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Dia Mundial da Liberdade de Pensamento | 14 de julho - Calendarr

… posso ser preso – pelo menos no país em que pensar é privilégio de poucos. Se ontem foi o Dia Internacional do Rock’n’roll – estilo musical que sempre foi símbolo da liberdade – hoje, pelo menos no calendário de efemérides do Brasil, é o Dia da Liberdade de Pensamento.

Em tese, é a liberdade que todos nós temos de manter e defender nossa posição diante de um fato, um ponto de vista ou uma ideia, independente das visões dos outros.

Está lá na Declaração Universal dos Direitos Humanos (artigo XVIII): “Todas as pessoas têm direito à liberdade de pensamento, consciência e religião”. E isso é tão elementar e importante para a democracia que vários países a incluíram em suas Constituições – até mesmo o Brasil de antigamente.

No Brasil atual, porém, a realidade é bem diferente e cada vez mais distante de tudo aquilo que está escrito na Carta Magna. Está cada vez mais difícil pensar nesse país. Está cada vez mais difícil de manter e defender nossa posição sem que alguém se sinta ofendido e nos acuse de estarmos fazendo propaganda político-ideológica – quando esse mesmo tipo de acusação é feito por outras pessoas totalmente idiotizadas por ideias político-ideológicas também.

Não importa se quem está na nossa frente é de direita ou de esquerda: A patrulha ideológica do “politicamente correto” está aí, para censurar nossa liberdade de pensamento e nossa liberdade de expressão.

Vinícius

Morte de Vinicius de Moraes | Acervo O POVO Online

Há 41 anos morria “O Poetinha”. Mas poeta não morre nunca. Nem a poesia! Hoje eu vi na Wikipedia que, no Brasil, 9 de julho é o Dia do Sonhador. Nada mais apropriado para um poeta que morreu exatamente nesta data, como a dizer que sua vida, sua obra e sua morte não passam de um sonho eterno… Viva Vinícius de Moraes!

Bons modos

Fiz-me elegante. Tornei-me obcecado por pontualidade e, com isso, um refém da espera pelos outros. Fiz-me gentil. Aprendi a conter meus gestos. Fui bem educado – pelos meus pais, pela sociedade… “Fale baixo”, “não discuta” – me diziam. E pouco a pouco, fui sendo podado pelos “bons modos”…

Aprendi a ser hipócrita, sempre evitando assuntos constrangedores. Aprendi a ser falsamente humilde, para jamais parecer arrogante. Fui forçado a tratar todos de igual para igual – imbecis, cretinos, idiotas, pessoas dignas e honradas. Tudo no mesmo saco. “O silêncio vale ouro” – me diziam – e fui obrigado a me calar.

Mas o silêncio me apavora e tudo que eu quero é gritar, insultar. Quanto mais intensos forem o atraso, o tom de voz ou o constrangimento imposto pelos outros, mais intenso é o meu desejo de explodir (literalmente) o miserável. Certa vez, Freud citando um escritor inglês, disse que “o primeiro homem a desfechar contra seu inimigo um insulto, em vez de uma lança, foi o fundador da civilização”. Concordo – apesar de que, algumas vezes, acho a barbárie mais coerente. Mas o que Freud explica com essa frase (e ele sempre explica) é que palavras podem substituir ações de modo satisfatório sem que ninguém vá para trás das grades por isso (no máximo uma indenização por danos morais)…

Por isso, hoje, prefiro ser visto como “deselegante” e “mal-educado” a ser visto como paciente em alguma ala psiquiátrica de um hospital qualquer. Libertei-me dos bons modos. O silêncio, pra mim, não vale nada. Hoje o que eu quero mesmo é gritar cada vez mais alto: “Filho da puta”!

Como diria Belchior…

A caveira do Belchior deve querer arrancar os fios espessos do seu bigodão cada vez que, lá do além, vê alguém, aqui do aquém, ficar repetindo suas frases totalmente fora de contexto nas redes sociais só pra parecer inteligente. É o caso da já batida frase “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”… – frase que, aliás ele tomou emprestada do cordelista paraibano Zé Limeira.
Lembro bem o quanto me incomodou o fato de as mentes geniais da internet, lá no início da pandemia, por volta de março de 2020, ficarem repetindo “O dia em que a terra parou”, de Raul Seixas e Cláudio Roberto, como tendo sido uma grande profecia. Coisa de gente que mal conhece a obra e as ideias do Maluco Beleza e que grita “toca Raul” até em show de crente, querendo ser o diferentão descolado… Foda-se! Não tenho paciência pra esse tipo de cretinice.
A porra da Terra não parou! Devia ter parado, mas não parou! Principalmente no Brasil, o empregado, fodido, continuou saindo pro seu trabalho, porque não tinha nenhuma garantia de receber o tal auxílio emergencial. A dona de casa continuou saindo pra comprar pão pois o coitado do padeiro também tava lá, firme e forte. O guarda saiu para prender e o ladrão continuou roubando normalmente. Nas igrejas, alguns sinos não bateram, mas os pastores continuaram pregando a desinformação e a vigarice sem parar, porque os fiéis são fiéis, afinal de contas. O aluno não saiu para estudar. Mas porque esses nunca estudam porra nenhuma mesmo. Os professores ficaram lá no Whatsapp, fingindo que estavam dando aula enquanto os pais dos alunos fingiam que eram os filhos estudando. O comandante e a turma do quartel não saíram pra guerra porque tiveram que ficar estocando latas de leite condensado. Muitos pacientes não saíram pra se tratar porque os hospitais não tinham mais leito disponível e outros voltaram pra casa com uma receita de cloroquina. E por aí vai…
Voltando para Belchior, a turma que só tem, no máximo, 2 bits de inteligência acreditou que a frase “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” era um grande achado, uma vez que 2020 foi um ano difícil e 2021 seria um ano mágico, com todo mundo tomando vacina e bebendo leite condensado. Aí entrou janeiro e tivemos aumento nos números de casos da covid-19.1 (atualização do vírus já com a nova cepa), enquanto o Bostão se esbaldava no Guarujá com seu séquito de puxa-sacos; a Ford fechando a produção e deixando 5 mil trabalhadores desempregados; mais 5 mil bancários do BB também desempregados; o Amazonas sem oxigênio; 100 milhões de infectados no mundo e… só quem tomou leite condensado foi o Governo Federal – as latas que sobraram foram todas pro cu da imprensa e a população ficou só gritando “mito, mito, mito”…
Aí você, que leu esse texto até aqui, agora ficou puto porque eu disse que a população ficou gritando “mito”? E eu pergunto: E não foi? Ou você acredita mesmo que alguma coisa mudou no reino da Brasilândia? Viram a festa que fizeram para recebê-lo em Alagoas? No fundo você sabe que não haverá impeachment coisa nenhuma. É mais fácil ter Carnaval esse ano!
Falando em Carnaval, lembrei de um ditado que dizia: “O Brasileiro não se preocupa com a sua história, porque o que acontecer hoje, amanhã pode virar enredo de escola de samba” – ou meme…
Presentemente, eu posso me considerar um sujeito de sorte. Porque, apesar de muito moço, me sinto são e salvo e forte. E tenho, comigo, pensado: “Se Deus é brasileiro, já deve ter imigrado”. E, assim, já não posso garantir que não vou sofrer como no ano passado. Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro com tanta morte e descaso. E pra quem tem alguma esperança ainda de que esse ano vai ser melhor como num passe de mágica, eu digo em alto e bom som: Ano passado, é minha pica… Mas esse ano é meu ovo!

Impeachment: Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come…

Impeachment é um processo político-criminal instaurado por denúncia no Congresso para apurar a responsabilidade do presidente da República, governador, prefeito, ministro do Supremo Tribunal ou de qualquer outro funcionário de alta categoria, por grave delito ou má conduta no exercício de suas funções, cabendo ao Senado, se procedente a acusação, aplicar ao infrator a pena de destituição do cargo.

A denúncia pode ser a de evidente existência de organização criminosa, ou ainda, por crime comum; crime de responsabilidade; abuso de poder; desrespeito às normas constitucionais ou violação de direitos pétreos previstos na Constituição.

Em 1955, a Câmara dos Deputados e o Senado votaram pelo impedimento dos presidentes Carlos Luz e Café Filho, apesar de não ser seguida a Lei do Impeachment, pois os deputados e os senadores entenderam que a situação era extremamente grave, com risco de guerra civil, e finalizaram os julgamentos em poucas horas, sem dar aos presidentes o direito de se defenderem na Câmara e no Senado, casos que são pouco conhecidos pela população brasileira. Em 29 de dezembro de 1992, Fernando Collor, renunciou pouco antes de ser condenado no processo de impeachment, tornando-se inelegível por oito anos. Finalmente, em 31 de agosto de 2016, Dilma Rousseff foi cassada, tornando-se a primeira pessoa na presidência a ser destituída por impeachment.

Ultimamente tem-se falado em impeachment contra Bolsonaro. A oposição tem argumentos fortes para isso. Segundo postagens nas redes sociais recentes de Ciro Gomes – que já está em plena campanha eleitoral para 2022 – o processo legal já foi iniciado, faltando agora, apenas, a mobilização popular.

Neste momento político que o país atravessa, o impeachment de Bolsonaro é mais do que necessário – é vital! O problema é quem assume com a sua saída. Porque tirar o “capitão” para colocar o “general”, é o mesmo que trocar seis por meia dúzia. Nada muda, uma vez que a ideologia de um e a mesma do outro. Então, estamos naquela “sinuca de bico”: Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come. Qual seria, então uma solução possível?

Bem, as soluções são muitas – bomba, veneno, leite com manga… Mas uma solução possível seria, sem dúvida, uma revolta popular sem precedentes na história do Brasil. Daquelas que nunca vimos efetivamente acontecer, porque, como diria Sérgio Buarque de Holanda, somos um povo “cordial” – não no sentido da afetuosidade da boa educação, mas no sentido da afetuosidade dos interesses pessoais, isto é, “aos amigos, tudo. Aos outros, a lei”.

Ficamos então, assim, como sempre, nas mãos dos poderosos; daqueles que têm poder de decisão. Poucas foram as vezes em que o povo, por meio de mobilização popular, mudou alguma coisa aqui no Brasil, principalmente na história recente. Senão vejamos: Aquilo que alguns chamam de Revolução de 64 não passou de um golpe militar; as Diretas Já foram organizadas por elites partidárias; o impeachment de Collor teve forte influência dos conglomerados de comunicação, assim como aconteceu com Dilma Rousseff, etc.

O povo mesmo – o “Zé Povinho”, como dizem alguns – que vive nas baixadas, nas favelas, nas periferias em geral, não está preocupado com mobilização social porque tem que voltar com o pão pra casa depois de uma dura jornada de trabalho. A dita “classe média” acredita que soltar memes, fakes news e xingamentos nas redes sociais é algo mais politizado e mais útil do que ir pra rua e “quebrar tudo” como os “baderneiros”. Finalmente, a classe alta, como sempre aconteceu, assiste a todo o espetáculo da plebe do alto de seus camarotes aristocráticos.

Fato é que, enquanto as pessoas não aprenderem, de uma vez por todas, que a política partidária – seja de direita ou de esquerda – é uma política perversa movida por interesses escusos, nada vai mudar. Isso não se trata daquelas velhas utopias anarquistas de um mundo idealizado “sem governo, sem polícia, sem patrão”. Trata-se de mostrar ao povo que ele é, sim, capaz de se autogerir sem depender do vereador, do prefeito, do governador, etc. reduzindo a atuação do Estado para o mínimo imprescindível, isto é, para o bem-estar geral da população.

Não vou me estender com exemplos de como isso poderia acontecer. Talvez fique para outro momento. Encerro por aqui dizendo que eu só tenho uma certeza em relação à situação do povo brasileiro na atual conjuntura: Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come. Mas se o povo se unir de verdade e do jeito certo, os bichos somem!

Os ecos da câmara de eco

Os sinais estão por toda parte. Eles estão aí para serem vistos, lidos, interpretados e para nos mostrar que tudo está conectado. Uma borboleta pousa displicentemente sobre um número 7 que está inscrito na placa de um carro. Mas o 7 não está só. Ele faz parte de um número maior: 971. Então, ao me deparar com essa imagem captada pelas lentes da artista plástica Renata Cabral para a capa do novo disco do poeta e cantador paraibano Júnior Cordeiro, um aluvião de ideias e imagens simbólicas toma conta do meu cérebro e eu, como mero aprendiz do Bruxo do Cariri Velho, tento decifrar mais uma vez os enigmas dessa feitiçaria meio cigana, meio cabocla-cibernética que o poeta nos apresenta.

A borboleta é o símbolo da transformação. O 7 é o número que traz a energia da análise, da introspecção; mas também é o número dos vícios, do sarcasmo e da solidão. O 7, inscrito numa placa de carro, também me faz recordar da carta de número 7 do Tarô, o Carro, com seu significado de vitória, triunfo e realização. E o número 971 tem a energia da soma dos seus algarismos que, pelas leis da Numerologia Pitagórica, resultam no 8 (971 = 9+7+1 = 17 = 1+7 = 8). O 8 é o número que representa o infinito e as verdades universais. Daí que, diante disso tudo, eu só posso enxergar que o disco de número 7 da carreira de Júnior Cordeiro, traz em si toda a energia das transformações infinitas pelas quais passamos nestes últimos tempos. Tempos marcados por uma pandemia virulenta que nos obrigou a todos (ou pelo menos à maioria) a vivenciar um estado de autoanálise e introspecção, presos nas cerquilhas das rashtags que nos encurralam e nos jogam numa #câmaraeco. Ainda que não tenhamos nos livrado completamente dos vícios do narcisismo causado pelas redes sociais; do sarcasmo dos nossos governantes e da solidão de um mundo conectado digitalmente e, ao mesmo tempo, tão desconectado afetivamente.

Então começo a ouvir o disco, que já está disponível em todas as plataformas digitais desde o dia 2 de janeiro e também em vinil 180g – como comemoração pelos seus 15 anos de carreira. O 7° disco de Júnior Cordeiro tem a produção musical dele e de Moisés Freire. Cordeiro também assina todas as composições e a direção musical, além de dividir os créditos da direção artística com a artista plástica Renata Cabral – a Renata, aliás, está de parabéns pela foto e concepção da capa. Cordeiro divide ainda os créditos de todos os arranjos das 13 músicas contidas no disco com os parceiros Moisés Freire, Cris Lima e o virtuose Giordano Frag.

Fotografia: Jordy Ribeiro

Todo o disco traz a marca da mistura do rock psicodélico com regionalismos que vem se consolidando em cada trabalho de Júnior Cordeiro. Musicalmente, é possível identificar toda a riqueza melódica e rítmica do cancioneiro tradicional popular nordestino, em especial os repentes e emboladas dos violeiros, bem como o estilo contemporâneo de nomes como Alceu Valença e Zé Ramalho, além do folk, do blues, do jazz e do rock mais pesado norte-americano. Cordeiro consegue captar e misturar muito bem, através de arranjos altamente criativos, as raízes culturais dos rios Hudson e Mississipi com as águas do São Francisco e do Paraíba.

Já em suas letras, autores importantes como Bauman, Dostoiévski, Foucault, Rousseau e Sérgio Buarque de Holanda, entre outros, dialogam tranquilamente com Cego Aderaldo, Zé Limeira, Patativa, etc. E é, justamente, nesse clima, que o disco é aberto com o rock psicodélico Não Faz Muito Tempo, que lembra muito os experimentalismos lisérgicos de Alceu Valença no show “Vou Danado Pra Catende”.

Na sequência, a belíssima Quando a Gente Ainda Revelava Fotos – de longe, a minha preferida! – com a presença marcante do cello de Lalá Oliveira que lembra as intervenções de violino do disco Desire, de Dylan (1976). Além de uma letra quase cinematográfica de tão imagética.

Apesar do disco ter sido todo composto, produzido e gravado em meio à pandemia de covid-19 que assola o mundo desde 2020, Junior Cordeiro diz que este não é um disco temático sobre a pandemia. Porém, como os trabalhos anteriores que ele vinha fazendo, #CâmaraEco traz como temática central pós-modernidade líquida e globalizante, o narcisismo e o individualismo hodierno – alguns dos assuntos preferidos do poeta. Mas, mesmo não tendo a pandemia como tema central ou pano de fundo, é impossível não fazer relações, como na música de trabalho Conexão Amor, que fala, sobretudo, das relações intensas vividas neste mundo líquido – como diria Bauman – e que podem se desfazer num clique ou numa queda de sinal do wi-fi.

A música de número 4 é, simplesmente, genial. Em O Vira-Lata do Sul, o poeta consegue fazer uma autocrítica de nossa brasilidade inspirado no modelo do “brasileiro cordial”, descrito por Sérgio Buarque de Holanda, e do nosso “complexo de vira-lata” cunhado por Nelson Rodrigues, numa letra atualíssima e vigorosa, que faz ferver nosso sangue latino, apesar do arranjo soul-funk americano e da guitarra matadora de Giordano Frag.

Aliás, antes de continuar falando das outras músicas, devo dizer que a banda base que acompanha Júnior Cordeiro está afinadíssima com a proposta do trabalho e consegue nos presentear com um som de primeira qualidade. A banda é formada por Moisés Freire (viola e guitarra); Giordano Frag (guitarras); Cris Lima (teclado e arranjo de cordas); Max Dias (baixo); Kamillo Lima (bateria); Sandrinho Dupan (percussão); Lalá Oliveira (cello) e Luiz Saraiva (flauta e sax).

Voltando à sequência das músicas, a quinta faixa, Retrotópica é um soco no estômago que entra com um peso quase heavy-metal e parece ser uma segunda parte de O Vira-Lata do Sul.

A sexta música, Ando Com Vontade de Ser Feto Novamente, é uma balada quase psicanalítica, marcada por um belo arranjo de sax, executado com maestria por Luiz Saraiva.

O Andarilho (Mourão Perguntado) é, como o nome já diz, inspirado num estilo de poesia popular nordestina onde dois repentistas dialogam através de perguntas. E a escolha de Cordeiro para fazer o duelo da cantoria nesta sétima faixa não podia ter sido melhor do que Silvério Pessoa (ex-Cascabulho), que trouxe um toque do bom e velho manguebeat pernambucano para o repente caririseiro de Cordeiro. Dá vontade de sair pulando numa roda de ciranda com maracatu.

A música de número 8 é #CâmaraEco. É ela que dá nome ao disco e, segundo Júnior Cordeiro, deve ser pronunciado “rashtag-câmara-eco”, numa clara crítica do artista à ditadura dos algoritmos das redes sociais, onde as coisas só ganham importância se vierem precedidas da cerquilha (#), este símbolo que nos cerca e nos tranca como num cômodo fechado, numa câmara de eco, onde tudo que ouvimos é apenas o discurso repetido do nosso Narciso a ecoar. E como todo o disco, essa música, em especial, mostra essa dissociação da realidade em que vivemos.

Este mesmo tema retorna brevemente na música de número 10, #mundo #medo #lindo e na música de número 13, que fecha o disco, #ressentida.

Em O Mundo Não Precisa Ver, Júnior Cordeiro revisita um estilo já explorado em discos anteriores: Uma balada romântica com leves toques de blues e jazz ressaltados pelo piano intimista de Cris Lima.

Na 11ª faixa, intitulada Só, Demasiado Só, temos também uma releitura de outros trabalhos anteriores de clara inspiração “ramalhiana”, com aquele compasso quase ibérico de canções como “Vila do Sossego” e “Falas do Povo”.

Por fim, na música de número 12, Uma Selfie para Sísifo, Cordeiro mostra a que veio numa música brevíssima, porém rica em ritmo, letra e melodia.

Como eu disse lá no início, os sinais estão em toda parte e eu penso que a minha leitura dos sinais que vi na capa de #CâmaraEco não poderiam ser mais claros: O sétimo disco de Júnior Cordeiro o coloca triunfante e vitorioso (como na carta O Carro, do Tarô), no hall dos grandes artistas da música paraibana contemporânea.
Para quem não conhece, vale muito a pena conhecer o trabalho do Bruxo do Cariri Velho. #FICADICA

Fotografia: Jordy Ribeiro

Ficha Técnica

Produção musical: Júnior Cordeiro e Moisés Freire
Direção musical: Júnior Cordeiro
Direção artística: Júnior Cordeiro e Renata Cabral
Foto e concepção da capa: Renata Cabral
Fotografia: Jordy Ribeiro
Gravado e Mixado entre julho e dezembro de 2020
Masterizado por Recomaster/São Paulo

Todas as canções são da autoria de Júnior Cordeiro

Arranjos: Júnior Cordeiro, Moisés Freire, Cris Lima e Giordano Frag

*Participação especial de Silvério Pessoa em O Andarilho (Mourão Perguntado)

Banda base
Moisés Freire: Viola e guitarra
Giordano Frag: Guitarras
Cris Lima: Teclado e arranjo de cordas
Max Dias: Baixo
Kamillo Lima: Bateria
Sandrinho Dupan: Percussão
Lalá Oliveira: Cello
Luiz Saraiva: Flauta e sax

Disponível em: https://open.spotify.com/album/13aXeNYDj6NpxVnEhjlOqL?si=vrvKppfmQLOTTiqlOB0k8g

A SITUAÇÃO TÁ FORD E A TENDÊNCIA É PIORAR!

A semana começou agitada e ainda com o gostinho amargo das más notícias de 2020: O Banco do Brasil anunciou, nesta segunda-feira (12/01), mais uma reestruturação que vai mexer com a vida de, pelo menos, 5 mil funcionários em todo o país. Serão 870 postos de atendimento fechados (incluindo agências e escritórios) e 243 agências transformadas em postos de atendimento (que agora se chamarão “lojas”). Além desses bancários, outros 5 mil trabalhadores da Ford ficarão sem emprego com o fechamento das 3 fábricas da gigante norte-americana que operam no país (uma no interior de São Paulo; uma no interior da Bahia e outra no interior do Ceará).
Mas podemos ficar todos tranquilos. Afinal, o Brasil que elegeu Bolsonaro em 2018 é um país de empreendedores. Assim, uma possibilidade seria: O pessoal da Ford no Ceará, monta uma grande companhia de humor ou um conglomerado de bandas de forró e arrocha. A turma da Bahia abre uma cooperativa para vender coco e o grupo de Taubaté cuida da logística dos artistas cearenses e dos vendedores de coco da Bahia. Daí, todo o dinheiro que conseguirem arrecadar pode ser investido numa corretora de investimentos cooperada montada pelos ex-bancários. Pronto! É a economia do nosso país cada vez mais forte! #SÓQUENÃO
O fato é que a situação está cada vez mais FORD e a tendência é piorar. Na verdade, a corja do Executivo está desmontando os poucos avanços no setor da indústria, que começavam a colocar o Brasil no hall dos melhores países emergentes, para transformá-lo novamente num país rural – mas não como outros grandes países que possuem um agrobusiness forte e, sim, aos moldes das antiquíssimas capitanias hereditárias.
Tendo que pagar os dotes da bancada ruralista, o governo brasileiro insiste em fazer do Brasil um país de insumos agropecuários, afugentando os grandes investidores dos outros setores (indústria e serviços) e desvalorizando a nossa moeda cada vez mais, a ponto do dólar não sair da casa dos R$5 e o euro da casa dos R$6.
Finalmente o plano do Paulo Guedes está dando certo: Está chegando o dia que nenhuma empregada doméstica, nenhum metalúrgico e nenhum bancário poderá passear na Disney. Quem quiser que se contente em atravessar a fronteira da Argentina ou do Uruguai pra comprar seu Ford Ka.

PS.: O Ford Ka vai sair de linha. Se você for uma empregada doméstica, um ex-metalúrgico ou um ex-bancário, pode comprar um semi-novo…

2020: Temos o que comemorar?

A Arte de celebrar a vida

2020: Temos o que comemorar?

O ano de 2020 foi um ano bissexto, quer dizer, a cada quatro anos, temos um dia a mais no calendário, mais precisamente o dia 29 de fevereiro. Mas, calma! Geralmente é só isso que se repete a cada ano bissexto.
Segundo o horóscopo chinês, 2020 foi o ano do Rato, começando a 25 de janeiro. Na mitologia chinesa, o rato representa a criatividade; a solução de problemas; a imaginação; o trabalho hiperativo e respeitado por sua capacidade em resolver situações difíceis; a intuição, com a capacidade de adquirir e preservar coisas e valores… E, curiosamente, nunca precisamos tanto destas qualidades nos últimos cem anos, para conseguirmos superar como pudemos, este ano de 2020.
O sol entrou em Aquário a 20 de janeiro inaugurando, segundo alguns uma Nova Era que vinha sendo esperada desde os anos de 1960, quando, na letra de uma das músicas daquele inesquecível musical da Broadway, Hair, a Lua estaria na Sétima Casa e Júpiter, alinhado com Marte, guiaria os planetas à Paz e o Amor comandaria as estrelas… Tudo muito lindo, mas infelizmente… muito fantasioso.
O fato é que tivemos um ano bem difícil! Em janeiro, chegamos muito perto de uma 3ª Guerra Mundial, com ataques entre bases do Irã e dos Estados Unidos no Oriente Médio. Cerca de 500 milhões de animais completamente indefesos morreram numa série de incêndios na Austrália. O Reino Unido saiu, formalmente, da União Europeia e, em menos de uma semana, um tal de novo coronavírus infectou mais de dez mil pessoas e matou mais de 200. Em 30 de janeiro a Organização Mundial da Saúde (OMS), declarou um “surto de doença respiratória de novo coronavírus em estado de Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional.
Em fevereiro, o novo coronavírus chegou ao Brasil, com um primeiro caso na cidade de São Paulo.
No dia 11 de março, a OMS declara como “pandemia a doença do surto de novo coronavírus no mundo”. As reações são imediatas no incrível mundo globalizado: Os mercados de ações globais sofrem seu maior declínio em um único dia desde a segunda-feira negra de 1987. Era o primeiro sinal de desespero. Eventos como as Eliminatórias da Copa do Mundo FIFA de 2022; Campeonato Mundial de Fórmula 1 da FIA; Campeonato Europeu de Futebol de 2020 e Copa América de 2020; Festival Eurovisão da Canção 2020 e até os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 são cancelados.
Em abril, no dia 10, o Brasil chegou às primeiras 1.000 (mil) mortes por COVID-19. Mostrando que isso não era só “uma gripezinha”, como insistia em dizer o presidente daqui… Enquanto isso, nos Estados Unidos, os casos confirmados de COVID-19 chegaram a 1 milhão, também mostrando que não era algo “inofensivo e passageiro” como insistia em dizer o presidente de lá…
Em maio, com 330 mil infecções, o Brasil superou a Rússia e se tornou o segundo país com mais casos confirmados de COVID-19 no mundo. E o presidente insistindo em minimizar a situação. Como se não bastasse, mais animais silvestres morrem, desta vez, no Pantanal Matogrossense.
Em junho, com mais de 41 mil mortes, o Brasil superou o Reino Unido e se torna o segundo país com mais mortes de COVID-19 no mundo. Mas o presidente e seu exército de fanáticos continuam negando a gravidade da situação. Já era 1 milhão de casos confirmados de COVID-19.
Em agosto, o número mundial de mortes causadas pela COVID-19 já ultrapassava a marca de 700 000 e o presidente da Rússia declarou que o país já havia aprovado a primeira vacina do mundo contra a doença. Mas até hoje não sabemos se era verdade ou só um porre de vodka do Putin…
Em setembro, o número mundial de mortes causadas pela COVID-19 ultrapassa a marca de 1 milhão.
Em outubro, o Brasil atingiu 5 milhões de casos confirmados de COVID-19 e superou as 150 mil mortes causadas pela doença. Como se não bastasse tanta tragédia ao longo do ano, ataques terroristas voltam a abalar a França pela selvageria – vítimas foram decapitadas na rua, em plena luz do dia.
Em novembro, finalmente, apesar de mais dias terríveis, sem luz, sem água, sem comida e sem dinheiro aqui no Amapá, começam a aparecer as boas notícias. Primeiro, Donald Trump perde as eleições nos Estados Unidos, não conseguindo se reeleger, apesar de até hoje estar esperneando e fazendo beicinho. Os fascistas apoiados por Bolsonaro levam uma surra nas urnas e quase nenhum dos vermes consegue se eleger para prefeito, vereador ou síndico de condomínio… Até que no dia 2 de dezembro o Reino Unido aprovou a vacina BNT162b2 da Pfizer, sendo o primeiro país do mundo a aprovar uma vacina contra a COVID-19.
Ainda em dezembro, no dia 21, Júpiter não se alinhou com Marte, como diria a música, mas com Saturno, num evento que só acontece aproximadamente a cada 400 anos. Os astrônomos disseram que se tratava do mesmo fenômeno astronômico descrito na Bíblia como a Estrela de Belém, que teria guiado os Reis Magos até a manjedoura onde acabara de nascer Jesus, o Cristo, cerca de 2020 anos atrás.
Talvez este evento sirva para lembrar – pelo menos aqueles que se importam com a magia da vida neste planeta – que, por mais que o ano tenha sido difícil, sempre há uma esperança. E a luz sempre acaba rompendo a escuridão, por mais assombrosa que ela seja.
Ao longo do ano, muita coisa boa também aconteceu, tanto individualmente como coletivamente. Nos primeiros meses, o isolamento social forçado pela pandemia ajudou a fazer com que a natureza voltasse a respirar um pouco e regenerasse seus recursos. Foram registrados altos índices de melhoria nas condições do ar e de muitos mananciais de água. Muitos gestos de amor ao próximo de anônimos se fizeram perceber por várias partes do mundo. Muitas pessoas reavaliaram suas vidas, seu valores, suas prioridades. Outras encontraram um sentido na vida em ajudar alguém. Pudemos perceber, pela primeira vez em anos – talvez em séculos – o quanto estávamos já isolados de nós mesmos e das coisas e pessoas que realmente importam nas nossas vidas e tivemos a chance de nos reaproximarmos de nós mesmos, de convivermos com nós mesmos, até de perdoarmos a nós mesmos…
Óbvio que para muitos o egoísmo continua prevalecendo. São aqueles que negam tudo o que aconteceu e ainda está acontecendo. São aqueles que se recusam a usar uma simples máscara. São aqueles que se recusam a tomar uma vacina que vai, se não acabar, pelo menos controlar mais um pouco o avanço desse vírus e desse caos. São aqueles que acreditam que o planeta é uma tábula rasa, que só o dinheiro salva e que comunista come criancinhas – quando na verdade, muito padre de reputação ilibada é quem está sendo preso por “comer” criancinhas a redor do mundo…
Ainda assim, acredito piamente que 2020 é um ano que tem muito o que comemorar. E mais! Que jamais deverá ser esquecido!
Perdemos e continuamos a perder muita gente querida. É triste. Mas eu aprendi que as coisas são como são. Simplesmente é assim. E temos que conviver com isso. Vamos sofrer? Vamos. E muito! Mas não tem nada errado em sofrer. As lições mais importantes da vida são aquelas que nos chegam geralmente pelo sofrimento e pela dor. Mas isso não é desculpa para querer deixar de viver. Muito pelo contrário. O que precisamos fazer é mudar nossa atitude perante a vida e aproveitar e celebrar cada minuto que temos como se fosse o último, seja por causa de pandemia, de guerra, de ataques terroristas, ou simplesmente pelas agruras do nosso cotidiano.