Cantando as pedras – parte 2

Previously on Fuckin’ Life“…

Em relação às eleições 2020 para prefeitura de Macapá, eu “cantei” as seguintes pedras:

1- O candidato da situação será eleito em “Macapá em primeiro lugar”;

2- O candidato da “oposição” (se é que isso existe na política brasileira), mesmo tendo ainda um bom número do eleitorado, não tem chance de se eleger (mesmo chegando ao segundo turno e tendo apoio da “frente solidária” encabeçada pela casa Grifinória);

3- O Brasil que elegeu Bolsonaro, não permitirá que a “velha esquerda” se eleja pelos próximos vinte anos.

Dito isto, vejam que coisas interessantes saíram hoje nos noticiários:

O jornal O Globo traz o resultado da última pesquisa Ibope em 11 capitais do país e só confirma o que eu falei anteriormente. Claro que a Macapá não foi pesquisada (talvez por ser o… “meio do mundo”…), mas a pesquisa mostra as tendências no geral.

Segundo o jornal, os resultados das pesquisas indicam o desafio do PT e dos bolsonaristas do PSL, PRTB e Patriota em viabilizar uma campanha rumo ao segundo turno. Explico: No caso desses “bolsonaristas”, o jornal se refere aos “nutella” que só entraram na onda fascista de 2018. É aquele grupo que só sabe xingar de “petralha” aqueles que não concordam com eles. Não têm peso político.

A pesquisa mostra que em algumas capitais, como São Paulo, sequer há polarização entre esquerda e direita – a direita é quem leva mesmo e ponto final.

Os números mostram que os partidos do Centrão, isto é, esses sim os bolsonaristas “raíz” (aqueles que são os mais dissimulados, que não se dizem bolsonaristas na frente de câmeras e microfones) se saem melhor na primeira rodada de intenção de voto. Tá, eu explico melhor: A galera do tal “centrão” é como aquele filho que todo mundo sabe que é viado, mas ninguém toca nesse assunto, às vezes a mãe até arranja namorada pra ele, coitado… É aquele que fica em cima do muro. Ora! Se o país foi polarizado entre esquerda e direita, entre ambas, bem ao centro, existe um muro. É aí que esses urubus ficam à espera da carniça que melhor lhes apetece.

Dos líderes na pesquisa, quatro estão em legendas que compõem a base de apoio do governo. O PT tá mais perdido que filho de puta em dia dos pais vê o sucesso de candidaturas de partidos do mesmo “campo ideológico” (se é que isso também existe na política brasileira), como PSB, PSOL e PCdoB, em algumas poucas capitais (Recife, Belém e Porto Alegre), enquanto seus nomes isolados em algumas cidades patinam ou nem sequer pontuam. Ou seja, como eu disse anteriormente, a “velha esquerda” brasileira só vem perdendo espaço – e a tendência é piorar.

Outra notícia interessante foi publicada hoje no G1 local: “TRE-AP define tempo e ordem de candidatos no horário eleitoral em Macapá; 3 não terão exibição”.

Bem, de acordo com a hermética Resolução TSE 23.610/2019, a distribuição da propaganda ficou assim:

  • Josiel, da Coligação “Macapá em Primeiro Lugar”, lógico, ficou em “primeiro lugar” com 4 minutos e 18 segundos diários;
  • Guaracy, da Coligação “Deus, Pátria e Família” (que ninguém sabe nem quem é, mas é mais um da direita), ficou com 1 minuto e 27 segundos diários;
  • Professor Marcos, do PT vai ter 1 minuto e 18 segundos diários pra tentar convencer o povo que não é “petralha”;
  • Dr. Furlan, da Coligação “De Coração Por Macapá”, ficou com 1 minuto e 2 segundos diários;
  • O velho Capi, da Coligação “Frente Macapá Solidária”, vai ter que aprender uns truques com o pessoal da Grifinória pra conseguir aproveitar bem seus 49 segundos diários;
  • Paulo Lemos, da Coligação Macapá Para Todos Nós (nós quem, cara-pálida?), terá 34 segundos diários;
  • E Patrícia Ferraz, do Podemos, “poderá” usufruir apenas de 30 segundos diários.

Enfim, como diria meu amigo Elton Tavares do blogderocha.com.br, é isso!

Cantando as pedras

Não sou analista político – até poderia ser, mas a concorrência é muito grande nas redes sociais. Aliás, politicamente sempre me defini como anarquista – quem me conhece, sabe que já trabalhei para governos e atualmente trabalho em banco (dois grandes inimigos da ideologia anarquista), mas foda-se, a minha necessidade de sobrevivência é maior do que qualquer ideologia. Por aí, meu caro leitor, minha cara leitora, você já fica ciente de que o que eu falar aqui nesse texto não tem, na prática, valor nenhum, peso algum, autoridade teórica muito menos! Encare esse “textículo” apenas como uma conversa numa mesa de bar daqueles bem “copo sujo”…

Então… Como diria minha mulher, “2020: O ano que não existiu”, vai existir normalmente para a realização da eleição municipal em todo o Brasil – Afinal de contas, quantos não foram os benefícios políticos trazidos pela pandemia, não é verdade?! (Mas isso é assunto pra outro texto). Em Macapá, nesse 2020, a eleição vai acontecer no dia 15 de novembro (primeiro turno) e 29 de novembro (segundo turno, se necessário), para prefeito e vice, mais 23 desocupados vereadores.

O prefeito atual, Clécio Luís, por estar mamando exercendo seu segundo mandato consecutivo, não pode concorrer à reeleição, mas há meses já vem mostrando serviço pra deixar tudo bonitinho pro seu sucessor – obviamente ele sabe que o seu candidato será o seu sucessor, caso contrário a cidade não estaria esse canteiro de obras…

E é aqui que eu já vou entrando direto com os dois pés no assunto e “cantando as pedras desse bingo”. Sim, a cidade está um caos, mas é por um “bom motivo”: É que o Josiel Alcolumbre nunca exerceu cargo importante como o de prefeito de uma capital (acho mesmo que nunca exerceu cargo algum0. Então o Clécio já está deixando tudo pronto para o “marujo de primeira viagem”. Durante a campanha o discurso vai ser: “Vote no Josiel, pois ele dará continuidade ao trabalho do Clécio” (e muitos vão comprar essa ideia tosca). Depois que o Josiel assumir em 1° de janeiro, o discurso muda só um pouquinho: “Olha só como o prefeito Josiel está trabalhando! Asfalto novo, linha de esgoto… O Clécio começou, o Josiel concluiu”.

Nesse ponto você me pergunta como eu posso ter tanta certeza de que o Josiel será eleito, se praticamente ninguém sabe quem é o Josiel? Milagres da politicagem brasileira, minhas crianças! Senão, vejamos: Até bem pouco tempo atrás, Clécio era inimigo mortal do Valdez e da “única-dama” (“dizque”). Teve até “velório” do Clécio em praça pública, lembram? Em 2018, Clécio, junto com Harry Potter Randolfe e Davi Alcolumbre, fizeram uma falcatrua manobra política nos 40 minutos do segundo tempo e conseguiram reeleger o Valdez (com direito a sarrada no ar e na bunda do povo). Pronto, com a chegada da pandemia e das eleições, os dois caciques chegaram a um consenso e resolveram “superar as diferenças para o bem do povo” e o resultado foi colocar como fantoche candidato o irmão do Davi, o Josiel – paga-se a dívida de gratidão e o mesmo grupinho continua na mamata.

Agora, Randolfe, que jura ser “a voz ativa da esquerda no Senado”, deixou de lado por um tempo a “REDE de sustentação” da situação e foi para o “outro lado”, apoiar Capi.

Capi, mesmo tendo ainda um bom número do eleitorado, não tem chance de se eleger (mesmo chegando ao segundo turno) Pois, assim como em todo o resto do Brasil que elegeu Bolsonaro, candidatos da “velha esquerda” não se elegerão pelos próximos vinte anos – Não esqueçam que vivemos, infelizmente, uma nova era de conservadorismo que vai perdurar ainda por algumas décadas.

Quanto aos outros candidatos, talvez a Patrícia Ferraz consiga obter uma boa fatia dos eleitores, mas vai ficar em terceiro lugar – somente por ser uma estreante na política. Mas no segundo turno, também vai acabar levando seus eleitores para o lado do Josiel.

Quanto ao resto… Bem, o resto é resto: Professor Marcos do PT, vai virar saco de pancadas só por ser “da petralhada, tá OK?”; Gian Franco (PSTU) e Paulo Lemos (PSOL) são “café-com-leite”, porque ninguém engole mais papo de “comunista, tá OK?”; Guaracy (PSL) e Cirilo (PRTB); vão garantir a implantação de ideias fascistas no eleitorado – tudo para ninguém votar nos “vermelhinhos, tá OK?”. Por fim, Dr. Furlan (Cidadania) e Haroldo Iram (PTC), serão apenas os figurantes dessa tragicomédia.

Então é isso. Se eu acertar essas previsões, vocês me pagam uma rodada!

eleições | Portal Anarquista

Pequena heresia sem nome

Aprenda a superar a ressaca moral.

Pagou a conta da luz: e eis que foi o primeiro dia. Pagou a conta da água: e eis que foi o segundo dia. Pagou a conta da mercearia, onde comprava ervas e todos os tipos de alimento: e eis que foi o terceiro dia. No quarto dia, pagou a conta do clube, onde se banhava ao sol e o fiado do bar, onde namorava a lua e as estrelas de suas noites solitárias. No quinto dia, pagou o peixe e o frango que estava devendo no açougue. No sexto dia, levou o cão para passear e brigou com a ex-mulher, aquela falsa ardilosa. No sétimo dia resolveu descansar e tomou um porre daqueles. No dia seguinte, de ressaca, Ele criou o domingo…

E viva a hipocrisia brasileira!

A putaria sexualidade é inerente ao ser humano. Você pode ser mais ou menos puto(a) sexualizado(a). Mas o fato é que, como já dizia Freud, somos todos adeptos de uma boa sacanagem experiência prazerosa desde sempre. O problema é que a putaria sexualidade e a sacanagem satisfação só são o que são porque, muitos séculos atrás, algum pedófilo de batina lá pras bandas de Roma resolveu tornar a sexualidade humana em um tabu e implantou na cabeça de todo mundo essa falácia de pecado.

Ok, eu amo história. Mas prometo que não vou fazer nenhum retrospecto histórico sobre a relação da sociedade ocidental com a sexualidade recalcada. Vamos pular essa parte. Vamos tornar o texto mais leve e cheio de algumas boas lembranças. Afinal, como já dizia o “velho deitado”, recordar é viver…

O dia era 30 de junho de 1986. Férias escolares na casa da avó e eu tinha acabado de completar nove anos, em março daquele ano. Estava com minha irmã (na época com quatro anos), primos, tios, pai e mãe, a turma toda. Eu ainda não havia superado a minha separação da Simoni e de toda a Turma do Balão Mágico que, a partir daquele dia eram simplesmente trocados por um tal de Xou da Xuxa… Mas quem era aquela tal de Xuxa? Até então eu só sabia, da boca dos adultos da família, que ela tinha namorado o Pelé, era modelo e tinha feito um filme pornô com um menino de 12 anos. Mas o que era “filme pornô”?…

Voltando ao assunto… Quando aquele disco voador cor-de-rosa pousou em meio a fumaças e luzes coloridas com uma loira de quase 1,80m saindo de dentro, usando uma minissaia preta e um top tomara-que-caia bem decotado, inaugurava-se uma nova era da televisão brasileira. O programa era “só para baixinhos”, mas muitos “altinhos” não tiravam os olhos da tela e das pernas de Xuxa e do seu time de ninfetas adolescentes fantasiadas de balizas de fanfarra, as Paquitas, as equivalentes tupiniquins das míticas cheerleaders norte-americanas. Não sabe o que é uma cheerleader? (Çei!) Assista Beleza Americana (1999) ou qualquer outra porcaria cinematográfica americana que você vai entender do que eu estou falando…

Fato é que, a partir daquele fatídico ano de 1986 as casas, ruas, praças e escolas do Brasil foram tomadas por pequenas miniaturas de… Xuxa e suas Paquitas. E sim, as crianças passaram a ser cada vez mais sexualizadas – do jeito errado, mas foram. Botas de couro sintético de cano alto cobriam até a metade perninhas que mais pareciam uns gravetos; minissaias (também de couro sintético) juntamente com tops tomara-que-caia decotados (iguais aqueles que a apresentadora usava) viraram itens obrigatórios em corpinhos impúberes, inocentes e (por que não?) indefesos diante da moda imposta pela mídia.

Se você acha que eu estou exagerando, estas foram as palavras da própria apresentadora em entrevista recente no programa do jornalista Pedro Bial: “Se você parar pra pensar e ver meus programas, 80% das coisas que eu fazia no Xou da Xuxa era politicamente incorreto. Da maneira como eu falava com as crianças, coisas que eu fazia, o jeito que eu me vestia, até as músicas que tocavam. Eu teria sido crucificada se tivesse feito isso hoje em dia”.

Anos depois, outra loira (dessa vez falsa) encantava as crianças (e, lógico, a macharada brasileira) com sua garrafa. Uma linha inteira de bugigangas e shortinhos de lycra mínimos eram vendidos em toda esquina; nas festinhas de escola (todas, do pré-escolar ao ensino médio) sempre tinha que ter um concurso de dança e, nestes concursos, inevitável e lamentavelmente estava ela, a garrafa, como principal objeto fálico (ops! Cínico! Ops de novo! Cênico! Objeto cênico)…

Mas tudo isso é como a “Rainha dos Baixinhos” também falou no Conversa com Bial: “Se eu não fizesse isso, estaria fora do que estava acontecendo diariamente da porta pra fora. Todo mundo fazia isso na praia, na piscina, nas músicas, videoclipes, na TV, nas aberturas de novela”… Sim, ela tem razão nesse ponto: Nessa sociedade de massa em que vivemos, a mídia se alimenta do povo e o povo se alimenta da mídia.

E hoje, tá diferente? Tá nada! Quer dizer, a caretice do falso moralismo e o sexismo doentio tem ganhado espaço em várias partes do mundo, depois que o pêndulo da História passou a pender para a extrema direita. Mas veja, vivemos no país da incoerência: Peitos, bundas e patas-de-camelo desfilam tranquilamente nas praias, academias, praças, supermercados, etc. Anitta, ao invés de fazer videoclipes, praticamente faz vídeo aulas de como mexer a bunda em “quadradinho”. Nos postos de gasolina, estacionamentos e até em casa, distintos pais de família exibem a potência do som dos seus carros com canções de letras profundas e uma poesia vibrante, do tipo: “A galera tá pedindo pra tocar no paredão / As novinhas tão subindo e descendo até o chão”… (e o que mais me impressiona é que não é de escada nem elevador)! Hehehe

Aí, do lado oposto nós temos: Um arremedo de ditador que defende a tortura e o estupro; uma ministra evangélica que tentou mexer os pauzinhos (não sei de quem) pra impedir uma criança estuprada de abortar o feto de seu estuprador; um padre pedófilo que tem certeza que essa mesma criança gostava de ser violentada e um monte de lacaio uniformizado com a camisa da CBF achando que tudo isso é “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”… E agora estão tentando, na justiça (que também não anda lá com essa moral toda), proibir Mignnones (2020), filme francês, vencedor de prêmios internacionais, alegando que o mesmo faz apologia à pornografia infantil!

Puta que pariu! Meu gato pôs um ovo!

Eu assisti à porra do filme e, ao terminar, fiquei tentando imaginar que mente doentia é essa que se excita com um bando de meninas pré-adolescentes dançando, muito provavelmente as mesmas danças que seus filhos dançam nos aniversários dos coleguinhas! Fico imaginando os tarados que conseguem enxergar pornografia infantil nesse filme. Talvez tenham se confundido com o título: Mignnones, em francês, quer dizer algo como “fofas”, enquanto o filme preferido dessa corja se chama Minions, que em inglês significa “lacaios” (aliás, termo que lhes cai feito uma luva)…

O filme da estreante franco-senegalesa Mïrmouna Doucouré conta apenas a história de uma menina de 11 anos, imigrante senegalesa em Paris, fazendo suas descobertas de toda uma vida e mundo novos a partir de um grupo de outras meninas locais que sonham em ganhar um concurso de dança. Essa história serve como pano de fundo para temas como as dificuldades econômicas e sobretudo culturais que os imigrantes enfrentam ao chegar à Europa, o choque cultural, as descobertas e sonhos de milhares de meninas no mundo contemporâneo, etc.

O filme tem muito o que mostrar, só não mostra – em nenhum dos 96 minutos de duração – pornografia infantil! É um filme simples, com uma história simples, e só. Não é um filmaço daqueles de relembrar pelo resto da vida e arrebatar todas as estatuetas do Oscar. Mas uma coisa é não gostar do filme, outra é ver peito e bunda onde não tem! Aliás, o nome disso, segundo Freud, é perversão.

De Rocha!

Foto: Flávio Cavalcante

Sempre gostei de línguas…

Hummm… dessas que você pensou também(rsrs). Mas aqui me refiro mesmo à linguagem, essa capacidade humana de se comunicar. Afinal, o que seria de nós sem a comunicação?

A linguagem serve pra comunicar e compartilhar informações, expressar a identidade em uma comunidade e para o entretenimento.

Expressões típicas e gírias de uma determinada região são prova disso. Elas são usadas informalmente, em conversas do dia a dia; fogem da tal da norma culta e reinventam as palavras com um sentido inteiramente novo.

Veja por exemplo a gíria “de rocha”. Ela é usada quando você confirma que o que disse é verdade, que se trata de algo sério. Você pode empregá-la na frase: “Égua, mano! Tu já viste o livro que o Eltão lançou? Tédoido, tá muito firme. De Rocha!”

Viu como é simples? Principalmente quando a gente fala do trabalho de um amigo muito querido como é o caso do jornalista amapaense Elton Tavares, que lançou na última sexta-feira (18) o seu primeiro livro, que traz estampada no título a cara de um povo e de uma geração: Crônicas de Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias.

O livro, que conta com capa e ilustrações do cartunista Ronaldo Rony e projeto gráfico limpo e de excelente leitura de Adauto Brito, é um apanhado de textos publicados no site do autor – todos muito bem revisados por Marcelle Nunes – contando ainda com a presença do escritor Fernando Canto no texto de prefácio.

O livro tem 246 páginas, mas não se espante! É um livro fácil de se ler em um dia. Os textos são curtos, leves, diretos, com uma linguagem própria de quem vive navegando pela internet. Mas ao mesmo tempo, Elton acerta em cheio em alguns textos carregados de saudade, saudosismo, reflexões sobre a vida e humor ácido.

Complementando os textos, os traços dos cartoons de Ronaldo Rony dão um toque a mais no humor leve e descontraído do livro, onde até o famoso personagem criado pelo artista, o Capitão Açaí, dá o ar de sua graça numa cena desconcertante (não vou dizer onde é. Leia o livro!).

Na contracapa, Elton se apresenta como sendo, entre tantas outras coisas, um gordo marrento. Mas à medida que você navega pelas páginas do livro, você vai descobrindo (se você não o conhece pessoalmente) ou confirmando (caso o conheça) que, na verdade, ele é gordo sim; mas o que tem de tamanho, tem também de verdade, lealdade, carisma e “genteboalidade” – tudo bem, essa gíria não existe mas, foda-se! – Se você tem alguma dúvida, leia o texto confessional Eu me inventei (Crônica sincera).

Em textos do tipo Como escrever um texto polêmico; Os Tulius Detritus e Os Dicks Vigaristas que encontramos na vida, Elton consegue lançar seu olhar ferino sobre os bastidores do jornalismo amapaense e, com a sutileza cínica que lhe é peculiar (e eu realmente acho isso uma ótima qualidade), dá belas cutucadas nos maus colegas de profissão que, infelizmente, ainda teimam em existir (ô, raça!).

A boemia é outro elemento “eltoniano” que não podia faltar, aflorando em textos deliciosos, como em Comentários nas mesas de bar nessa época do ano; É, eu gosto e Em tempos de copa do mundo. Muitos com pitadas de saudosismo, como em Saudades do Quiosque Norte-Nordeste, o saudoso “Bar da Floriano” e O antigo Bar Xodó e o velho Albino.

Saudosismo bom mesmo fica por conta de textos como Minhas dezenas de fitas k7 e a nostalgia; O Capitão Caverna, o meu super-herói favorito; Sobre insônia e cartas de amor; Sobre domingos de quando eu era moleque e o hilário A Santa Inquisição do Fofão.

No mais, Elton presta uma grande homenagem à sua família, em especial ao seu pai, Zé Penha e aos seus amigos de “rockada” e de boteco. Também aos velhos loucos que mantêm a sanidade do mundo e, como não poderia deixar de ser, a sua terra, Macapá. Seguindo o conselho de Tolstói, em meio à universalidade que é a internet, Elton soube muito bem pintar a sua aldeia com seu Blog De Rocha e com seu livro Crônicas de Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias. E pra terminar, como ele mesmo gosta de dizer: É isso!

Foto: Sal Lima

Serviço: O livro está à venda na Livraria Public (Villa Nova Shopping – Macapá).

O sentimento das coisas – O Carimbo

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Ele era moderno; dinâmico e, ao contrário dos mais antigos, tinha seu próprio reservatório de tinta embutido – não precisava se sujar naquelas esponjas coletivas, onde os velhos se embebiam de tinta e, muitas vezes, eram contaminados pelos germes de alguns dedos analfabetos. Estava acostumado ao trabalho duro, à mão pesada do funcionário que lhe usava. Porém um dia, quando aquele mesmo funcionário, que há três anos manuseava-o sempre com mão tão firme e precisa, resolveu empregar menos força para carimbar seus papéis, o carimbo se sentiu estranho e travou. Quase não reconheceu a mão que o segurava. Sentiu-se impotente. Aterrorizou-se quando, erguido da folha, viu sua impressão mais fraca que o normal e, naquele dia, ao final do expediente, quando todas as luzes se apagaram e todos os funcionários foram embora da repartição, o carimbo não dormiu tranquilo como os outros. Pensou que, talvez, aquela tivesse sido sua última impressão numa folha de papel…

Degelo

Degelo Fotos - Baixe imagens grátis - Pixabay

Em dezembro de 2020 eu completaria exatos nove anos de ausência neste blog. Caramba! É muito louco pensar que quase uma década se passou. Já são mais de 3 mil dias! E, no entanto, qual não foi minha surpresa a constatar nas estatísticas da página, visualizações e comentários recentes. Quer dizer, eu sempre tive um carinho muito grande por esse blog, mas achava que ele, assim como praticamente todos os outros blogs no mundo, estava morto e enterrado. Me enganei! Blogs ainda são lidos. O famigerado Twitter não conseguiu acabar com textos longos. Pessoas até leem livros! E vão continuar lendo ainda por muito e muito tempo…

Outro dia, entrei na página de administrador deste blog e comecei a reler um a um as poucas mais de 100 postagem que eu havia escrito. E depois de reler cada texto, rir com uns (e de uns), chorar com outros (e de outros), eliminei tudo aquilo que achei ultrapassado e deixei apenas o que ainda valia a pena ser lido. Sei lá, talvez um dia tudo isso sirva para alguma coisa.

Fato é que, quase nove anos depois estou aqui de volta, escrevendo (ou pelo menos tentando), em parte para matar saudades da minha época de jornalista, em parte para botar meus monstrinhos pra fora, enfim… escrever pelo prazer de escrever.

Por isso resolvi fazer o degelo desse blog assim, como se nada tivesse acontecido nesses oito anos e nove meses de ausência. E vamos ver no que vai dar…

Desejo de Natal

Hoje eu vou pedir em minhas orações que, de agora em diante, todos os dias seja dia de Natal.

Vou pedir para que todos os amigos e familiares distantes se reúnam para celebrar o amor e a vida. E que as crianças fiquem brincando até tarde da noite, enquanto esperam para ganhar presentes que surgem subitamente embaixo de suas camas.

(Também vou pedir para que todas as crianças, sem exceção, de agora em diante, tenham uma cama).

Vou pedir para que todos sorriam constantemente e desejem mutuamente os melhores votos de paz, amor e felicidade. Vou pedir também para que, mesmo aqueles que não crêem (ou assim o dizem) participem dessa emanação de boas vontades. E que mesmo aqueles que não partilhem das mesmas crenças sentem-se à mesma mesa e confraternizem.

Vou pedir, por fim, que, de agora em diante, as pessoas possam se olhar nos olhos sem receios ou ressentimentos e que, juntos, todos possam trabalhar por um mundo melhor.

CARTINHA DE AMOR ANTIGA

Meu amorzinho…

Inexoravelmente, chegou o tempo em que nossos cabelos se tornaram brancos como fios de algodão; nossos olhos têm a vista anuviada e nossos ouvidos não são mais tão atentos quanto antigamente. E nossos dentes, assim como nossos ossos, se tornaram fracos. Nossa pele enrugou e o os nossos anos vividos tornaram-se um pesado fardo que nos obriga a arrastarmos os nossos corpos já cansados, carecendo de amparo.

Há alguns anos nossos corpos não se unem mais, como nas antigas conjunções da carne, mas nunca deixei de gostar de permanecer de mãos dadas com você nem de sentir a maciez dos teus lábios tocando os meus, até hoje – em beijinhos delicados, sublimes, discretos e tímidos, como aquele que demos da primeira vez, quando nos conhecemos.

O tempo que outrora chamávamos de futuro chegou. A velhice é o nosso presente. Mas eu nunca tive medo de nada disso. Eu sempre soube que seria assim…

E apesar de tudo, minha amada… apesar da vista turva e de toda a decadência física a qual fatalmente se submete toda a humanidade, eu ainda te amo da mesma forma como no primeiro dia em que te vi naquela praça, irradiando sua beleza com aquele longo vestido vermelho e os cabelos dourados refletindo o sol de fim de tarde, quarenta e seis anos atrás.

O tempo passou. Mas todas as vezes que nos olhamos, sinto que o que vemos são aqueles jovens namorados que se encontraram pelas amarras do destino naquela praça do centro da cidade, no final da tarde, naquele dia em que todas as previsões indicavam o juízo final. O que vemos (e ouvimos) são os mesmos sorrisos e brincadeiras e bobagens sussurradas ao ouvido um do outro. E o que temos é aquela mesma certeza de que o nosso amor permanece eterno, como eternos são o tempo e a vida – o que ainda me dá segurança para dizer que irei te amar para sempre…

 

Para Lulih Rojanski,

07 de dezembro de 2057