro e tivemos aumento nos números de casos da covid-19.1 (atualização do vírus já com a nova cepa), enquanto o Bostão se esbaldava no Guarujá com seu séquito de puxa-sacos; a Ford fechando a produção e deixando 5 mil trabalhadores desempregados; mais 5 mil bancários do BB também desempregados; o Amazonas sem oxigênio; 100 milhões de infectados no mundo e… só quem tomou leite condensado foi o Governo Federal – as latas que sobraram foram todas pro cu da imprensa e a população ficou só gritando “mito, mito, mito”…
Aí você, que leu esse texto até aqui, agora ficou puto porque eu disse que a população ficou gritando “mito”? E eu pergunto: E não foi? Ou você acredita mesmo que alguma coisa mudou no reino da Brasilândia? Viram a festa que fizeram para recebê-lo em Alagoas? No fundo você sabe que não haverá impeachment coisa nenhuma. É mais fácil ter Carnaval esse ano!
Falando em Carnaval, lembrei de um ditado que dizia: “O Brasileiro não se preocupa com a sua história, porque o que acontecer hoje, amanhã pode virar enredo de escola de samba” – ou meme…
Presentemente, eu posso me considerar um sujeito de sorte. Porque, apesar de muito moço, me sinto são e salvo e forte. E tenho, comigo, pensado: “Se Deus é brasileiro, já deve ter imigrado”. E, assim, já não posso garantir que não vou sofrer como no ano passado. Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro com tanta morte e descaso. E pra quem tem alguma esperança ainda de que esse ano vai ser melhor como num passe de mágica, eu digo em alto e bom som: Ano passado, é minha pica… Mas esse ano é meu ovo!

Impeachment: Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come…

Impeachment é um processo político-criminal instaurado por denúncia no Congresso para apurar a responsabilidade do presidente da República, governador, prefeito, ministro do Supremo Tribunal ou de qualquer outro funcionário de alta categoria, por grave delito ou má conduta no exercício de suas funções, cabendo ao Senado, se procedente a acusação, aplicar ao infrator a pena de destituição do cargo.

A denúncia pode ser a de evidente existência de organização criminosa, ou ainda, por crime comum; crime de responsabilidade; abuso de poder; desrespeito às normas constitucionais ou violação de direitos pétreos previstos na Constituição.

Em 1955, a Câmara dos Deputados e o Senado votaram pelo impedimento dos presidentes Carlos Luz e Café Filho, apesar de não ser seguida a Lei do Impeachment, pois os deputados e os senadores entenderam que a situação era extremamente grave, com risco de guerra civil, e finalizaram os julgamentos em poucas horas, sem dar aos presidentes o direito de se defenderem na Câmara e no Senado, casos que são pouco conhecidos pela população brasileira. Em 29 de dezembro de 1992, Fernando Collor, renunciou pouco antes de ser condenado no processo de impeachment, tornando-se inelegível por oito anos. Finalmente, em 31 de agosto de 2016, Dilma Rousseff foi cassada, tornando-se a primeira pessoa na presidência a ser destituída por impeachment.

Ultimamente tem-se falado em impeachment contra Bolsonaro. A oposição tem argumentos fortes para isso. Segundo postagens nas redes sociais recentes de Ciro Gomes – que já está em plena campanha eleitoral para 2022 – o processo legal já foi iniciado, faltando agora, apenas, a mobilização popular.

Neste momento político que o país atravessa, o impeachment de Bolsonaro é mais do que necessário – é vital! O problema é quem assume com a sua saída. Porque tirar o “capitão” para colocar o “general”, é o mesmo que trocar seis por meia dúzia. Nada muda, uma vez que a ideologia de um e a mesma do outro. Então, estamos naquela “sinuca de bico”: Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come. Qual seria, então uma solução possível?

Bem, as soluções são muitas – bomba, veneno, leite com manga… Mas uma solução possível seria, sem dúvida, uma revolta popular sem precedentes na história do Brasil. Daquelas que nunca vimos efetivamente acontecer, porque, como diria Sérgio Buarque de Holanda, somos um povo “cordial” – não no sentido da afetuosidade da boa educação, mas no sentido da afetuosidade dos interesses pessoais, isto é, “aos amigos, tudo. Aos outros, a lei”.

Ficamos então, assim, como sempre, nas mãos dos poderosos; daqueles que têm poder de decisão. Poucas foram as vezes em que o povo, por meio de mobilização popular, mudou alguma coisa aqui no Brasil, principalmente na história recente. Senão vejamos: Aquilo que alguns chamam de Revolução de 64 não passou de um golpe militar; as Diretas Já foram organizadas por elites partidárias; o impeachment de Collor teve forte influência dos conglomerados de comunicação, assim como aconteceu com Dilma Rousseff, etc.

O povo mesmo – o “Zé Povinho”, como dizem alguns – que vive nas baixadas, nas favelas, nas periferias em geral, não está preocupado com mobilização social porque tem que voltar com o pão pra casa depois de uma dura jornada de trabalho. A dita “classe média” acredita que soltar memes, fakes news e xingamentos nas redes sociais é algo mais politizado e mais útil do que ir pra rua e “quebrar tudo” como os “baderneiros”. Finalmente, a classe alta, como sempre aconteceu, assiste a todo o espetáculo da plebe do alto de seus camarotes aristocráticos.

Fato é que, enquanto as pessoas não aprenderem, de uma vez por todas, que a política partidária – seja de direita ou de esquerda – é uma política perversa movida por interesses escusos, nada vai mudar. Isso não se trata daquelas velhas utopias anarquistas de um mundo idealizado “sem governo, sem polícia, sem patrão”. Trata-se de mostrar ao povo que ele é, sim, capaz de se autogerir sem depender do vereador, do prefeito, do governador, etc. reduzindo a atuação do Estado para o mínimo imprescindível, isto é, para o bem-estar geral da população.

Não vou me estender com exemplos de como isso poderia acontecer. Talvez fique para outro momento. Encerro por aqui dizendo que eu só tenho uma certeza em relação à situação do povo brasileiro na atual conjuntura: Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come. Mas se o povo se unir de verdade e do jeito certo, os bichos somem!

Os ecos da câmara de eco

Os sinais estão por toda parte. Eles estão aí para serem vistos, lidos, interpretados e para nos mostrar que tudo está conectado. Uma borboleta pousa displicentemente sobre um número 7 que está inscrito na placa de um carro. Mas o 7 não está só. Ele faz parte de um número maior: 971. Então, ao me deparar com essa imagem captada pelas lentes da artista plástica Renata Cabral para a capa do novo disco do poeta e cantador paraibano Júnior Cordeiro, um aluvião de ideias e imagens simbólicas toma conta do meu cérebro e eu, como mero aprendiz do Bruxo do Cariri Velho, tento decifrar mais uma vez os enigmas dessa feitiçaria meio cigana, meio cabocla-cibernética que o poeta nos apresenta.

A borboleta é o símbolo da transformação. O 7 é o número que traz a energia da análise, da introspecção; mas também é o número dos vícios, do sarcasmo e da solidão. O 7, inscrito numa placa de carro, também me faz recordar da carta de número 7 do Tarô, o Carro, com seu significado de vitória, triunfo e realização. E o número 971 tem a energia da soma dos seus algarismos que, pelas leis da Numerologia Pitagórica, resultam no 8 (971 = 9+7+1 = 17 = 1+7 = 8). O 8 é o número que representa o infinito e as verdades universais. Daí que, diante disso tudo, eu só posso enxergar que o disco de número 7 da carreira de Júnior Cordeiro, traz em si toda a energia das transformações infinitas pelas quais passamos nestes últimos tempos. Tempos marcados por uma pandemia virulenta que nos obrigou a todos (ou pelo menos à maioria) a vivenciar um estado de autoanálise e introspecção, presos nas cerquilhas das rashtags que nos encurralam e nos jogam numa #câmaraeco. Ainda que não tenhamos nos livrado completamente dos vícios do narcisismo causado pelas redes sociais; do sarcasmo dos nossos governantes e da solidão de um mundo conectado digitalmente e, ao mesmo tempo, tão desconectado afetivamente.

Então começo a ouvir o disco, que já está disponível em todas as plataformas digitais desde o dia 2 de janeiro e também em vinil 180g – como comemoração pelos seus 15 anos de carreira. O 7° disco de Júnior Cordeiro tem a produção musical dele e de Moisés Freire. Cordeiro também assina todas as composições e a direção musical, além de dividir os créditos da direção artística com a artista plástica Renata Cabral – a Renata, aliás, está de parabéns pela foto e concepção da capa. Cordeiro divide ainda os créditos de todos os arranjos das 13 músicas contidas no disco com os parceiros Moisés Freire, Cris Lima e o virtuose Giordano Frag.

Fotografia: Jordy Ribeiro

Todo o disco traz a marca da mistura do rock psicodélico com regionalismos que vem se consolidando em cada trabalho de Júnior Cordeiro. Musicalmente, é possível identificar toda a riqueza melódica e rítmica do cancioneiro tradicional popular nordestino, em especial os repentes e emboladas dos violeiros, bem como o estilo contemporâneo de nomes como Alceu Valença e Zé Ramalho, além do folk, do blues, do jazz e do rock mais pesado norte-americano. Cordeiro consegue captar e misturar muito bem, através de arranjos altamente criativos, as raízes culturais dos rios Hudson e Mississipi com as águas do São Francisco e do Paraíba.

Já em suas letras, autores importantes como Bauman, Dostoiévski, Foucault, Rousseau e Sérgio Buarque de Holanda, entre outros, dialogam tranquilamente com Cego Aderaldo, Zé Limeira, Patativa, etc. E é, justamente, nesse clima, que o disco é aberto com o rock psicodélico Não Faz Muito Tempo, que lembra muito os experimentalismos lisérgicos de Alceu Valença no show “Vou Danado Pra Catende”.

Na sequência, a belíssima Quando a Gente Ainda Revelava Fotos – de longe, a minha preferida! – com a presença marcante do cello de Lalá Oliveira que lembra as intervenções de violino do disco Desire, de Dylan (1976). Além de uma letra quase cinematográfica de tão imagética.

Apesar do disco ter sido todo composto, produzido e gravado em meio à pandemia de covid-19 que assola o mundo desde 2020, Junior Cordeiro diz que este não é um disco temático sobre a pandemia. Porém, como os trabalhos anteriores que ele vinha fazendo, #CâmaraEco traz como temática central pós-modernidade líquida e globalizante, o narcisismo e o individualismo hodierno – alguns dos assuntos preferidos do poeta. Mas, mesmo não tendo a pandemia como tema central ou pano de fundo, é impossível não fazer relações, como na música de trabalho Conexão Amor, que fala, sobretudo, das relações intensas vividas neste mundo líquido – como diria Bauman – e que podem se desfazer num clique ou numa queda de sinal do wi-fi.

A música de número 4 é, simplesmente, genial. Em O Vira-Lata do Sul, o poeta consegue fazer uma autocrítica de nossa brasilidade inspirado no modelo do “brasileiro cordial”, descrito por Sérgio Buarque de Holanda, e do nosso “complexo de vira-lata” cunhado por Nelson Rodrigues, numa letra atualíssima e vigorosa, que faz ferver nosso sangue latino, apesar do arranjo soul-funk americano e da guitarra matadora de Giordano Frag.

Aliás, antes de continuar falando das outras músicas, devo dizer que a banda base que acompanha Júnior Cordeiro está afinadíssima com a proposta do trabalho e consegue nos presentear com um som de primeira qualidade. A banda é formada por Moisés Freire (viola e guitarra); Giordano Frag (guitarras); Cris Lima (teclado e arranjo de cordas); Max Dias (baixo); Kamillo Lima (bateria); Sandrinho Dupan (percussão); Lalá Oliveira (cello) e Luiz Saraiva (flauta e sax).

Voltando à sequência das músicas, a quinta faixa, Retrotópica é um soco no estômago que entra com um peso quase heavy-metal e parece ser uma segunda parte de O Vira-Lata do Sul.

A sexta música, Ando Com Vontade de Ser Feto Novamente, é uma balada quase psicanalítica, marcada por um belo arranjo de sax, executado com maestria por Luiz Saraiva.

O Andarilho (Mourão Perguntado) é, como o nome já diz, inspirado num estilo de poesia popular nordestina onde dois repentistas dialogam através de perguntas. E a escolha de Cordeiro para fazer o duelo da cantoria nesta sétima faixa não podia ter sido melhor do que Silvério Pessoa (ex-Cascabulho), que trouxe um toque do bom e velho manguebeat pernambucano para o repente caririseiro de Cordeiro. Dá vontade de sair pulando numa roda de ciranda com maracatu.

A música de número 8 é #CâmaraEco. É ela que dá nome ao disco e, segundo Júnior Cordeiro, deve ser pronunciado “rashtag-câmara-eco”, numa clara crítica do artista à ditadura dos algoritmos das redes sociais, onde as coisas só ganham importância se vierem precedidas da cerquilha (#), este símbolo que nos cerca e nos tranca como num cômodo fechado, numa câmara de eco, onde tudo que ouvimos é apenas o discurso repetido do nosso Narciso a ecoar. E como todo o disco, essa música, em especial, mostra essa dissociação da realidade em que vivemos.

Este mesmo tema retorna brevemente na música de número 10, #mundo #medo #lindo e na música de número 13, que fecha o disco, #ressentida.

Em O Mundo Não Precisa Ver, Júnior Cordeiro revisita um estilo já explorado em discos anteriores: Uma balada romântica com leves toques de blues e jazz ressaltados pelo piano intimista de Cris Lima.

Na 11ª faixa, intitulada Só, Demasiado Só, temos também uma releitura de outros trabalhos anteriores de clara inspiração “ramalhiana”, com aquele compasso quase ibérico de canções como “Vila do Sossego” e “Falas do Povo”.

Por fim, na música de número 12, Uma Selfie para Sísifo, Cordeiro mostra a que veio numa música brevíssima, porém rica em ritmo, letra e melodia.

Como eu disse lá no início, os sinais estão em toda parte e eu penso que a minha leitura dos sinais que vi na capa de #CâmaraEco não poderiam ser mais claros: O sétimo disco de Júnior Cordeiro o coloca triunfante e vitorioso (como na carta O Carro, do Tarô), no hall dos grandes artistas da música paraibana contemporânea.
Para quem não conhece, vale muito a pena conhecer o trabalho do Bruxo do Cariri Velho. #FICADICA

Fotografia: Jordy Ribeiro

Ficha Técnica

Produção musical: Júnior Cordeiro e Moisés Freire
Direção musical: Júnior Cordeiro
Direção artística: Júnior Cordeiro e Renata Cabral
Foto e concepção da capa: Renata Cabral
Fotografia: Jordy Ribeiro
Gravado e Mixado entre julho e dezembro de 2020
Masterizado por Recomaster/São Paulo

Todas as canções são da autoria de Júnior Cordeiro

Arranjos: Júnior Cordeiro, Moisés Freire, Cris Lima e Giordano Frag

*Participação especial de Silvério Pessoa em O Andarilho (Mourão Perguntado)

Banda base
Moisés Freire: Viola e guitarra
Giordano Frag: Guitarras
Cris Lima: Teclado e arranjo de cordas
Max Dias: Baixo
Kamillo Lima: Bateria
Sandrinho Dupan: Percussão
Lalá Oliveira: Cello
Luiz Saraiva: Flauta e sax

Disponível em: https://open.spotify.com/album/13aXeNYDj6NpxVnEhjlOqL?si=vrvKppfmQLOTTiqlOB0k8g

A SITUAÇÃO TÁ FORD E A TENDÊNCIA É PIORAR!

A semana começou agitada e ainda com o gostinho amargo das más notícias de 2020: O Banco do Brasil anunciou, nesta segunda-feira (12/01), mais uma reestruturação que vai mexer com a vida de, pelo menos, 5 mil funcionários em todo o país. Serão 870 postos de atendimento fechados (incluindo agências e escritórios) e 243 agências transformadas em postos de atendimento (que agora se chamarão “lojas”). Além desses bancários, outros 5 mil trabalhadores da Ford ficarão sem emprego com o fechamento das 3 fábricas da gigante norte-americana que operam no país (uma no interior de São Paulo; uma no interior da Bahia e outra no interior do Ceará).
Mas podemos ficar todos tranquilos. Afinal, o Brasil que elegeu Bolsonaro em 2018 é um país de empreendedores. Assim, uma possibilidade seria: O pessoal da Ford no Ceará, monta uma grande companhia de humor ou um conglomerado de bandas de forró e arrocha. A turma da Bahia abre uma cooperativa para vender coco e o grupo de Taubaté cuida da logística dos artistas cearenses e dos vendedores de coco da Bahia. Daí, todo o dinheiro que conseguirem arrecadar pode ser investido numa corretora de investimentos cooperada montada pelos ex-bancários. Pronto! É a economia do nosso país cada vez mais forte! #SÓQUENÃO
O fato é que a situação está cada vez mais FORD e a tendência é piorar. Na verdade, a corja do Executivo está desmontando os poucos avanços no setor da indústria, que começavam a colocar o Brasil no hall dos melhores países emergentes, para transformá-lo novamente num país rural – mas não como outros grandes países que possuem um agrobusiness forte e, sim, aos moldes das antiquíssimas capitanias hereditárias.
Tendo que pagar os dotes da bancada ruralista, o governo brasileiro insiste em fazer do Brasil um país de insumos agropecuários, afugentando os grandes investidores dos outros setores (indústria e serviços) e desvalorizando a nossa moeda cada vez mais, a ponto do dólar não sair da casa dos R$5 e o euro da casa dos R$6.
Finalmente o plano do Paulo Guedes está dando certo: Está chegando o dia que nenhuma empregada doméstica, nenhum metalúrgico e nenhum bancário poderá passear na Disney. Quem quiser que se contente em atravessar a fronteira da Argentina ou do Uruguai pra comprar seu Ford Ka.

PS.: O Ford Ka vai sair de linha. Se você for uma empregada doméstica, um ex-metalúrgico ou um ex-bancário, pode comprar um semi-novo…