Luzes, câmeras, continuação!

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Desde que o cinema virou indústria, isto é, desde que o cinema é cinema, autores, diretores e, principalmente, produtores da sétima arte, criaram uma fórmula certeira de ter retorno financeiro para seus projetos milionários. Claro que estamos falando aqui, basicamente, das produções de Hollywood que, com o passar do tempo e em meio a crises econômicas e mudanças tecnológicas, primeiro lançou uma série de remakes (literalmente, refilmagens de filmes bem sucedidos) e, na sequência, uma interminável lista de continuações de filmes que atingem grandes bilheterias, sem falar nas adaptações, cada vez mais comuns, de best sellers consagrados pelo público infanto-juvenil.

Já dizia Lavoisier, “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, que o Velho Guerreiro, o Chacrinha, transformou aqui no Brasil (para o meio onde ele mais atuou) em “Na televisão, nada se cria, tudo se copia”. E nós podemos seguir nessa linha e afirmar: No cinema, nada mais se cria e, quando se cria é uma continuação – nem sempre criativa…

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Veja, por exemplo, o clássico oitentista De Volta para o Futuro (Back to the future; 1985). É um filme completo. A história não precisava ter uma continuidade em De Volta para o Futuro II (Back to the future II; 1989) – que é uma boa continuação, apesar de desnecessária. E muito menos, precisariam forçar uma barra com De Volta para o Futuro III (Back to the future III; 1990) que é muito ruim!

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Outro exemplo que chega a ser cômico: Meu primeiro amor (My girl; 1991) e Meu primeiro amor II (My Girl II; 1994). Fico pensando: não seria melhor “Meu segundo amor”??? Sim, porque o “primeiro amor” da menina morreu no primeiro filme… (Ah, vá! Vai dizer que você não sabia?).

Dando um desconto para essas porcarias de best sellers que estão sendo adaptados e que já têm suas continuações naturais nos livros, temos verdadeiras inutilidades como a continuação de 300 (2006). É como alguém querer fazer Titanic II! 300 é uma história baseada na mítica guerra de Troia. A guerra não teve uma continuação. Muito menos é necessário fazer um segundo filme contando os antecedentes de Esparta!

Sei que o tema é muito abrangente e que isso renderia muito pano pras mangas. Mas, para encerrar esse post, eu não poderia deixar de falar em Guerra nas Estrelas (Star Wars; 1977, 1980 e 1983). Primeiro lançaram mais uma trilogia em 1999, 2002 e 2005. DESNECESSÁRIO! E agora estão pra lançar mais um. AINDA MAIS DESNECESSÁRIO! A trilogia original é, de longe, a trilogia mais completa da História do cinema. Não precisava mais fazer nada! Não interessa a ninguém ver o Luke Skywalker no jardim de infância, ou saber da vida do Chewbacca quando ele ainda nem tinha tanto pelo!

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É por essas e outras, que eu agora costumo ir à locadora pra pegar filmes bem antigos, do tempo que o cinema, apesar de ser indústria, não era um mercado de franquias, tal qual uma rede de fast-food.

 

P.S.: Sim, aqui no Amapá, devido à falta de uma internet de boa qualidade, ainda frequentamos vídeo locadoras. Mas a tecnologia blue-ray já chegou por aqui!

21 de abril. Dia de…

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… Voltar a publicar em A Vida é Foda!

É isso aí. Estamos na ativa novamente. Nova diagramação, novas postagens e a mesma descontração de sempre.

Convido você, que ainda não conhece o blog, dar uma passada de vista nas postagens antigas. Algumas valem à pena, outras nem tanto. Mas, em meio a tanta coisa, você pode encontrar alguma coisa que te interesse.

Nessa nova fase do blog, eu ia começar com uma faxina. Mas achei melhor deixar tudo como estava. Desde 2010, quando A Vida é Foda nasceu, foram publicados 167 postagens (quase todo dia) sobre os mais diversos temas. Algumas polêmicas, algumas brigas mas, no geral, muita troca de ideias com os leitores.

Nesse tempo todo muita coisa mudou na minha vida, então, a partir desta semana, estarei revisitando alguns temas e trazendo novidades.

Um grande abraço a todos!

Para os que defendem o retorno da DITADURA, uma DITA DURA…

64nuncamaisAmigos leitores deste blog já esquecido, depois de exatos 27 meses de completo silêncio voluntário – simplesmente por não ter nada para falar – resolvi tirar a poeira e as teias de aranha desta tribuna ainda livre, para abordar um assunto que me deixa indignado: a ditadura militar que se instalou no nosso país de 1964 a 1984 e que no próximo 30 de março completa (alguns dizem “comemora”) 50 anos.

Hoje, perambulando pelo FaceBook me deparei com o compartilhamento de um artigo da Folha de São Paulo (http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/03/1426175-organizadores-da-nova-marcha-pela-familia-pedem-retorno-dos-militares.shtml) que fala sobre um certo movimento que clama pela volta de uma intervenção militar no Brasil, com a desculpa fajuta de acabar com a corrupção.

Vamos, então, refrescar a memória desses saudosistas imbecis que acham que se a ditadura voltar eles vão reviver todo o “glamour” dos “anos rebeldes”…

A campanha para a “revolução” (o golpe) de 64 englobou a maioria das classes dominantes, incluindo a burguesia “nacional”, da qual muitos, inclusive o Partido Comunista do Brasil, esperava um comportamento nacionalista e reformista. Contrariando tal expectativa, a “burguesia nacional” assistiu passivamente e até mesmo apoiou a queda de Jango, condenando a alternativa nacionalista. A burguesia, a despeito de sua própria posição, ajudou a ancorar firmemente o Estado brasileiro à estratégia global das corporações multinacionais.

O capital mono político transnacional tornou-se um novo bloco de poder baseado não somente em seu volume, grau de concentração e integração de capital, mas também na qualidade de sua administração e organização política, bem como na sua infraestrutura oligopolista.

Ao assumir a liderança dos principais setores da economia, o bloco multinacional e associado organizou grupos de pressão e federações de classe, escritórios técnicos e anéis burocrático empresariais, com o objetivo de conseguir que seus interesses tivessem expressão no governo. Somente lhe serviria um regime “técnico”, com uma tônica autoritária, em razão das fortes demandas que o capital transnacional faria sobre as classes trabalhadoras e os interesses tradicionais.

Os interesses multinacionais e associados consideraram outras formas de representação de interesses além do controle da administração paralela ou do uso de lobby sobre o Executivo. Eles desejavam compartilhar do governo político e moldar a opinião pública , assim o fazendo através da criação de grupos de ação política e ideológica. O primeiro desses grupos a ter notoriedade nacional em fins da década de 50 foi o IBAD – Instituto Brasileiro de Ação Democrática. Nele, a elite orgânica se constituía em um poderoso aparelho de classe e, como tal, era capaz de exercer ações estrategicamente planejadas e manobras táticas por meio de uma campanha cuidadosa e elaborada que, vitoriosamente, opunha seu organizado poder de classe ao poder do Estado do bloco histórico populista e à incipiente formação militante das classes trabalhadoras.

Apesar de sua rica ação política nos vários setores de opinião pública e de suas tentativas de reunir as classes dominantes sob seu comando o IBAD foi incapaz de impor-se na sociedade por consenso. Mas obteve êxito por meio de sua campanha ideológica e política de esvaziar o apoio ao Executivo e foi capaz de estimular uma reação generalizada contra o bloco que estava no poder. No movimento estudantil, estimulou a formação de organizações e grupos paramilitares de direita, mas não deteve as tendências de esquerda na União Nacional dos Estudantes (UNE). Junto aos trabalhadores da cidade e do campo estimulou organizações e sindicatos de direita e criou novos grupos úteis à campanha para adiar a solidariedade e consciência de classe. Mas não bloqueou a constituição de organizações nacionais esquerdistas. No campo eleitoral, elegeu grande número de políticos conservadores de centro-direita na Câmara, Senado e nos governos estaduais. Mas não conseguiu impedir a formação de um bloco nacional reformista que foi ceifado no golpe de 31 de março. Os maiores sucessos do IBAD foram fomentar um clima de crise e uma atmosfera de inquietação política. O maior êxito foi de promover a intervenção das Forças Armadas contra o “caos, a corrupção populista e a ameaça comunista”.

No dia 13 de março de 1964, João Goulart (já empossado na cadeira de presidente, após a renúncia de Quadros) assina em praça pública, no Rio de Janeiro, três decretos, um de encampação das refinarias de petróleo privadas, outro de reforma agrária à beira de rodovias, ferrovias, rios navegáveis e açudes e um decreto tabelando aluguéis. Esses decretos de 13 de março foram usados como pretexto pelos conservadores para deporem João Goulart. Foi a gota d’água que faltava para eclodir o golpe.

O golpe de Estado marcou a influência política do Exército Brasileiro e sua determinação em tomar o poder do país ao abrigo de uma doutrina de segurança nacional formado no âmbito da política do comércio exterior americano e de outros países influentes como a França.

Os grupos militares concorrentes entre si defendiam pontos de vistas diferentes: um grupo defendia medidas rápidas diretas e concretas contra os chamados subversivos, ou inimigos internos, estes militares apoiavam sua permanência no poder pelo maior tempo possível; ao contrário do grupo anterior, o segundo era formado por militares que tinham por doutrina a tradição de intervenções moderadoras. Estes procuravam permanecer no poder somente o tempo necessário até se formar um governo aceito pelo grupo a exemplo de 1930, 1945 e 1954, quando, passado o período de maior risco institucional, houve o rápido retorno do poder para os civis.

Para os dois grupos era necessário salvaguardar o Brasil contra o poder do comunismo internacional (além do anti getulismo, ou populismo promovido por Jango).

Segundo a doutrina dos militares, o inimigo devia ser extirpado a todo custo e os governos populistas seriam uma porta de entrada para a desordem, subversão e propiciariam a entrada de ideologias nocivas à Nação.

As facções contrárias internamente nas forças armadas acabaram se unindo apesar da não concordância metodológica. Desta forma, os militares mais radicais se aglutinaram ao general Costa e Silva, e os mais estratégicos ao marechal Humberto de Alencar Castelo Branco.

Na madrugada do dia 31 de março de 1964, tropas militares, sob o comando do general Olympio Mourão Filho marcharam de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro com o objetivo de depor o governo constitucional de João Goulart. Jango encontrava-se no Rio de Janeiro quando recebeu um manifesto exigindo sua renúncia. O chefe da Casa Militar, general Assis Brasil, não conseguiu colocar em prática um plano que teria a função de impedir um possível golpe. Os partidos de sustentação do governo ficaram inertes, aguardando a evolução dos acontecimentos. O presidente seguiu para Porto Alegre e se refugiou numa estância de sua propriedade, e depois rumou para o Uruguai, o que levou o presidente do Senado Federal a declarar vagas a presidência e a vice-presidência da República e empossar o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, na presidência da República.

No dia 2 de abril ocorre a Marcha da Vitória, na cidade do Rio de Janeiro, garantindo apoio popular à deposição do presidente João Goulart.

Blindados, viaturas e carros de combate ocuparam as ruas das principais cidades brasileiras. Sedes de partidos políticos, associações, sindicatos e movimentos que apoiavam as reformas do governo foram destruídas e tomadas por soldados fortemente armados. À época, estudantes, artistas, intelectuais e operários se organizavam para defender as reformas de base. A sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) foi incendiada.

Os Estados Unidos, que já vinham patrocinando organizações e movimentos contrários ao presidente e à esquerda no Brasil durante o governo de João Goulart, participaram da tomada de poder, através de seu embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, e do adido militar, Vernon Walters (diretor da CIA), e haviam decidido dar apoio armado e logístico aos militares golpistas, caso estes enfrentassem uma resistência armada por parte de forças leais a Jango: em Washington, o vice-diretor de operações navais, John Chew, ordenou o deslocamento para costa brasileira (entre Santos e Rio de Janeiro) de uma força-tarefa da US Navy (incluindo o porta-aviões Forrestal, seis contratorpedeiros, um porta-helicópteros e quatro petroleiros), operação que ficou conhecida como “Brother Sam”.

Após a deposição de João Goulart, vieram os Atos Institucionais (AI), mecanismos jurídicos autoritários criados para dar legitimidade a ações políticas contrárias à Constituição Brasileira de 1946 que consolidaram o novo regime militar implantado.

No dia 7 de abril, os ministros militares ignoraram o “Ato Constitucional” dos líderes parlamentares, que limitavam o expurgo no serviço público em todos os níveis, e deram início à série de “Atos Institucionais”. Foram decretados 17 atos institucionais, e 104 complementares a eles, durante todo o governo militar, que pela própria redação eram mandados cumprir, diminuindo assim várias liberdades do cidadão. Desta forma, aqueles que se declararam os “arautos” da democracia, acabaram usando as mesmas ferramentas de repressão usadas pelos seus inimigos soviéticos e acabaram sepultando de vez a democracia em nosso país. E o povo brasileiro, alheio a tudo, viu-se escapando de uma ditadura de extrema-esquerda para cair em uma ditadura de extrema-direita.

Após a tomada do controle, em seus primeiros quatro anos, o governo militar foi consolidando o regime de forma moderada, utilizando-se de uma poderosa propaganda ideológica junto à população e reprimindo supostos focos de revolta. O período compreendido entre 1968 e 1975, no entanto, foi determinante para a nomenclatura histórica conhecida como “anos de chumbo”.

O poder subiu à cabeça dos militares da ala radical e os Atos Institucionais passaram a restringir os direitos de cerca de dezoito milhões de eleitores brasileiros, cancelou a validade de alguns pontos da Constituição Brasileira, criando um Estado de exceção e suspendendo a democracia plena. Foram cassados os direitos políticos de praticamente todos os políticos e militares tidos como “simpatizantes do comunismo”, ou que se suspeitava receber apoio dos comunistas.

Ao longo dos governos dos generais Humberto de Alencar Castelo Branco (1964-1967) e Artur da Costa e Silva (1967-1969), os Atos Institucionais foram promulgados e emendaram a Constituição durante todo o período da ditadura. Foi o fim do Estado de direito e das instituições democráticas. A partir de 1º de abril, na prática, uma junta militar governava o Brasil.

A 09 de abril, foi baixado o “Ato Institucional”, redigido por Francisco Campos, e que era para ser o único ato institucionalizador da “revolução de 1964”. Porém, depois da edição do AI-2, o “Ato Adicional” inicial foi numerado como AI-1. O “Ato Institucional” transferia poderes excepcionais para o executivo, ao mesmo tempo em que subtraia a autonomia do legislativo. O AI-1 marcava eleições presidenciais para outubro de 1965 e concedia à Junta, entre outros tantos, o poder de cassar mandatos parlamentares. Dois dias depois, o marechal Castelo Branco – chefe do Estado-Maior e coordenador do golpe contra Jango – foi eleito presidente pelo Congresso.

Houve uma razão lógica para a decretação do Ato, que foi uma medida mais estratégica do que o diálogo. Os políticos, em sua maioria, estavam reticentes quanto aos caminhos que seriam tomados pelo governo de então. Naquela altura, a conversa, o convencimento pela razão e pelos argumentos seriam inócuos e demandariam muito tempo, o que daria espaço e fôlego aos depostos ou à oposição de se reorganizar. Os militares acreditavam na necessidade urgente de legitimar o golpe “por si mesmo”.

Novas medidas vieram, com o enrijecimento ainda maior da ditadura: revogação da nacionalização das refinarias de petróleo; revogação dos decretos de desapropriação de terras; cassação e suspensão de direitos políticos; demissão de funcionários públicos; instauração de inquéritos; e o rompimento de relações diplomáticas com Cuba.

O governo da ditadura difundiu a ideia de que a intervenção militar impediu a implantação de um regime comunista no Brasil e utilizou-se desse argumento para justificar as suas ações arbitrárias e violentas.

Assim, os Atos Institucionais e seus complementares se sucederam até o 17º. Em 13 de dezembro de 1968, o presidente Costa e Silva decretou, mandou publicar e cumprir o Ato Institucional Número 5, AI-5, cancelando todos os dispositivos da Constituição de 1967 que porventura ainda pudessem ser utilizados pela oposição.

A cassação de direitos políticos, agora descentralizada, poderia ser decretada com extrema rapidez e sem burocracia; o direito de defesa ampla ao acusado foi eliminado; suspeitos poderiam ter sua prisão decretada imediatamente, sem necessidade de ordem judicial; os direitos políticos do cidadão comum foram cancelados e os direitos individuais foram eliminados pela instituição do crime de desacato à autoridade.

Os militares assumiram definitivamente que não estavam dispostos a ser um poder moderador e sim uma ditadura, colocaram a engrenagem para rodar as teses da Escola Superior de Guerra (ESG), o desenvolvimentismo imposto à sociedade.

A população era massificada pela propaganda institucional e pela propaganda nos meios de comunicação, que ou eram amordaçados pela censura ou patrocinavam a ditadura com programas de televisão muito bem elaborados como: Amaral Neto, o Repórter; Flávio Cavalcanti, entre outros, com audiência de até dez milhões de telespectadores em horário nobre, número muito expressivo para a época.

Havia muitos programas locais com farta publicidade também de cunho institucional, as maravilhas e a grandeza do país eram enaltecidas, slogans eram distribuídos fartamente em todos os meios de comunicação. Nesta época, foram liberados milhões de dólares a juros baixos para a montagem de centenas de canais de televisão e ampliação das grandes redes de alcance nacional. O ministério das Comunicações e a Delegacia Nacional de Telecomunicações, Dentel, liberaram milhares de canais de rádio e de televisão, a fim de possibilitar a formação de uma rede nacional de telecomunicações de alcance continental.

A censura aos meios de comunicação proibiu toda e qualquer exibição em território nacional de filmes, reportagens, fotos, transmissão de rádio e televisão, que mostrassem tumultos em que se envolvessem estudantes. As apresentações na televisão exibiam um certificado contendo os dados da empresa de comunicações responsável rubricado pelos censores de plantão.

A ditadura militar foi instituída pela violação dos direitos políticos de todos os cidadãos brasileiros, pois depôs um governo democraticamente eleito, e pela supressão de direitos e garantias individuais pelos sucessivos Atos Institucionais (AI) e leis decretados pelos chefes do regime. Entre 1968 e 1978, sob vigência do AI-5 e da Lei de Segurança Nacional de 1969, ocorreram os chamados Anos de Chumbo, caracterizados por um estado de exceção total e permanente, controle sobre a mídia e a educação e sistemática censura, prisão, tortura, assassinato e desaparecimento forçado de opositores do regime. A prisão arbitrária por tempo indeterminado (suspensão do habeas corpus) e a censura prévia foram especialmente importantes para a prática e acobertamento da tortura. A legalidade democrática, porém, só foi estabelecida a partir de 1988, com a Assembléia Nacional Constituinte e as eleições diretas para o poder legislativo e o poder executivo em nível municipal, estadual e federal.

Por tudo isso e muito mais é que não podemos ficar parados e deixar que os fascistas enrustidos saiam do armário. Ditadura, nunca mais!

Desejo de Natal

Hoje eu vou pedir em minhas orações que, de agora em diante, todos os dias seja dia de Natal.

Vou pedir para que todos os amigos e familiares distantes se reúnam para celebrar o amor e a vida. E que as crianças fiquem brincando até tarde da noite, enquanto esperam para ganhar presentes que surgem subitamente embaixo de suas camas.

(Também vou pedir para que todas as crianças, sem exceção, de agora em diante, tenham uma cama).

Vou pedir para que todos sorriam constantemente e desejem mutuamente os melhores votos de paz, amor e felicidade. Vou pedir também para que, mesmo aqueles que não crêem (ou assim o dizem) participem dessa emanação de boas vontades. E que mesmo aqueles que não partilhem das mesmas crenças sentem-se à mesma mesa e confraternizem.

Vou pedir, por fim, que, de agora em diante, as pessoas possam se olhar nos olhos sem receios ou ressentimentos e que, juntos, todos possam trabalhar por um mundo melhor.

CARTINHA DE AMOR ANTIGA

Meu amorzinho…

Inexoravelmente, chegou o tempo em que nossos cabelos se tornaram brancos como fios de algodão; nossos olhos têm a vista anuviada e nossos ouvidos não são mais tão atentos quanto antigamente. E nossos dentes, assim como nossos ossos, se tornaram fracos. Nossa pele enrugou e o os nossos anos vividos tornaram-se um pesado fardo que nos obriga a arrastarmos os nossos corpos já cansados, carecendo de amparo.

Há alguns anos nossos corpos não se unem mais, como nas antigas conjunções da carne, mas nunca deixei de gostar de permanecer de mãos dadas com você nem de sentir a maciez dos teus lábios tocando os meus, até hoje – em beijinhos delicados, sublimes, discretos e tímidos, como aquele que demos da primeira vez, quando nos conhecemos.

O tempo que outrora chamávamos de futuro chegou. A velhice é o nosso presente. Mas eu nunca tive medo de nada disso. Eu sempre soube que seria assim…

E apesar de tudo, minha amada… apesar da vista turva e de toda a decadência física a qual fatalmente se submete toda a humanidade, eu ainda te amo da mesma forma como no primeiro dia em que te vi naquela praça, irradiando sua beleza com aquele longo vestido vermelho e os cabelos dourados refletindo o sol de fim de tarde, quarenta e seis anos atrás.

O tempo passou. Mas todas as vezes que nos olhamos, sinto que o que vemos são aqueles jovens namorados que se encontraram pelas amarras do destino naquela praça do centro da cidade, no final da tarde, naquele dia em que todas as previsões indicavam o juízo final. O que vemos (e ouvimos) são os mesmos sorrisos e brincadeiras e bobagens sussurradas ao ouvido um do outro. E o que temos é aquela mesma certeza de que o nosso amor permanece eterno, como eternos são o tempo e a vida – o que ainda me dá segurança para dizer que irei te amar para sempre…

 

Para Lulih Rojanski,

07 de dezembro de 2057

A HISTÓRIA DE TICO-LYN

Esta é a fantástica história de Tico-Lyn.

Tico-Lyn não era nenhum chinês. Tampouco era artista de um circo chinês. Mas carregava em si o nome e a alma de um velho malabarista das terras de Cantão.

Não ouso dizer que Tico-Lyn era homem ou animal. Afinal de contas, que diferença faz? O fato é que a maioria de nós, humanos, andamos sobre as patas traseiras e Tico-Lyn era a atração das ruas por onde andava pois sustentava-se majestosamente em suas patas dianteiras.

Ainda criança, Tico-Lyn caiu de mau jeito de um escorregador no parquinho da praça. Ele quebrou a perna direita e nunca mais consertou. Mas o que era pra ser uma tragédia, Tico-Lyn conseguiu transformar em graça. E lá se ia Tico-Lyn fazendo a alegria da garotada por onde passava.

E eram garotos e garotas de todas as idades – de oito a oitenta anos – que ficavam encantados com a beleza e graça de Tico-Lyn, que andava todo faceiro “plantando bananeira” como se fosse um malabarista cantonês.

28 de novembro de 2011

DESPERTAR

Para ele, não havia melhor coisa no mundo do que acordar de manhã, olhar para o lado esquerdo da cama e vê-la dormindo, ressonando como um anjo que sonha deitado nas nuvens. Para ele, não havia coisa melhor no mundo do que acordar e ter a certeza de que tudo que viu e sentiu na noite anterior não havia sido apenas um sonho vulgar.

Ela estava, de fato, lá. E seus cabelos tinham o dourado dos raios do sol matutino. Sua pele tinha a alvura das neves de terras distantes. Sua boca possuía a frescura do orvalho da madrugada e seu corpo, a maciez do canto dos pássaros.

Lá estava ela – de fato: o amor da sua vida. O amor encarnado em todo seu esplendor e glória. E seu coração batia acelerado, enquanto seu corpo ardia em chamas de paixão e desejo.

De repente, como se adivinhasse que ele estava a velar seu sono na penumbra do quarto, ela despertava docemente, abrindo seus olhinhos azuis de turquesa e seu sorriso iluminava o cômodo, como se fosse o sol desvirginando a madrugada.

25 de novembro de 2011