Quem cuidará?

Cultura… Uma palavra que vem da terra.

O latim, língua mãe da nossa língua, transformou o colere (de “vigiar, cuidar, acompanhar o crescimento de uma planta”) em cultura (de “colheita, agricultura”) dando também um sentido metafórico de “cuidado, ato de honrar”. Assim, tudo que vem, direta ou indiretamente, da terra – sejam plantas ou coisas do bicho-humano – é chamado de cultura.

Gosto da poesia que a metáfora primitiva nos proporciona ao nos fazer enxergar a cultura como um ato de cuidado e de honra, acima de todos os modismos e padrões impostos pela famigerada indústria cultural, goela abaixo de uma sociedade de consumo criada por essa mesma indústria e retroalimentada incessantemente pelos meios de comunicação de massa.

A arte, em todas as suas formas de expressão, e como produto genuíno de um povo, deve ser, acima de tudo, cuidada e honrada. E, uma vez que vivemos num modelo de organização social onde o Estado tem, como um de seus papeis, zelar pelos interesses do povo que o mantém, é seu dever – em todas as suas instâncias (federal, estadual e municipal) – cuidar e honrar a cultura de seu povo. Infelizmente, a realidade é bem diferente…

De um lado, vemos uma tendência geral da própria sociedade em diminuir a importância da cultura – sobretudo das artes – como resultado da industrialização e massificação dos chamados “produtos culturais”. De outro, uma gestão pública que burocratiza e engessa a coisa pública aos moldes de empresa – o que não é (ou, pelo menos, não deveria ser).

Para piorar mais um pouco, surge um novo cenário que pega todo mundo de surpresa – a pandemia – com o fechamento necessário de diversos segmentos funcionais da sociedade, incluindo é claro, os inúmeros estabelecimentos ligados à arte e cultura. Um contingente de artistas, técnicos e produtores culturais se viu totalmente desamparado de uma hora para outra.

Na música, dos mega-produtos do sertanejo, forró, axé, etc. até o músico da noite que bate cabeça de bar em bar aguentando porre e os técnicos de som e luz, todos tiveram suas agendas de trabalho canceladas. O mesmo se deu com as artes plásticas e cênicas que tiveram suas exposições e performances adiadas indefinidamente. Também não foi diferente para poetas e escritores que, já tendo uma enorme dificuldade para publicar seus trabalhos, tiveram que adiar até mesmo seus projetos independentes por causa da paralisação de editoras e gráficas.

Diversos países se apressaram a prestar apoio a estes trabalhadores – sim, artistas também são trabalhadores! – Aqui no Brasil, a pouca ajuda que veio, veio em conta-gotas ou em alguns casos – o que é pior – em cartas marcadas.

A Fundação Municipal de Cultura (Fumcult), aqui em Macapá, publicou em junho um edital de chamada pública para um “Prêmio Artístico Cultural em Tempo de Pandemia”. O resultado divulgado no último dia 23 de setembro mexeu com o ego artístico de muitos inscritos. E, logo, a polêmica se instalou nas redes sociais e na imprensa – como, naturalmente, já era de se esperar.

O edital tinha uns pontos cegos que já haviam gerado uma certa polêmica na época de sua publicação, mas o resultado da premiação divulgado no último dia 23 gerou uma reação de inconformismo, revolta e suspeita de favorecimentos ilícitos por parte de alguns artistas em relação ao diretor-presidente da Fumcult, Alain Cristophe que, logo em seguida, entregou o cargo.

Diante da sede da Fumcult, a poetisa Carla Nobre mostrou toda sua indignação com o resultado do certame. Num vídeo amador rapidamente espalhado na internet, a escritora alega falta de transparência no processo de curadoria e enfatiza que a classe artística não vai aceitar que ninguém “cague” em suas cabeças – “Não venham cagar em nossas cabeças!”, disse Carla.

A reação à fala da escritora foi vista de forma negativa e hipócrita por diversas pessoas. Acharam feio a poetisa falar palavrão. Por certo preferissem uma declamação de algum poema mais “limpinho” – o que me faz lembrar de Belchior em “Apenas um rapaz latino-americano” que dizia: “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve: Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém…”

Na minha opinião (e não deixando passar em branco o trocadilho), o que Carla fez diante da Fumcult foi tão nobre quanto seu sobrenome! Ela usou a palavra certa e adequada para expressara indignação de grande parte da classe artística que se sentiu mais uma vez órfã de apoio à cultura.

Em nenhum momento do vídeo Carla Nobre ataca a pessoa Alain Cristophe ou seus atributos sexuais, mas sua gestão – o que é bem diferente. Mas não demorou muito para que a coisa toda descambasse para o plano pessoal e, o que é pior, misógino…

Não ficou claro se foi o próprio Alain ou alguém que se ofendeu por ele, mas alguém se referiu à artista como “a fedorenta do sexo”. Numa postagem do Facebook, Carla Nobre escreveu: “Ser chamada de A FEDORENTA DO SEXO por gente que apoia quem caiu da cultura de Macapá hoje porque não sabe assinar documento, chega a ser elogio…”

Daí eu fico pensando: “Como é que um protesto legítimo de uma artista reivindicando seus direitos diante do poder público resvala para o terreno sexual?” Bem, sendo eu um psicanalista só posso dizer: “Freud explica!” Enquanto ainda me admiro da mentalidade machista que ainda perpassa todos os segmentos da nossa sociedade. Não importa se o sujeito é de direita ou de esquerda; se é reacionário ou de vanguarda; se tem “um nome a zelar” ou é um “Zé Povinho”, a verdade é uma só: Somos uma sociedade misógina, racista, homofóbica e cada vez mais aculturada. E se cultura é sinônimo de cuidar e honrar, infelizmente ainda estamos muito longe de encontrar alguém nesse cenário que assuma este tão virtuoso papel.

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