Rainha do cangaço é homenageada em disco da Mini Box Lunar

Maria Bonita, o mito do cangaço, nasceu no dia 29 de julho de 1938 após a morte brutal da mulher Maria Gomes de Oliveira, a Maria de Déa, ou Maria do Capitão, ser anunciada nos principais jornais do Rio de Janeiro, então capital do país.
Doze anos antes, porém, com apenas 15 anos de idade, Maria casou-se (de casamento arranjado) com seu primo Zé de Neném, sapateiro, alcoólatra, adúltero e violento. A menina era espancada toda vez que questionava o comportamento do marido. Logo, por vingança e gênio forte, começou a ter diversos casos extraconjugais. Até que, em um dia qualquer do ano de 1929 conheceu o temido cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, rei do cangaço, tornando-se sua amante.
Ainda nesse mesmo ano decidiu fugir com Lampião e tornou-se a primeira mulher a ingressar no cangaço. Eles tiveram uma única filha e viveram juntos por nove difíceis anos, até serem mortos numa emboscada no dia 28 de julho de 1938. A morte de Maria foi um ato de covardia do volante (policial) José Panta de Godoy que, depois de acertar um tiro no abdômen e outro pelas costas, a decapitou ainda viva. E assim nascia Maria Bonita, nome que se popularizou com os jornais que noticiaram a morte de Maria, mas que jamais foi usado pelo bando ou por sua família.
Neste ano de 2022, completam-se 83 anos da morte da menina ultrajada e espancada que se tornou a rainha do cangaço.
Maria Bonita é o protótipo mais fiel da mulher nordestina que por muito tempo sofreu com as agruras da vida e se reinventou pela sua própria força e determinação. Uma mulher que foi capaz de amansar o coração da mais temida fera do sertão e que de tão apaixonado era capaz de lhe dar o mundo.
E pessoalmente para mim, que carrego o nome de um dos amigos do casal, que sempre os recebia em sua casa junto com todo o bando, quando estavam de passagem pelo sertão da Paraíba, foi uma grande surpresa ouvir o novo trabalho da banda amapaense Mini Box Lunar, que acabou de lançar o EP Maria Bonita, com 6 faixas que, de uma forma ou de outra, trazem referências a este ícone da cultura popular nordestina.
Começando pela capa que traz a belíssima arte gráfica de Rodrigo Aquiles, percebe-se de imediato que o álbum traz todas as cores e leveza da cultura popular, no azul celeste da seda e nas estrelas que ornavam os sertões e os chapéus dos cangaceiros; sem perder a força da feminilidade da mulher brasileira, representada pelas rendas, flores e pelo semblante sério de olhar penetrante no registro fotográfico em preto e branco de Maria.
O EP, que tem direção e produção musical de Otto Ramos, também é uma homenagem da banda ao produtor Carlos Eduardo Miranda – aquele que participava como jurado técnico do programa Ídolos, no SBT, e que morreu em 2018, tendo produzido e ajudado a levar o nome da Mini Box Lunar para todo o Brasil.
Contemplado pela Lei Aldir Blanc, por meio do Edital003/2020 da Secretaria de Estado de Cultura (Amapá), o disco, como já foi citado anteriormente, traz 6 faixas, abrindo com a música que dá título ao trabalho, Maria Bonita.
Antes de falar de cada música, para quem ainda não conhece o som da Mini Box, algumas informações ajudam a entender o clima que envolve este disco. A banda amapaense já tem mais de 15 anos de carreira, tendo participado de vários festivais do circuito alternativo. Atualmente é formada pelos músicos Heluana Quintas (vocais); Alexandre Avelar (guitarras); Ppeu Ramos (bateria/percussão); Helder Melo (baixo) e Otto Ramos (teclados/sintetizadores).
Toda a estética da banda remete ao grandes nomes do Tropicalismo – dos Mutantes a Tom Zé, passando pelos Novos Baianos e pelos Doces Bárbaros (Caetano, Gil, Gal e Bethânia) – mas também por experimentalismos da Vanguarda Paulistana (Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, entre outros) e com a pegada regionalista de ritmos do Pará e Amapá, como a guitarrada de Manoel Cordeiro, o brega pop de Wanderley Andrade e o marabaixo do Mestre Pavão e de Laura do Marabaixo (que faz uma participação toda especial na faixa “Festejo”.
Evidentemente, as influências da banda como um todo ultrapassam todas estas fronteiras citadas e transcende em uma musicalidade ao mesmo tempo doce, forte e alegre, boa de ouvir e de dançar.
Dito isto, vamos às músicas!
“Maria Bonita” é um frevinho bem compassado em marcha que vai chegando de mansinho e tomando de assalto todo o espaço – assim como faziam os cangaceiros ao invadir os pequenos povoados da caatinga. A música como um todo, lembra muito as cantigas tradicionais de ciranda muito populares no interior nordestino, especialmente na região de Paulo Afonso (BA), onde a rainha do cangaço nasceu e viveu até os 18 anos, quando fugiu com Virgulino. Destaque também para o arranjo de teclados e guitarra que fazem uma referência às tradicionais bandas de pífano daquela mesma região.
A segunda faixa, “Corra”, é uma espécie de ska que se funde com o brega paraense, trazendo, já de cara, um tom de alegria (ainda que sob frases imperativas). Gosto da letra em que, ao mesmo tempo que traz os tais imperativos tão comuns nas publicidades e redes sociais dos nossos tempos atuais, faz um chamado pra uma conversa ao pé do ouvido, naquele cantinho escuro do boteco, perto da vitrola.
Em “Festejo”, terceira faixa do disco, temos a participação de Laura do Marabaixo. O que me chamou atenção nesta música, além da referência sutil ao ritmo amapaense, foi o arranjo sobreposto por uma levada carnavalesca ao estilo dos Novos Baianos (inclusive a voz da Heluana Quintas lembra muito a da Baby nessa música) e, especialmente a sacada do refrão em que a banda consegue sair do lugar comum e faz com que Laura transcenda os cantos tradicionais do marabaixo e entre num clima bem próximo ao psicodelismo.
A quarta música é a minha preferida. “Fada”, é um samba-rock que nos traz uma certa saudade dos bons tempos do Jorge (quando ainda era só Ben) e do Simonal. Destaque para o cavaquinho de Jefferson Shory e para a guitarra de Alexandre Avelar que muito me lembrou Carlos Santana em “Samba Pa Ti”. A música traz ainda a participação de Elysson Perera nos backing vocals.
Elysson também participa da quinta música do disco, “Folk da Escada”, um folk rock com pegada foxtrote e country. A letra é uma das mais criativas de todo o disco. A música entra como que para lembrar que, mesmo com todos os experimentalismos, a Mini Box Lunar é, em essência, uma banda de rock – ainda que não reivindique nenhum rótulo para si.
Por fim, o disco volta para o universo do cancioneiro popular com “A Rosa”, numa releitura urbana da cantiga popular de ciranda do “Cravo e a Rosa”. O arranjo de teclados aqui é o que mais marca presença e faz com que o disco deixe um gostinho de “quero mais”.
Penso que Maria de Déa ficaria vaidosa com a homenagem e que Miranda, em algum universo paralelo, esteja, a essa altura, orgulhoso de ter conhecido e trabalhado com a Mini Box Lunar. Parabéns a todos os envolvidos no projeto!

FICHA TÉCNICA
Direção e produção Musical: Otto Ramos
A Mini Box Lunar é:
Heluana Quintas | https://www.instagram.com/heluana/
Alexandre Avelar | https://www.instagram.com/alexandre_d21/
Ppeu Ramos | https://www.instagram.com/ppeuramos/
Helder Melo | https://www.instagram.com/heldermelol…
Otto Ramos | https://www.instagram.com/ottoramos/
Participações:
Elysson Perera: Backvocals em Fada e Folk da Escada
Jefferson Shory: Cavaquinho
Laura do Marabaixo: Back Vocal em “Festejo”
Estúdio de Gravação: Poliphonic Records | https://www.instagram.com/casapolipho…
Design de Capa: Rodrigo Aquiles | https://www.instagram.com/rodrigoaqui…
Produção Executiva: Duas Telas Produções | https://www.instagram.com/2telasprodu…
Vídeo / Registro e Distribuição: Augusto Máximo | Go Augusto | https://www.instagram.com/go_augusto/

Em Infinito Migrar, Júnior Cordeiro derruba todas as fronteiras entre o sertão e o deserto

“Bismillah ar-rahmaan ar-raheem: Al-hamdu lillahi rabb al-alameen…” (“Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso: Louvado seja Deus, Senhor do Universo…”) – diz o beduíno, recitando o Corão, recurvado sobre a fina areia do deserto, voltado em direção à Meca, nas primeiras horas do fajr (a oração ao amanhecer).
“Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Para sempre seja louvado! Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo…” – diz o vaqueiro, olhando para o céu, com o chapéu de couro numa mão e fazendo o sinal da cruz com a outra, nas primeiras horas do raiar do dia.
Nas mesquitas distantes da África saariana, uma voz solitária entoa um canto de louvor e de lamento. Enquanto em meio ao burburinho da feira de mangaio, um cego repentista entoa um improviso:

“Vou viajar, na minha imigração
E quero passar no Japão
E ver a beleza de lá.
Pra Gibraltar,
Quero um cantador mouro,
Vestido em jibão de couro
Pra romper no alto-mar…”

Então desperto; abro os olhos e vejo que estou com o meu celular na mão e com os fones no ouvido, ouvindo Infinito Migrar, o oitavo disco de Júnior Cordeiro, antes de tudo, poeta; mas também cantador, cantor, compositor, escritor, roqueiro… um artista completo, enfim.
Nesse novo álbum, Júnior Cordeiro – músico que vem se destacando nacionalmente no cenário musical, referenciado por gente de peso, que entende de música, como o crítico musical Régis Tadeu – traz toda a magia do imaginário popular cordelista que mescla elementos da caatinga e do deserto em músicas fortes como um coice de jumento e suaves como os passos de um camelo.
O disco traz 13 faixas – todas de sua autoria – que repetem a receita de todos os discos anteriores de Cordeiro – no sentido de serem, todos, discos temáticos. Em Infinito Migrar, encontramos como tema principal essa influência mourisca-andaluza-lusitana no imaginário popular nordestino. E que mistura rica! Rica em timbres, melodia, ritmos e harmonias às vezes polifônicas, às vezes homofônicas, outras vezes dissonantes e frequentemente sampleadas e distorcidas – porque, afinal de contas, Infinito Migrar é, em essência, um disco de rock, onde a presença das guitarras melódicas e distorcidas de Giordano Frag mais uma vez são presença marcante.
De tão diversa e rica, a musicalidade de Júnior Cordeiro é difícil de ser definida. É rock progressivo regionalista? É xote-chachado-baião metalizado? É pop, balada, hard blues?… – impossível resumir a obra desse matuto com pinta de rock-star. Júnior Cordeiro é um músico “agênero” (se me permitem um neologismo) e atemporal.
Mas vamos falar do disco!

Já na capa, a artista plástica Leticia Pantoja concebeu e elaborou uma arte que, de alguma forma lembra a estética onírica do ibérico catalão Salvador Dali. A arte traz elementos que sintetizam, num único olhar, elementos como as areias do deserto, com as cores da caatinga; as águas do mediterrâneo (ou, quem sabe, do Rio Taperoá); uma ave migratória que tanto pode ser um gavião do Cariri quanto um falcão do deserto e parte de um rosto feminino, de lábios carmin-andaluz, cuja pele é marcada pelas andanças dos nômades (sertanejos ou tuaregues) representada por um mapa em marca d’água. Por fim, o quadro se fecha numa fachada em pórtico ao estilo de Alhambra.
A primeira faixa, intitulada “No Rastro da Lua (Blues Mourisco)”, começa com um repente à capela evocando Euterpe, deusa grega da poesia – o que, de certa forma, reforça as raízes caririzeiras de Cordeiro, natural de São João do Cariri (a Atenas do Cariri Velho). Além do repente, evoca a figura do mouros e beduínos em um arranjo que muito lembra uma psicodelia repaginada.
Na sequência imediata, a segunda faixa, “Dança dos Milênios”, entra como se fosse uma continuação da primeira e traz um refrão que beira o romantismo das cantigas de amigo dos menestréis medievais – e o mais importante: Sem ser piegas!
“Na Volta do Sonho”, a terceira faixa, é um rock pesado quase que no sentido tradicional da expressão. E essa trinca de músicas que abre o disco fecha a primeira quadra com “Entre a Cruz, a Lua e o Candelabro (Martelo Alagoano)”, numa mistura perfeita dos diatonismos árabes e nordestinos. Sem falar do refrão que ganha tons de pós-modernidade ao misturar galope rasante com um remix eletrônico – você acha isso impossível? Então você ainda não viu nem ouviu nada!
Se você alguma vez na vida se admirou da pequena miragem que o calor do sol faz em contato com o asfalto, numa estrada, dando-lhe uma aparência molhada, vai se identificar com a quinta faixa, “Miragem do Asfalto”, onde o solo de sax do Luiz Sarayva, consegue levar a urbanidade pro deserto e vice versa. Luiz Sarayva, aliás, está impecável também nas flautas que se destacam em “Temperada dos Trópicos”, sétima música (da qual vou falar daqui a pouco).
Antes vem a sexta, “Sem Lei, Nem Rei (O Eldorado)”, um baião que nos remete ao País de São Saruê de 1971 (e viva o cinema novo de Vladimir Carvalho!), além de evocar a lenda messiânica de Don Sebastião e o “Eldorado” de Pedra Bonita (e viva a literatura de José Lins do Rego!).
Em “Temperada dos Trópicos”, sétima faixa, além das flautas de Luiz Sarayva que remetem aos pífanos das feiras livres (tanto da península ibérica medieval quanto do nordeste hodierno), temos a presença da “galega”, termo que alude às mulheres da região da Galícia, na divisa de Espanha e norte de Portugal. O termo remete a pessoas (na música, especificamente à mulher) de pele clara com sangue mourisco, ou seja, ibéricos mestiços com árabes que povoam o noroeste da península desde o século IV d.C. E como não falar da presença do doce cello de Lais Oliveira?! Ela, já havia dado o ar de sua graça no disco anterior de Cordeiro (#CâmaraEco; 2021) e agora, com certeza, vem dar ainda mais leveza tanto em “Temperada dos Trópicos” quanto em “O Oito Deitado”, décima segunda música?! Mas “Temperada” é, não apenas, a mistura das galegas da Galícia, mas a própria mulher brasileira. E Júnior Cordeiro retrata muito bem tudo isso na letra da música.
“Suçuarana”, oitava música, traz a onça parda castanha que reina soberana nas matas nativas do sertão e nas obras de Ariano Suassuna. Seu porte de elegância esguia pode ser comparado ao da Moura Encantada, figura bastante popular do folclore lusitano que, assim como a suçuarana, devora suas presas depois de seduzi-las.
A nona música, “Infinito Migrar”, que dá nome e consistência ao disco é um tradicional galope a beira-mar (estilo de poesia popular nordestina) que dialoga com uma base totalmente hard-rock e que desemboca num galope rasante (outra vertente da poesia popular nordestina) – coisas de Cordeiro.
“Eterno Mar, Eterna Luta”, a décima, é um baião moderno misturado com hard-jazz – como eu disse antes, a musicalidade de Júnior Cordeiro é muito difícil de se encaixar em rótulos.
Finalmente, chegamos à última trinca, com “Freyriana Primeira (Galope Mourisco)”, a décima primeira faixa; “O Oito Deitado”, décima segunda e “Faminto de Mundo”, décima terceira e última.
“Freyriana” é um galope ligeiro que fala de elementos do folclore brasileiro, de expressões africanas e do universo mítico retratado em Casa Grande & Senzala, de Gilberto. Mas bem que poderia ser uma referência ao mesmo universo explorado pelo educador Paulo Freyre (conterrâneo de Gilberto) e que, em seus experimentos pedagógicos, buscava na tradição popular os elementos linguísticos mais adequados para alfabetizar as camadas mais pobres da população brasileira.
“O Oito Deitado” é uma música diferente. É quase uma rapsódia. É uma música dentro da outra. Começa com uma peleja de violeiros entre Júnior Cordeiro e o repentista Felipe Canário do Império (numa participação especialíssima), aos moldes de Zé Limeira, o Poeta do Absurdo e, quando menos se espera, se transforma num algo indefinido, suave e bruto, marcado pela percussão pulsante de Sandrinho Dupan, que dialoga com a bateria difusa de Kamillo Lima e com o cello de Lais.
Por fim, “Faminto de Mundo” fala de Pindorama, o paraíso perdido dos antigos povos tupis-guaranis. É uma música suave como o entardecer no Lagedo de Pai Mateus ou no Vale dos Reis de Gizé.
No fim, a sensação que fica é que os poucos mais de 6 mil quilômetros que separam o Cariri paraibano do deserto do Saara não é uma lonjura tão grande. E que nesse mundo de hoje, onde tanta gente ainda vive um “migrar infinito” sempre em busca de melhores condições de vida, as distâncias geográficas e as fronteiras étnicas e culturais precisam ser urgentemente derrubadas para que todos possam, quem sabe um dia, tratarem-se como irmãos, filhos de um mesmo Pai – seja este chamado de Javé, Oxum ou Alah.

FICHA TÉCNICA:
Músicos: Júnior Cordeiro (vozes e violões aço e nylon chorus), Giordano Frag (guitarras), Moisés Freire (viola de 12 e guitarras), Cris Lima (Teclados), Max Dias (baixo), Kamillo Lima (bateria), Luiz Sarayva (flautas), Sandrinho Dupan (percussões) e Laís Oliveira (Violoncelo).
DIREÇÃO MUSICAL E ARTÍSTICA: Júnior Cordeiro
PRODUÇÃO MUSICAL: Júnior Cordeiro e Moisés Freire
PRODUÇÃO EXECUTIVA: Alma Nua Produtora
ENGENHEIRO DE GRAVAÇÃO: Moisés Freire
MIXAGEM: Moisés Freire e Júnior Cordeiro
CONCEPÇÃO E ELABORAÇÃO DA ARTE DA CAPA: Leticia Pantoja
PROJETO GRÁFICO E ARTE FINAL: Álisson Lima
FOTOGRAFIA: Cássio Nogueira (Prysma Mídia)
ARREGIMENTAÇÃO: Júnior Cordeiro, Giordano Frag, Cris Lima e Moisés Freire

Gravado e mixado no MF Estúdio, em Campina Grande-PB, entre julho e novembro de 2021
Masterizado por Reco-Master

DISPONÍVEL EM TODAS AS PLATAFORMAS. EM BREVE TAMBÉM EM VINIL 180g

Quem cuidará?

Cultura… Uma palavra que vem da terra.

O latim, língua mãe da nossa língua, transformou o colere (de “vigiar, cuidar, acompanhar o crescimento de uma planta”) em cultura (de “colheita, agricultura”) dando também um sentido metafórico de “cuidado, ato de honrar”. Assim, tudo que vem, direta ou indiretamente, da terra – sejam plantas ou coisas do bicho-humano – é chamado de cultura.

Gosto da poesia que a metáfora primitiva nos proporciona ao nos fazer enxergar a cultura como um ato de cuidado e de honra, acima de todos os modismos e padrões impostos pela famigerada indústria cultural, goela abaixo de uma sociedade de consumo criada por essa mesma indústria e retroalimentada incessantemente pelos meios de comunicação de massa.

A arte, em todas as suas formas de expressão, e como produto genuíno de um povo, deve ser, acima de tudo, cuidada e honrada. E, uma vez que vivemos num modelo de organização social onde o Estado tem, como um de seus papeis, zelar pelos interesses do povo que o mantém, é seu dever – em todas as suas instâncias (federal, estadual e municipal) – cuidar e honrar a cultura de seu povo. Infelizmente, a realidade é bem diferente…

De um lado, vemos uma tendência geral da própria sociedade em diminuir a importância da cultura – sobretudo das artes – como resultado da industrialização e massificação dos chamados “produtos culturais”. De outro, uma gestão pública que burocratiza e engessa a coisa pública aos moldes de empresa – o que não é (ou, pelo menos, não deveria ser).

Para piorar mais um pouco, surge um novo cenário que pega todo mundo de surpresa – a pandemia – com o fechamento necessário de diversos segmentos funcionais da sociedade, incluindo é claro, os inúmeros estabelecimentos ligados à arte e cultura. Um contingente de artistas, técnicos e produtores culturais se viu totalmente desamparado de uma hora para outra.

Na música, dos mega-produtos do sertanejo, forró, axé, etc. até o músico da noite que bate cabeça de bar em bar aguentando porre e os técnicos de som e luz, todos tiveram suas agendas de trabalho canceladas. O mesmo se deu com as artes plásticas e cênicas que tiveram suas exposições e performances adiadas indefinidamente. Também não foi diferente para poetas e escritores que, já tendo uma enorme dificuldade para publicar seus trabalhos, tiveram que adiar até mesmo seus projetos independentes por causa da paralisação de editoras e gráficas.

Diversos países se apressaram a prestar apoio a estes trabalhadores – sim, artistas também são trabalhadores! – Aqui no Brasil, a pouca ajuda que veio, veio em conta-gotas ou em alguns casos – o que é pior – em cartas marcadas.

A Fundação Municipal de Cultura (Fumcult), aqui em Macapá, publicou em junho um edital de chamada pública para um “Prêmio Artístico Cultural em Tempo de Pandemia”. O resultado divulgado no último dia 23 de setembro mexeu com o ego artístico de muitos inscritos. E, logo, a polêmica se instalou nas redes sociais e na imprensa – como, naturalmente, já era de se esperar.

O edital tinha uns pontos cegos que já haviam gerado uma certa polêmica na época de sua publicação, mas o resultado da premiação divulgado no último dia 23 gerou uma reação de inconformismo, revolta e suspeita de favorecimentos ilícitos por parte de alguns artistas em relação ao diretor-presidente da Fumcult, Alain Cristophe que, logo em seguida, entregou o cargo.

Diante da sede da Fumcult, a poetisa Carla Nobre mostrou toda sua indignação com o resultado do certame. Num vídeo amador rapidamente espalhado na internet, a escritora alega falta de transparência no processo de curadoria e enfatiza que a classe artística não vai aceitar que ninguém “cague” em suas cabeças – “Não venham cagar em nossas cabeças!”, disse Carla.

A reação à fala da escritora foi vista de forma negativa e hipócrita por diversas pessoas. Acharam feio a poetisa falar palavrão. Por certo preferissem uma declamação de algum poema mais “limpinho” – o que me faz lembrar de Belchior em “Apenas um rapaz latino-americano” que dizia: “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve: Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém…”

Na minha opinião (e não deixando passar em branco o trocadilho), o que Carla fez diante da Fumcult foi tão nobre quanto seu sobrenome! Ela usou a palavra certa e adequada para expressara indignação de grande parte da classe artística que se sentiu mais uma vez órfã de apoio à cultura.

Em nenhum momento do vídeo Carla Nobre ataca a pessoa Alain Cristophe ou seus atributos sexuais, mas sua gestão – o que é bem diferente. Mas não demorou muito para que a coisa toda descambasse para o plano pessoal e, o que é pior, misógino…

Não ficou claro se foi o próprio Alain ou alguém que se ofendeu por ele, mas alguém se referiu à artista como “a fedorenta do sexo”. Numa postagem do Facebook, Carla Nobre escreveu: “Ser chamada de A FEDORENTA DO SEXO por gente que apoia quem caiu da cultura de Macapá hoje porque não sabe assinar documento, chega a ser elogio…”

Daí eu fico pensando: “Como é que um protesto legítimo de uma artista reivindicando seus direitos diante do poder público resvala para o terreno sexual?” Bem, sendo eu um psicanalista só posso dizer: “Freud explica!” Enquanto ainda me admiro da mentalidade machista que ainda perpassa todos os segmentos da nossa sociedade. Não importa se o sujeito é de direita ou de esquerda; se é reacionário ou de vanguarda; se tem “um nome a zelar” ou é um “Zé Povinho”, a verdade é uma só: Somos uma sociedade misógina, racista, homofóbica e cada vez mais aculturada. E se cultura é sinônimo de cuidar e honrar, infelizmente ainda estamos muito longe de encontrar alguém nesse cenário que assuma este tão virtuoso papel.

Penso, logo…

Dia Mundial da Liberdade de Pensamento | 14 de julho - Calendarr

… posso ser preso – pelo menos no país em que pensar é privilégio de poucos. Se ontem foi o Dia Internacional do Rock’n’roll – estilo musical que sempre foi símbolo da liberdade – hoje, pelo menos no calendário de efemérides do Brasil, é o Dia da Liberdade de Pensamento.

Em tese, é a liberdade que todos nós temos de manter e defender nossa posição diante de um fato, um ponto de vista ou uma ideia, independente das visões dos outros.

Está lá na Declaração Universal dos Direitos Humanos (artigo XVIII): “Todas as pessoas têm direito à liberdade de pensamento, consciência e religião”. E isso é tão elementar e importante para a democracia que vários países a incluíram em suas Constituições – até mesmo o Brasil de antigamente.

No Brasil atual, porém, a realidade é bem diferente e cada vez mais distante de tudo aquilo que está escrito na Carta Magna. Está cada vez mais difícil pensar nesse país. Está cada vez mais difícil de manter e defender nossa posição sem que alguém se sinta ofendido e nos acuse de estarmos fazendo propaganda político-ideológica – quando esse mesmo tipo de acusação é feito por outras pessoas totalmente idiotizadas por ideias político-ideológicas também.

Não importa se quem está na nossa frente é de direita ou de esquerda: A patrulha ideológica do “politicamente correto” está aí, para censurar nossa liberdade de pensamento e nossa liberdade de expressão.

Vinícius

Morte de Vinicius de Moraes | Acervo O POVO Online

Há 41 anos morria “O Poetinha”. Mas poeta não morre nunca. Nem a poesia! Hoje eu vi na Wikipedia que, no Brasil, 9 de julho é o Dia do Sonhador. Nada mais apropriado para um poeta que morreu exatamente nesta data, como a dizer que sua vida, sua obra e sua morte não passam de um sonho eterno… Viva Vinícius de Moraes!

Bons modos

Fiz-me elegante. Tornei-me obcecado por pontualidade e, com isso, um refém da espera pelos outros. Fiz-me gentil. Aprendi a conter meus gestos. Fui bem educado – pelos meus pais, pela sociedade… “Fale baixo”, “não discuta” – me diziam. E pouco a pouco, fui sendo podado pelos “bons modos”…

Aprendi a ser hipócrita, sempre evitando assuntos constrangedores. Aprendi a ser falsamente humilde, para jamais parecer arrogante. Fui forçado a tratar todos de igual para igual – imbecis, cretinos, idiotas, pessoas dignas e honradas. Tudo no mesmo saco. “O silêncio vale ouro” – me diziam – e fui obrigado a me calar.

Mas o silêncio me apavora e tudo que eu quero é gritar, insultar. Quanto mais intensos forem o atraso, o tom de voz ou o constrangimento imposto pelos outros, mais intenso é o meu desejo de explodir (literalmente) o miserável. Certa vez, Freud citando um escritor inglês, disse que “o primeiro homem a desfechar contra seu inimigo um insulto, em vez de uma lança, foi o fundador da civilização”. Concordo – apesar de que, algumas vezes, acho a barbárie mais coerente. Mas o que Freud explica com essa frase (e ele sempre explica) é que palavras podem substituir ações de modo satisfatório sem que ninguém vá para trás das grades por isso (no máximo uma indenização por danos morais)…

Por isso, hoje, prefiro ser visto como “deselegante” e “mal-educado” a ser visto como paciente em alguma ala psiquiátrica de um hospital qualquer. Libertei-me dos bons modos. O silêncio, pra mim, não vale nada. Hoje o que eu quero mesmo é gritar cada vez mais alto: “Filho da puta”!

Como diria Belchior…

A caveira do Belchior deve querer arrancar os fios espessos do seu bigodão cada vez que, lá do além, vê alguém, aqui do aquém, ficar repetindo suas frases totalmente fora de contexto nas redes sociais só pra parecer inteligente. É o caso da já batida frase “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”… – frase que, aliás ele tomou emprestada do cordelista paraibano Zé Limeira.
Lembro bem o quanto me incomodou o fato de as mentes geniais da internet, lá no início da pandemia, por volta de março de 2020, ficarem repetindo “O dia em que a terra parou”, de Raul Seixas e Cláudio Roberto, como tendo sido uma grande profecia. Coisa de gente que mal conhece a obra e as ideias do Maluco Beleza e que grita “toca Raul” até em show de crente, querendo ser o diferentão descolado… Foda-se! Não tenho paciência pra esse tipo de cretinice.
A porra da Terra não parou! Devia ter parado, mas não parou! Principalmente no Brasil, o empregado, fodido, continuou saindo pro seu trabalho, porque não tinha nenhuma garantia de receber o tal auxílio emergencial. A dona de casa continuou saindo pra comprar pão pois o coitado do padeiro também tava lá, firme e forte. O guarda saiu para prender e o ladrão continuou roubando normalmente. Nas igrejas, alguns sinos não bateram, mas os pastores continuaram pregando a desinformação e a vigarice sem parar, porque os fiéis são fiéis, afinal de contas. O aluno não saiu para estudar. Mas porque esses nunca estudam porra nenhuma mesmo. Os professores ficaram lá no Whatsapp, fingindo que estavam dando aula enquanto os pais dos alunos fingiam que eram os filhos estudando. O comandante e a turma do quartel não saíram pra guerra porque tiveram que ficar estocando latas de leite condensado. Muitos pacientes não saíram pra se tratar porque os hospitais não tinham mais leito disponível e outros voltaram pra casa com uma receita de cloroquina. E por aí vai…
Voltando para Belchior, a turma que só tem, no máximo, 2 bits de inteligência acreditou que a frase “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” era um grande achado, uma vez que 2020 foi um ano difícil e 2021 seria um ano mágico, com todo mundo tomando vacina e bebendo leite condensado. Aí entrou janeiro e tivemos aumento nos números de casos da covid-19.1 (atualização do vírus já com a nova cepa), enquanto o Bostão se esbaldava no Guarujá com seu séquito de puxa-sacos; a Ford fechando a produção e deixando 5 mil trabalhadores desempregados; mais 5 mil bancários do BB também desempregados; o Amazonas sem oxigênio; 100 milhões de infectados no mundo e… só quem tomou leite condensado foi o Governo Federal – as latas que sobraram foram todas pro cu da imprensa e a população ficou só gritando “mito, mito, mito”…
Aí você, que leu esse texto até aqui, agora ficou puto porque eu disse que a população ficou gritando “mito”? E eu pergunto: E não foi? Ou você acredita mesmo que alguma coisa mudou no reino da Brasilândia? Viram a festa que fizeram para recebê-lo em Alagoas? No fundo você sabe que não haverá impeachment coisa nenhuma. É mais fácil ter Carnaval esse ano!
Falando em Carnaval, lembrei de um ditado que dizia: “O Brasileiro não se preocupa com a sua história, porque o que acontecer hoje, amanhã pode virar enredo de escola de samba” – ou meme…
Presentemente, eu posso me considerar um sujeito de sorte. Porque, apesar de muito moço, me sinto são e salvo e forte. E tenho, comigo, pensado: “Se Deus é brasileiro, já deve ter imigrado”. E, assim, já não posso garantir que não vou sofrer como no ano passado. Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro com tanta morte e descaso. E pra quem tem alguma esperança ainda de que esse ano vai ser melhor como num passe de mágica, eu digo em alto e bom som: Ano passado, é minha pica… Mas esse ano é meu ovo!

Impeachment: Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come…

Impeachment é um processo político-criminal instaurado por denúncia no Congresso para apurar a responsabilidade do presidente da República, governador, prefeito, ministro do Supremo Tribunal ou de qualquer outro funcionário de alta categoria, por grave delito ou má conduta no exercício de suas funções, cabendo ao Senado, se procedente a acusação, aplicar ao infrator a pena de destituição do cargo.

A denúncia pode ser a de evidente existência de organização criminosa, ou ainda, por crime comum; crime de responsabilidade; abuso de poder; desrespeito às normas constitucionais ou violação de direitos pétreos previstos na Constituição.

Em 1955, a Câmara dos Deputados e o Senado votaram pelo impedimento dos presidentes Carlos Luz e Café Filho, apesar de não ser seguida a Lei do Impeachment, pois os deputados e os senadores entenderam que a situação era extremamente grave, com risco de guerra civil, e finalizaram os julgamentos em poucas horas, sem dar aos presidentes o direito de se defenderem na Câmara e no Senado, casos que são pouco conhecidos pela população brasileira. Em 29 de dezembro de 1992, Fernando Collor, renunciou pouco antes de ser condenado no processo de impeachment, tornando-se inelegível por oito anos. Finalmente, em 31 de agosto de 2016, Dilma Rousseff foi cassada, tornando-se a primeira pessoa na presidência a ser destituída por impeachment.

Ultimamente tem-se falado em impeachment contra Bolsonaro. A oposição tem argumentos fortes para isso. Segundo postagens nas redes sociais recentes de Ciro Gomes – que já está em plena campanha eleitoral para 2022 – o processo legal já foi iniciado, faltando agora, apenas, a mobilização popular.

Neste momento político que o país atravessa, o impeachment de Bolsonaro é mais do que necessário – é vital! O problema é quem assume com a sua saída. Porque tirar o “capitão” para colocar o “general”, é o mesmo que trocar seis por meia dúzia. Nada muda, uma vez que a ideologia de um e a mesma do outro. Então, estamos naquela “sinuca de bico”: Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come. Qual seria, então uma solução possível?

Bem, as soluções são muitas – bomba, veneno, leite com manga… Mas uma solução possível seria, sem dúvida, uma revolta popular sem precedentes na história do Brasil. Daquelas que nunca vimos efetivamente acontecer, porque, como diria Sérgio Buarque de Holanda, somos um povo “cordial” – não no sentido da afetuosidade da boa educação, mas no sentido da afetuosidade dos interesses pessoais, isto é, “aos amigos, tudo. Aos outros, a lei”.

Ficamos então, assim, como sempre, nas mãos dos poderosos; daqueles que têm poder de decisão. Poucas foram as vezes em que o povo, por meio de mobilização popular, mudou alguma coisa aqui no Brasil, principalmente na história recente. Senão vejamos: Aquilo que alguns chamam de Revolução de 64 não passou de um golpe militar; as Diretas Já foram organizadas por elites partidárias; o impeachment de Collor teve forte influência dos conglomerados de comunicação, assim como aconteceu com Dilma Rousseff, etc.

O povo mesmo – o “Zé Povinho”, como dizem alguns – que vive nas baixadas, nas favelas, nas periferias em geral, não está preocupado com mobilização social porque tem que voltar com o pão pra casa depois de uma dura jornada de trabalho. A dita “classe média” acredita que soltar memes, fakes news e xingamentos nas redes sociais é algo mais politizado e mais útil do que ir pra rua e “quebrar tudo” como os “baderneiros”. Finalmente, a classe alta, como sempre aconteceu, assiste a todo o espetáculo da plebe do alto de seus camarotes aristocráticos.

Fato é que, enquanto as pessoas não aprenderem, de uma vez por todas, que a política partidária – seja de direita ou de esquerda – é uma política perversa movida por interesses escusos, nada vai mudar. Isso não se trata daquelas velhas utopias anarquistas de um mundo idealizado “sem governo, sem polícia, sem patrão”. Trata-se de mostrar ao povo que ele é, sim, capaz de se autogerir sem depender do vereador, do prefeito, do governador, etc. reduzindo a atuação do Estado para o mínimo imprescindível, isto é, para o bem-estar geral da população.

Não vou me estender com exemplos de como isso poderia acontecer. Talvez fique para outro momento. Encerro por aqui dizendo que eu só tenho uma certeza em relação à situação do povo brasileiro na atual conjuntura: Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come. Mas se o povo se unir de verdade e do jeito certo, os bichos somem!